Bancos israelitas ameaçam cortar laços com instituições palestinianas
Palestinianos na Cisjordânia ocupada por Israel são aterrorizados por incursões militares e violência de colonos. Mas uma ameaça mais obscura está prestes a paralisar toda a economia do território.
Duas instituições financeiras israelitas que há muito servem como parceiras dos 13 bancos palestinianos —processando transações que viabilizam importações para a Cisjordânia, de alimentos e roupas até gasolina, água e eletricidade— sinalizaram que podem encerrar abruptamente essas relações. Isso cortaria o vínculo financeiro do território com Tel Aviv —e com o mundo exterior.
Se os bancos israelitas rompessem os laços, dizem as autoridades, isso equivaleria à imposição de um bloqueio comercial sufocante.
Os bancos há muito que se preocupam com a possibilidade de serem expostos a processos judiciais por lavagem de dinheiro ou financiamento do terrorismo, e estão cada vez mais frustrados com o facto de o governo de Israel não protegê-los melhor contra esses riscos.
A perspetiva de serem cortados levou autoridades palestinianas a apelar aos governos estrangeiros para que intervenham junto dos israelitas.
Uma reunião sobre o assunto foi marcada para o último dia 23 na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, patrocinada pela Autoridade Monetária Palestiniana com a participação de funcionários da ONU, do Banco Mundial e do FMI, com o título “O Ponto de Ruptura: Soando o Alarme Antes do Colapso”.
“Há um medo enorme”, disse Feras Milhem, que foi governador da Autoridade Monetária Palestiniana de 2021 a 2025. “Há também a crença de que isso não vai acontecer, de que Tel Aviv não pode realmente cortar as relações, a menos que queira empurrar os palestinianos para a anarquia.”
Uma das duas instituições financeiras israelitas, o Israel Discount Bank, escreveu aos seus correspondentes palestinianos a dizer que encerrará as suas relações de “banco correspondente” com eles até 1.º de setembro, de acordo com uma carta obtida pelo “The New York Times”. O outro, Bank Hapoalim, informou o “Times” que estava a considerar tomar a mesma decisão.
Em comunicado na quarta-feira (22), o Ministério das Finanças israelita disse que os dois bancos “anunciaram o seu desejo de cessar a prestação de serviços de correspondência”.
O ministério disse que estava em negociações com eles para encontrar uma “maneira segura e responsável” de continuar essas relações e que o encerramento poderia ter “implicações negativas para a estabilidade económica na região”.
O comércio com Tel Aviv é responsável por 55% das importações palestinianas e 85% das exportações, disse Milhem. Esse comércio é processado pelos bancos correspondentes.
A raiz da potencial crise está na preocupação dos bancos de que poderiam ser expostos a processos judiciais internacionais sob o argumento de que fornecem financiamento para lavagem de dinheiro ou terrorismo.
Os bancos israelitas exigem que o governo israelita mitigue o risco, emitindo cartas que temporariamente os indemnizem contra processos judiciais, além de imunizá-los contra possíveis processos em Israel. Essas cartas têm datas de validade.
Nos últimos anos, autoridades israelitas ameaçaram repetidamente não reemitir as cartas. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, um fervoroso defensor da expansão dos assentamentos israelitas na Cisjordânia, usou as cartas como alavanca dentro do governo para extrair concessões, incluindo aprovação para postos avançados de colonos.
Todas as vezes, o governo recuou sob pressão internacional, incluindo uma intervenção pública da secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, em 2024.
Desde então, no entanto, Smotrich pressionou os palestinianos a estenderem a indemnização por períodos mais curtos —frequentemente por apenas duas semanas de cada vez— e esperando até o último minuto para fazê-lo, disseram autoridades.
Um assessor de Smotrich, que falou sob condição de anonimato, escreveu em comunicado no qual diz que o sistema financeiro palestiniano permanece envolvido em terrorismo e lavagem de dinheiro.
“A exigência de que Israel mitigue esse risco em vez de exigir que a Autoridade Palestina cesse de se envolver em terrorismo e cumpra os padrões internacionais aceitos reflete a hipocrisia e o racismo das baixas expectativas”, argumentou o assessor.
Outros especialistas contestam que o sistema financeiro palestiniano tomou medidas para impedir que o Hamas e outros grupos extremistas tenham acesso a ele.
“O sistema bancário palestiniano não é amigo do Hamas, muito pelo contrário”, disse Daniel L. Glaser, que foi secretário assistente para financiamento do terrorismo no Departamento do Tesouro durante o governo de Barack Obama. “E a Autoridade Monetária Palestiniana não é amiga do Hamas. É uma das poucas coisas que funcionam lá”.
Ainda assim, o governo israelita quer que a Autoridade Palestiniana se submeta a um nível de auditoria financeira que, conforme afirma, ela não passou anteriormente.
A extensão mais recente da indemnização foi de seis meses, até o final de 2026. Os dois bancos israelitas deixaram claro, no entanto, que estão frustrados com a incerteza e as extensões de curto prazo e querem encerrar as relações mais cedo, disseram autoridades israelitas e palestinianas.
Os palestinianos procuraram um plano de contingência em vão. Elas [as autoridades] dizem que trocas de moeda, como em dólar ou euro, seriam suficientes apenas por algumas semanas.
E uma solução mais permanente, como abandonar o shekel israelita como moeda palestiniana, carrega o risco de que Israel possa interpretar isso como uma retirada dos Acordos de Oslo, que proibiam os palestinianos de emitir a sua própria moeda e tornaram o shekel a principal moeda de curso legal.
Isso deixa os palestinianos a contemplar as consequências potencialmente catastróficas do fim das relações bancárias.
A economia da Cisjordânia já está sob enorme pressão devido a medidas punitivas impostas pelo governo de Benjamin Netanyahu após o ataque liderado pelo Hamas ao sul de Israel em outubro de 2023.
Essas medidas incluem a retenção de milhares de milhões de dólares em impostos de importação que Israel arrecada em nome da Autoridade Palestiniana e o cancelamento de permissões de trabalho para dezenas de milhares de residentes da Cisjordânia que costumavam trabalhar dentro de Israel.
Especialistas económicos disseram que bens essenciais se tornariam indisponíveis em pouco tempo se a relação entre bancos israelitas e palestinianos for desfeita. A Cisjordânia obtém 100% do seu combustível, 93% da sua eletricidade e 35% da sua água de Israel, de acordo com Milhem, o ex-regulador bancário.
Muitos disseram esperar que um mercado negro surja, com camiões israelitas a fazer entregas em troca de sacos de dinheiro —um ambiente propício para exploração por grupos terroristas.
“Não é apenas uma questão humanitária; é uma questão de segurança”, disse Milhem.
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