Kevin Warsh penaliza, mas Microsoft salva semana
Os mercados terminaram a semana em ligeira baixa, penalizados sobretudo pela Reserva Federal. No entanto, a reação dos investidores à reunião da Fed e ao discurso do seu presidente, Kevin Warsh, foi aparentemente contraditória. Enquanto a yield das obrigações do tesouro norte-americano a 2 anos, um dos melhores indicadores preditivos para as Fed Funds (taxas de juro diretoras do banco central dos EUA), caiu, a yield a 10 anos subiu. O que é certo é que as probabilidades implícitas no CME FedWatch de uma subida de 25 pontos base na reunião de setembro mantiveram-se praticamente inalteradas, próximas de 60%, sugerindo que o mercado pouco alterou as expectativas para a política monetária de curto prazo.
A divergência entre rendimentos soberanos a 2 e a 10 anos sugere que os investidores distinguiram a política monetária de curto prazo dos riscos de longo prazo. Enquanto as expectativas para a próxima decisão da Fed permaneceram quase inalteradas, aumentou a remuneração exigida para deter dívida pública a longo prazo, refletindo um aumento do prémio de prazo (term premium), isto é, da compensação adicional exigida pelos investidores para assumir os riscos associados ao longo de todo o horizonte temporal da obrigação.
Apesar de Kevin Warsh ter reiterado várias vezes o seu compromisso com o objetivo dos 2%, a persistência de riscos inflacionistas e as preocupações com os elevados défices orçamentais e a crescente emissão de dívida pública norte-americana pesaram mais nas decisões dos investidores. A subida da yield a 10 anos penalizou também as ações com valorizações mais exigentes, sobretudo tecnológicas, onde a taxa de juro é mais importante no desconto dos cash flows. Assim, não houve alteração das expectativas para a próxima decisão da Fed em 16 de setembro, mas houve um aumento do prémio de risco exigido pelos investidores para deter ativos de longo prazo, tanto no mercado obrigacionista como no mercado acionista.
A forte recuperação da Microsoft após a apresentação de resultados, depois do fecho das bolsas norte-americanas na quarta-feira, reforça a ideia de que a queda de Wall Street após a reunião da Fed refletiu, em parte, a redução de risco pelos investidores antes da divulgação dos resultados das grandes tecnológicas, e não apenas uma reação à postura mais restritiva da Reserva Federal. A Microsoft, que representa quase 5% do S&P 500, subiu cerca de 15% no dia seguinte à divulgação dos resultados, respondendo, assim, pela maior parte da subida do índice, após apresentar números muito acima das expectativas, impulsionados pela forte aceleração do Azure e pela crescente rentabilidade dos investimentos em inteligência artificial. Assim, parte da pressão vendedora logo a seguir à reunião da Fed esteve muito provavelmente associada à incerteza em torno dos resultados das maiores empresas tecnológicas. Uma vez dissipada essa incerteza, os investidores voltaram a premiar as empresas que conseguiram provar que os elevados investimentos em IA estão efetivamente a traduzir-se em crescimento das receitas e dos lucros. No caso da Microsoft, isso é particularmente evidente, já que a ação recuperou quase 30% em pouco mais de um mês, desde o mínimo à volta dos 350 dólares por ação.
Em sentido contrário, a cotação das ações da Meta Platforms desvalorizou cerca de 10%, apesar de as receitas terem superado as expectativas. Os investidores reagiram negativamente ao lucro por ação inferior ao esperado, à forte quebra do free cash flow, penalizado pelos elevados investimentos em inteligência artificial, e ao aumento da previsão de investimento para este ano. As diferentes reações da Microsoft e da Meta mostram que o mercado está a distinguir as empresas que conseguem monetizar os elevados investimentos e convertê-los em crescimento das receitas e dos lucros, daquelas em que os custos continuam, para já, a crescer mais depressa do que os cash flows.
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