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Como explicar a demissão de Fedorov?

Como explicar a demissão de Fedorov?

A crise política causada pelas sucessivas demissões de cargos governativos e de posições chave no sistema político ucraniano, culminando com a do ministro da Defesa Mikhail Fedorov, ilustra bem a presente divisão nas elites políticas do país, resultado, acima de tudo, do insucesso da campanha militar contra a Rússia e da necessidade de encontrar estratégias alternativas ganhadoras.
As forças armadas ucranianas não só não conseguiram recuperar terreno como todos os dias recuam, assim o dizem as agências ucranianas Deep State e AMK Mapping. Quem está a ganhar não muda simultaneamente o ministro da Defesa nem o responsável máximo pela campanha militar.
Entretanto, sucedem-se as manifestações em apoio de Fedorov por várias cidades do país, exigindo o seu regresso ao cargo de ministro da Defesa e criticando Zelensky por o ter demitido. Para aliviar a pressão, Zelensky ofereceu a Fedorov outros cargos que ele não aceitou. Um dos pontos de discórdia prendia-se com a tensão permanente entre Fedorov e o general Syrsky, Chefe de Estado-Maior General, homem de confiança de Zelensky, sobre como conduzir as operações militares.
Fedorov queria intrometer-se nas questões táticas. A intromissão de políticos nas operações tem dado, normalmente, mau resultado. Fedorov e os seus apoiantes ocidentais perceberam que podiam atingir a profundidade da Rússia com drones em vez de mísseis de longo alcance, por serem mais baratos e evitar os imbróglios políticos intrincados causados pelos mísseis, o que faz todo o sentido do ponto de vista estratégico. Fedorov devia ter ficado por aí. Esqueceu-se do que se ensina nas escolas militares, que ele não frequentou. A vitória materializa-se com a ocupação do terreno e para ocupar o terreno são precisos soldados que a Ucrânia não tem.
Após muitas pressões, procurando uma solução de compromisso com o grupo desafiador apoiante de Fedorov, Zelensky demitiu Syrsky nomeando em sua substituição o general Drapaty, próximo de Fedorov. Estes desenvolvimentos mostram que a margem de manobra de Zelensky se tem vindo a estreitar, tendo sido obrigado a afastar pessoas da sua confiança. A maior baixa terá sido a do seu fiel chefe de gabinete Andriy Yermark, afastado na sequência do escândalo de corrupção. A proximidade com o seu substituto, o general Kirill Budanov, está longe de ser a mesma. Zelensky mantém ainda um leque considerável de pessoas da sua confiança em posições chave, nomeadamente, David Arakhamia líder da bancada parlamentar do partido Servo do Povo.
Na função de ministro da transformação digital, que exerceu de agosto de 2019 a janeiro de 2026, antes de ser nomeado ministro da Defesa, Fedorov esteve sempre muito ligado à modernização das Forças Armadas. Em 2022, conjuntamente com o Estado-Maior e a “UNITED24 Platform” lançou o programa “Drones do Exército”, uma iniciativa para financiar a aquisição, reparação e substituição de drones. O programa incluía ainda um curso de formação de pilotos de drones.
Em 2023, Fedorov anunciou a criação das primeiras companhias do mundo, de ataque com UAV, a serem equipadas com drones e terminais Starlink. Conjuntamente com outras entidades ucranianas criou uma plataforma (Brave1) para angariar fundos para adquirir armamento. Em meados desse ano, já tinham sido, segundo ele, criadas mais de 20 escolas para operadores de UAV e formados mais de 10 mil operadores. Outros programas se seguiram para ensinar as pessoas a montar drones em casa, substituindo/complementando o fabrico industrial.
Quem está a promover Fedorov?
Em julho de 2025, conjuntamente com Andrius Kubilius, o Comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Fedorov anunciou a criação do “BraveTech EU”, um projeto da Comissão Europeia para financiar startups tecnológicas europeias de defesa, dando-lhes a oportunidade de testarem os seus produtos no Teatro de Operações da Ucrânia.
Fedorov negociou pessoalmente o financiamento de vários projetos com Rachel Reeves, a ex-ministra do Tesouro britânica, e criou mecanismos de fornecimento de drones à Ucrânia recorrendo às estruturas da UE. O seu envolvimento ativo na indústria de defesa permitiu-lhe criar uma enorme rede de contactos. Fedorov não só não passou despercebido como ganhou uma notável visibilidade no seio do complexo industrial-militar norte-americano e europeu. O protagonismo que granjeou através destes contactos e projetos alavancou a sua imagem e chamou a atenção para a possibilidade de poder vir a ser mais útil.
Conscientemente ou não, Fedorov adquiriu imensas vantagens competitivas sobre os seus adversários políticos. A possibilidade de ser uma alternativa a Zelensky começou a ganhar forma. O Rating Group, uma companhia de sondagens ucraniana financiada por várias organizações internacionais, tornou-se um elemento crucial da engrenagem que já está em marcha. Fedorov com 13,4% das intenções de votos passou a incluir a lista dos três candidatos mais votados (Volodymyr Zelensky, 22,3% e Valerii Zaluzhnyi, 14,9%) numa sondagem recente. Alguns apontam ter sido o seu protagonismo e a possibilidade de vir a tornar-se num rival de Zelensky o verdadeiro leitmotiv da sua demissão.
Não só passou a ser claro para os patrocinadores internacionais que Zelensky já não era indispensável, como tinham encontrado um putativo sucessor “à maneira” disponível para entrar na corrida à sua sucessão. Era mais fácil falar e fazer negócios com Fedorov que, entretanto, se tornou o “favorito” do ocidente. Alguns analistas afirmam que Fedorov representa os interesses de Washington ou de Londres. Não é difícil estabelecer uma ligação entre drones, dinheiro e Londres. Só em 2026, a UE desembolsará 28,3 mil milhões de euros para apoiar a capacidade industrial de defesa da Ucrânia combinando-a com o complexo industrial-militar europeu.
Torná-lo o próximo presidente seria a cereja no bolo. Vários órgãos da comunicação social ocidental têm avançado com essa possibilidade. O plano parece estar já em marcha, apesar de Fedorov não ter anunciado publicamente essa intenção. O “The Times” foi mais longe, dizendo que Fedorov “ foi encorajado a fundar um partido político anticorrupção… a sua crescente popularidade, aliada ao historial de Zelensky afastar aliados influentes, alimentou especulações de que esta medida poderá ter fortalecido um potencial rival, em vez de o ter enfraquecido.”
Alguns afirmam que o comportamento de Fedorov após a sua demissão assemelha-se bastante ao de uma campanha eleitoral. Por isso, seria ingénuo pensar que as manifestações em seu apoio são espontâneas e inorgânicas. Não é por acaso que ocorrem simultaneamente em 11 ou 12 regiões. São coordenadas e organizadas com envolvimento externo. Não são espontâneas nem uma expressão da revolta popular. Começam a assumir os contornos de uma revolução colorida.
Os russos ainda não conseguiram causar na Ucrânia os danos e o sofrimento necessários para que os seus dirigentes sintam que foi atingido um impasse doloroso. Enquanto isso não acontecer, a Ucrânia não sentirá a necessidade de ir para negociações. Kiev e os seus patrocinadores continuarão a alimentar a ilusão de que podem vergar a Rússia.
Não se espere uma solução política para o conflito, se a fação e os interesses com que Fedorov está alinhado vier a tomar o poder. O conflito não só continuará como aumentará de intensidade. A sua proximidade a Londres assim o faz antever, uma vez que Londres não pretende uma resolução pacífica do conflito. Fedorov é o homem certo no lugar certo.

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