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Segurança, turismo e cidade

Segurança, turismo e cidade

Este verão está a ser marcado por um conjunto de notícias de natureza aparentemente diversa, que têm por pano de fundo o Turismo e a Segurança.
Surgiram notícias sobre a crise no setor da restauração, com alguns Chefes a darem a cara, logo contrariados pelo Governador do Banco de Portugal, que vislumbra subidas nos volumes de negócios e o crescimento global do setor, acompanhadas de notícias que dão conta do início de uma crise no turismo, apesar do seu crescimento global.
No caso da Capital, de acordo com a informação estatística divulgada pelo Turismo de Lisboa, em junho de 2026 quando comparado com o mesmo mês em 2025, regista-se uma descida global de ocupação na hotelaria de 4,0%, a qual é mais expressiva nas unidades de 5 estrelas, que apresentam uma quebra de 6,6%. O rendimento por quarto desceu globalmente 3,6%, sendo que a quebra atingiu mais severamente as unidades de 5 estrelas, com uma quebra de 7,6%.
Mais recentemente fomos surpreendidos pela notícia de uma turista sueca baleada em plena Rua Augusta, na sequência de um desentendimento entre vendedores de louro prensado, à qual sucederam-se declarações diversas, entra as quais do Presidente da Câmara, que mais uma vez combinou populismo e falta de noção sobre o papel que lhe cabe na resolução estrutural dos problemas, como se os problemas de segurança se resolvessem magicamente e apenas com maior presença policial nas ruas.
O Centro Histórico de Lisboa entrou num processo de declínio urbano progressivo, desde os anos 20 do Século XX. Este processo foi marcado pelo  abandono progressivo e degradação do tecido urbano, sentido na perda de centralidade, com a saída de centros de decisão e a criação de novas centralidades comerciais periféricas, acompanhado por uma contínua desertificação residencial, num círculo vicioso que parecia não ter fim.
Porém, na segunda década do Século XX iniciou-se uma dinâmica de regeneração urbana da Cidade, que inverteu esse círculo vicioso.
Em 2011 aprovou-se o Plano de Pormenor de Salvaguarda da Baixa Pombalina, que enquadrou o enorme esforço de reabilitação do edificado da Baixa, acompanhado de uma programação de projetos municipais estratégicos que alavancaram um processo de regeneração urbana desta área.
Também em 2011 iniciou-se um profundo processo de regeneração urbana da Mouraria, que acabou com a estigmatização da zona do Intendente, durante décadas marcada pelo tráfego de droga e prostituição.
Em 2012 aprovou-se a primeira revisão do Plano Diretor Municipal que consolidou uma nova visão estratégica para Lisboa, da qual emergiu a Estratégia de Reabilitação Urbana, fundamental para revalorizar as áreas consolidadas e centrais da Cidade.
Em 2012 e em 2018 aprovaram-se, respetivamente, os Planos de Pormenor do Aterro da Boavista Nascente e Poente, que, em conjunto com as intervenções urbanas sobre o Largo de São Luiz e o Mercado da Ribeira, induziram uma dinâmica urbana sobre a zona de São Paulo, até então marcada pela degradação e abandono do património construído e por uma forte presença de prostituição de rua e por outras atividades marginais.
Esta estratégia conjugada de regeneração urbana teve enorme sucesso, trouxe visibilidade externa à Cidade, propiciando a aceleração do crescimento do Turismo, o qual, em 2023, representava 18% do emprego em Lisboa, segundo a publicação Economia de Lisboa em Números 2025.
O crescimento do Turismo foi importante para alavancar a reabilitação urbana do Centro da Cidade, no entanto o seu rápido crescimento, a sua excessiva concentração urbana, trouxe novos desafios urbanos por resolver – um amigo um dia explicou-me que a ténue diferença entre o remédio e o veneno está na dose!
As Cidades comportam-se como os organismos vivos, requerem cuidados permanentes e uma atenção redobrada dos seus responsáveis para que os novos problemas não se sobreponham e as condenem a novos círculos viciosos.
A massificação e monocultura do Turismo no Centro de Lisboa, conjugada com uma falta de regras na noite lisboeta, cria o caldo ideal para induzir uma dinâmica de alteração do perfil do Turismo, especializando-a em Turismo etílico – destino de despedidas de solteiro e de grupos de amigos que buscam o divertimento noturno.
Esta alteração de perfil induz perda de valor económico, aumento da descaracterização do comércio tradicional, adensa a infernal a vida dos poucos residentes que resistem, atrai atividades marginais, designadamente a venda de droga e, paralelamente, de louro prensado no centro do último acontecimento dramático noticiado. Esta dinâmica ajudam a explicar as conclusões contraditórias com que iniciamos esta reflexão, sobre as alegadas crises nos setores da restauração e do Turismo.
Estes problemas foram sentidos por outras cidades europeias, que iniciaram estratégias de inversão do caminho. Porém, em Lisboa, a atual maioria que governa a Câmara, sem estratégia e visão de Cidade, não quer apertar a regulação da concentração do alojamento local, não vê urgência em iniciar a revisão do Plano Diretor Municipal, para contrariar a concentração turística, para promover a sua dispersão, permitir a emergência de habitação acessível dispersa por todo o território e apertar regras de proteção do comércio tradicional. Temas fundamentais para a incrementar a vivência dos bairros e respetivo aumento da precessão de segurança.
Em paralelo, torna-se necessário aplicar uma política de requalificação do espaço público para a prevenção da criminalidade – CPTED, Crime Prevention Through Enviromental Design. Dentro deste princípio é prioritária a concretização da requalificação do Martim Moniz, no eixo Rua da Palma/Almirante Reis, conjugada com a concretização da ligação da Rua do Benformoso a este eixo urbano, com a concretização de equipamentos de integração das comunidades migrantes, há muito projetados.
Em Lisboa necessitamos de um governo local focado na resolução estrutural dos problemas urbanos e menos preocupado em comunicar lógicas populistas que não resolvem e que, com o tempo, os agravam.

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