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Uma presidência inconsequente

Uma presidência inconsequente

Donald Trump talvez venha a ser lembrado como um dos presidentes de maior impacto da história americana — paradoxalmente, pelas consequências de uma presidência profundamente inconsequente. Há uma diferença fundamental entre governar os Estados Unidos e governar como se o país existisse sozinho no mundo. Trump parece ignorá-la. O problema não é apenas sua imprevisibilidade, mas também a sucessão de decisões cujos efeitos atravessam fronteiras e tornam o sistema internacional mais instável.
No comércio, as tarifas deixaram de ser instrumentos excepcionais para se tornarem armas de pressão. Parceiros e adversários são submetidos à coerção económica, as cadeias produtivas são reorganizadas e os investimentos são adiados. Quando os Estados Unidos transformam o acesso ao seu mercado em um instrumento político, a incerteza passa a integrar o custo do comércio mundial.
No Médio Oriente, as consequências são ainda mais perigosas. A escalada com o Irão e a instabilidade no estreito de Ormuz demonstram como decisões tomadas em Washington repercutem no preço do petróleo, nos fretes e na inflação. Uma decisão militar pode ser americana, mas a sua responsabilidade é global. Ao mesmo tempo, o apoio político, militar e diplomático dos Estados Unidos a Israel acompanhou a devastação de Gaza, marcada por acusações de genocídio e por uma crise humanitária. As atuais tentativas de Trump de impor uma saída não apagam a responsabilidade de Washington pelo apoio prestado ao longo da tragédia.
Na Ucrânia, a promessa de uma solução rápida deu lugar à persistência de uma guerra que continua a provocar mortes, destruição e insegurança. O conflito mantém a Europa sob tensão e impede a construção de uma arquitetura de segurança continental minimamente estável.
A Europa, aliás, talvez seja uma das maiores vítimas dessa desordem. Espremida entre uma Rússia agressiva, uma China economicamente indispensável e os Estados Unidos cada vez mais imprevisíveis, vê a sua posição global deteriorar-se. A Ucrânia expôs a sua dependência militar; as disputas comerciais, a sua vulnerabilidade económica; e Gaza, a sua dificuldade de transformar valores proclamados em influência política. Rica, mas geopoliticamente enfraquecida, continua distante da autonomia estratégica que há tanto tempo anuncia.
Na América Latina, Washington volta a tratar o Hemisfério Ocidental como esfera privilegiada de influência. O paradoxo é evidente: quanto maior a pressão para que os vizinhos escolham lados, maior o incentivo para diversificarem parceiros e reduzir dependências.
Existe uma lógica na estratégia de Trump: reindustrializar os Estados Unidos, conter adversários, pressionar aliados e recuperar liberdade de ação. Mas estratégia sem responsabilidade pelas consequências pode acabar corroendo o próprio poder que pretende ampliar.
Durante oito décadas, a liderança americana não dependia apenas de dólares, tecnologia e porta-aviões. Dependia de algo mais difícil de construir: confiança. Não que essa liderança tenha sido imaculada, mas os aliados aceitavam a primazia americana porque Washington também oferecia um certo grau de previsibilidade, de instituições e de segurança. Esse património está sendo exaurido.
O maior perigo para os Estados Unidos não é que a China simplesmente os substitua. É que aliados, parceiros e adversários concluam simultaneamente que depender de Washington passou a ser um risco. Não precisam abandonar os Estados Unidos. Basta começarem a construir alternativas.
Uma grande potência consegue impor decisões. Uma potência duradoura leva os demais a considerar vantajoso permanecer ao seu lado. Trump parece obcecado pela primeira capacidade e perigosamente indiferente à segunda. “America First” está produzindo um mundo que aprende a precisar menos da América. E, assim, “America First” caminha a passos largos para “America Last”.

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