Bienal de Arte de Veneza: E se adiássemos o fim do mundo?
Polémica. Ruidosa. Espelho do mundo conturbado em que vivemos? A 61.ª edição da Bienal de Arte de Veneza anunciou-se turbulenta antes sequer de começar, a 9 de maio de 2026. A geopolítica infiltrou-se, a mediatização instalou-se. A morte da curadora Koyo Kouoh, em 2025, marcou profundamente o processo curatorial. Houve ações de censura, caso do pavilhão da África do Sul. Exclusões ao prémio maior da bienal, o Leão de Ouro, decididas pelo júri. Quem? Os países cujos líderes enfrentam acusações de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional – uma medida dirigida sobretudo à Rússia e a Israel. E deu-se visibilidade a vozes historicamente marginalizadas, em linha com a visão de Kouoh. “A 61.ª edição da Bienal de Arte assenta na profunda convicção de que os artistas são os intérpretes essenciais da condição social e psíquica e catalisadores de novas relações e possibilidades”, escreveu a curadora. E antes de navegarmos pelas possibilidades – sim, existem, ainda podemos ter esperança – recordamos que o júri se demitiu em bloco, sem apresentar explicações substanciais, na véspera da abertura. A contestação foi imediata, com muitos artistas e pavilhões nacionais a boicotar esta modalidade, retirando-se da candidatura ao sufrágio.
Se há algo que o mote desta bienal, In Minor Keys, conseguiu fazer foi expor a contestação ao status quo que contamina o mundo da arte e reforçar uma verdade por demais gritante: vivemos num mundo em transformação.
Manifestações contra a presença do pavilhão da Rússia e de Israel. Muitas. Mais. Os movimentos pró-Ucrânia nos Giardini, um dos núcleos da Bienal de Arte, multiplicaram-se. De novo a (geo)política. E o descontentamento, espelhado pela greve dos trabalhadores da Bienal. Instituição fundada em 1895, uma década depois da Conferência de Berlim, e que apenas foi interrompida três vezes ao longo da sua história. Entre 1942 e 1948, devido à II Guerra Mundial. Em 1993, quando foi atrasada para fazer coincidir a data com o centenário. E em 2022, quando a pandemia de covid-19 obrigou ao adiamento da exposição por um ano.
A esperança, contudo, existe. Porque nem toda a arte está ao serviço de interesses. Quaisquer que eles sejam. Mercado de arte incluído. Em In Minor Keys há muitos alertas, perguntas também. Não tanto para onde caminhamos, nós, humanidade. Mas que mundo queremos e como mantê-lo vivo para podermos caminhar e fazer futuros.
As nossas escolhas
Sem descartar a subjetividade como trilho a percorrer no presente, porque os gostos discutem-se, as sugestões que se seguem não apontam a soluções para os males da humanidade. Viajam entre diferentes conceitos estéticos e vão desde as representações dos países participantes – no Arsenale e Giardinni – às múltiplas propostas colaterais em espaços tão diversos como palácios, arquivos ou armazéns desativados. A ideia é resgatar o ócio e o lazer, lendo o mundo através da arte. E (re)descobrir Veneza, cidade-fábula que estimula o flâneur/flaneuse de quem ama as cidades. Furtando a imagem ao arquiteto Siza Vieira, a Sereníssima convida-nos a fixar imagens “sem mapa e com uma absurda sensação de descobridor”.
É com este espírito que iniciamos a visita ao Arsenale. O design expositivo tanto se revela cacofónico numas salas, como bem conseguido noutras. Destacamos os pavilhões da Argentina e da Arábia Saudita, aqui apresentados lado a lado. A Arábia Saudita, pela artista Dana Awartani, apresenta um vasto tapete de mosaicos que recuperam tradições artesanais em perigo, devido à proliferação de conflitos bélicos na região do Médio Oriente; e Matías Duville (Argentina) escolheu representar uma superfície composta por sal e carvão, que realça a importância destes elementos naturais. Propostas distintas e modos diferentes de pensar o território, a memória e a paisagem, mas cujo diálogo resulta especialmente bem. A contrastar com a estética geral desta Bienal, o artista chileno Alfredo Jaar – que expõe, até 26 de setembro, “One Million Points of Light”, na Galeria Francisco Fino, em Lisboa – apresenta um longo corredor minimalista iluminado por luzes vermelhas de emergência. Ao fundo, dez dos minerais mais essenciais do planeta, entre eles o lítio, foram comprimidos num pequeno cubo. O espaço claustrofóbico e sem saída de “The End of the World (2023–2024)” lembra-nos, de uma forma brutal, que estes minerais, ditos indispensáveis para a ‘evolução’ da sociedade, envolvem algumas das práticas mais letais do mundo.
Fora do Arsenale, na Fondamenta Casa Nouve, encontramos o Pavilhão do Panamá e a exposição “Tropical Hyperstition”. Antonio José Guzmán e Iva Jankovi, que no seu trabalho a quatro mãos se apresentam como “Messengers of the Sun”, reúnem têxteis, som e memória numa abordagem multidisciplinar que revisita as rotas e os imaginários do Atlântico Negro, a cultura híbrida e transnacional que decorre da experiência histórica da diáspora africana. O azul índigo é omnipresente na gigantesca instalação têxtil destes ‘Mensageiros’ e simboliza o legado da escravatura, dos intercâmbios, do desenraizamento, que ainda hoje ecoam nas tradições afro-caribenhas.
No primeiro andar do Palazzo Bollani, a poucos passos do Arsenale, temos encontro marcado com Tegene Kunbi, em representação da Etiópia. Um conjunto de pinturas, a maioria em grande escala, destaca-se pelas cores vibrantes. Serenas à distância, plenas de estórias e camadas quando vistas de perto. “Shapes of silence” gira em torno do tema “silêncio”, condição política e social profundamente enraizada na cultura etíope. Abstração e assemblage, elementos têxteis e camadas de tinta convergem numa narrativa que desafia a hierarquia da voz (quem pode falar, afinal?), da visibilidade e do poder. Numa Bienal eclética q.b., o que a memória guarda de forma mais vívida são as criações de artistas africanos e afrodescendentes, os mais marcantes nesta incursão a Veneza, incluindo nos eventos paralelos, para onde seguimos sem delongas.
O espaço agora não poderia ser mais institucional. A Gallerie dell’Accademia, fundada em 1750, abriu-se à artista sérvia Marina Abramovic, a primeira artista viva a apresentar uma exposição a solo na histórica instituição veneziana. “Transforming Energy” é, também, a primeira mostra a espraiar-se pelas salas dedicadas à exposição permanente e temporárias da Accademia. Os visitantes são convidados a interagir com as criações de Abramovic. As sensações táteis são aqui fundamentais para se sentir as transferências de energia entre corpo, espaço e obras de arte. As que a artista sérvia criou, sim, mas também obras-primas de Belinni, Ticiano e Paolo Veronese. A observação passiva aqui não entra. Não tocar, não sentir os materiais, não participar é ignorar olimpicamente a proposta de Abramovic e fechar a porta à mudança interior.
Qualquer visita à Sereníssima pede uma imersão na Coleção Pinault, que se desdobra entre a Punta della Dogana e o Palazzo Grassi. Não resistimos a começar pelo antigo armazém reinventado por Tadao Ando e que, sem envolver Nietzsche, nos recorda uma frase sua. Qualquer coisa como não há outra expressão para música que não seja Veneza. O encontro entre a artista norte-americana Lorna Simpson – naquela que é a mais importante exposição na Europa em mais de uma década – e o músico e compositor Jason Moran, seu conterrâneo, está em sintonia com o filósofo. Por um lado, temos a evolução de Simpson da fotografia conceptual para a pintura, por outro, uma performance inesperada de Moran. A exposição “Third Person” abarca 20 anos de trabalho, incluindo novas peças criadas expressamente para Veneza, e reúne 50 obras, entre as quais as icónicas séries “Ice” e “Special Characters”. Nesta última, Simpson analisa a instabilidade da memória e os mecanismos de estereótipos raciais e de invisibilização sobre uma paleta de colagens e ‘blues noturnos’.
E se os blues nos remetem para os Estados Unidos, a proposta inesperada da Fondazione Prada tem lastro musical, sem dúvida, mas acima de tudo, mensagens politicamente carregadas. O que esperar de “Helter Skelter”, a exposição que junta, pela primeira vez, os artistas norte-americanos Arthur Jafa e Richard Prince? Filme, fotografia e escultura falam-nos sobre o papel determinante da raça, do género e da classe social na cultura popular dominante e nos meios de comunicação dentro e fora dos Estados Unidos pelo olhar acutilante de Jafa – que em 2020 esteve no Museu de Serralves com “Uma série de prestações absolutamente improváveis, porém extraordinárias”. A par do desejo, da masculinidade e de toda a mitologia popular dos States, que explodem nas pinturas de Prince. E crítica social. Muita.
De novo no ‘universo Pinault’, desta feita no Palazzo Grassi, deparamo-nos com “Promise of Change” do pintor britânico-queniano Michael Armitage. Uma ‘promessa’ em torno de 45 pinturas e mais de 100 estudos e desenhos da última década, que oscilam entre violência política, repressão, migrantes, alegorias (nenhuma delas leve) e a ténue fronteira entre existir e ficar à margem. Ao longe ainda o murro não atingiu o estômago. Ao perto, as histórias de Armitage são bofetadas, mas nunca descrentes na “promessa de mudança”. Acreditamos?
O exterior do Complesso dell’Ospedaletto não nos prepara para o vulcão de emoções que nos espera no interior. Fundado no inverno da fome de 1527, para acolher os pobres famintos da região de Veneto, endureceu em pedra e tornou-se, nos cinco séculos seguintes, num orfanato, depois num hospital e, por último, num lar para idosos moribundos. A arquitetura ainda guarda a memória desses trânsitos, uma espécie de limbo que agora acolhe os projetos que a Fondazione in Between Art Film organiza para coincidirem com a Bienal de Arte. Este ano, a exposição curada por Alessandro Rabottini e Leonardo Bigazzi, com cenografia do estúdio 2050+, flui sem interrupções da igreja até o antigo hospital. O percurso tem o seu quê de escatológico. Inicia-se na escuridão e, depois, propõe ao visitante uma longa subida em direção à luz. “Canicula” foi uma das exposições mais marcantes, pela forma como explora o colapso iminente da sociedade, pondo o dedo nas nossas principais feridas: informação, controlo, guerra, ciência, consumo, produção de memória e gestão do poder e da verdade. Lucidez terminal? Cegueira absoluta? O que diria Saramago deste ‘ensaio’… Dez artistas de diversas origens – Ucrânia, Peru, China, Jordânia, Itália, Grécia e Reino Unido – convocam o desconforto e a ansiedade em relação ao futuro para fazer luz sobre o presente.
A fragilidade humana é uma constante, mas a beleza do ato criativo parece gritar que a violência não tem de ser o único caminho possível. É verdade que, muitas vezes, a realidade do presente parece impor-se, ferindo o tom de introspeção a que a Bienal apela. O caos espreita. A dúvida surge com uma precisão incómoda. Mas, mesmo sabendo que as tensões e o desassossego são o ar que a arte respira, não queremos entrar em contagem decrescente para o fim do mundo.
A Bienal de Arte de Veneza decorre até 22 de novembro de 2026
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