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O futuro da energia em Portugal constrói-se com mais opções, não com menos

O futuro da energia em Portugal constrói-se com mais opções, não com menos

A transição energética portuguesa entrou numa fase decisiva, depois de vários anos em que a atenção se centrou na necessidade de acelerar a eletrificação da economia e aumentar o peso das energias renováveis. A ambição de avançar na redução de emissões continua a ser inquestionável, mas a realidade demonstra que este objetivo dificilmente poderá ser alcançado através de uma única solução tecnológica. Para o conseguir, considero que é necessária uma visão integrada do sistema energético, baseada na complementaridade entre os diferentes vetores energéticos e na capacidade de responder às necessidades concretas dos cidadãos, das empresas e dos territórios.
A crescente reflexão em torno da segurança do abastecimento energético, intensificada após o apagão que afetou Portugal e Espanha, deixa patente que uma política energética realista deve ser construída não só em função dos objetivos de longo prazo, mas também da resposta às necessidades do presente. Uma transição bem-sucedida depende da capacidade de reduzir as emissões sem comprometer a competitividade económica, a coesão territorial, a segurança energética, nem deixar para trás pessoas, empresas ou setores para os quais determinadas tecnologias ainda não constituem uma alternativa viável. Só uma transição energética inclusiva, que tenha em conta a diversidade de realidades do território e da atividade económica, permitirá avançar de forma sustentável num contexto internacional cada vez mais exigente.
Apesar do extraordinário desenvolvimento verificado na produção de eletricidade renovável, ainda existem milhares de empresas e milhões de consumidores para os quais a eletrificação total não constitui, pelo menos a curto e médio prazo, uma alternativa técnica ou economicamente viável. Esta realidade é especialmente evidente no transporte pesado rodoviário, bem como em numerosos territórios, explorações agrícolas, atividades de restauração, hotelaria, comércio e diversos processos industriais, onde continuam a ser necessárias soluções energéticas capazes de garantir flexibilidade, disponibilidade imediata e uma elevada fiabilidade operacional. Ignorar esta realidade significaria transformar a transição energética num exercício exclusivamente teórico, desligado das condições reais em que famílias e empresas desenvolvem a sua atividade quotidiana.
É precisamente neste contexto que o GLP (butano e propano) continua a consolidar-se como um elemento relevante do atual mix energético português e constitui uma solução complementar que permite acelerar a redução de emissões em setores onde outras alternativas enfrentam limitações técnicas, económicas ou de infraestruturas. O debate energético tende, por vezes, a colocar uma falsa dicotomia entre a eletricidade e os combustíveis líquidos e gasosos, quando o que o país realmente precisa é de um sistema assente na neutralidade tecnológica, capaz de integrar diferentes soluções em função do uso mais eficiente em cada contexto.
As vantagens desta abordagem tornam-se especialmente evidentes quando analisamos o contributo ambiental que o GLP já proporciona atualmente. No âmbito da mobilidade, por exemplo, o Autogás permite reduzir até 20 % as emissões de dióxido de carbono em comparação com os combustíveis líquidos tradicionais, reduzir significativamente as emissões de óxidos de azoto (até 96 % face ao gasóleo e 68 % face à gasolina) e diminuir até 99 % outras partículas poluentes, contribuindo para uma melhoria efetiva da qualidade do ar, especialmente nos centros urbanos. Estes resultados demonstram que a descarbonização não depende apenas das soluções que estarão disponíveis nas próximas décadas, mas também da capacidade de aproveitar tecnologias que já geram benefícios ambientais imediatos, sem exigir grandes investimentos em novas infraestruturas nem a substituição dos equipamentos existentes.
Além disso, o GLP (butano e propano) possui características que reforçam significativamente a sua capacidade de resposta quando tal é necessário. A possibilidade de armazenamento descentralizado, a autonomia em relação à rede elétrica e a facilidade de distribuição permitem garantir a continuidade de numerosas atividades quando ocorrem interrupções noutros sistemas de abastecimento. Esta realidade ganha especial relevância não só em situações excecionais, mas também naquelas zonas onde o acesso a determinadas infraestruturas continua a ser limitado, permitindo que famílias, empresas e serviços essenciais disponham de uma solução energética competitiva, fiável, disponível e adaptada às suas necessidades específicas.
Importa ainda salientar que a evolução do GLP avança em consonância com os objetivos de descarbonização estabelecidos por Portugal e pela União Europeia. O desenvolvimento do biopropano e do BioAutogás, produzidos a partir de matérias-primas renováveis e resíduos orgânicos, demonstra que esta família de energias também está plenamente comprometida com a redução da pegada de carbono. Sendo molecularmente equivalente ao GLP convencional, o biopropano pode ser utilizado nas infraestruturas atualmente existentes, permitindo reduções das emissões de dióxido de carbono. No âmbito da mobilidade, esta redução pode atingir até 92 % em comparação com os combustíveis líquidos tradicionais, sem necessidade de realizar investimentos adicionais em equipamentos ou infraestruturas de distribuição. Esta evolução tecnológica evidencia que a inovação energética não depende apenas da criação de novas soluções, mas também da capacidade de tornar progressivamente mais sustentáveis aquelas que já fazem parte do dia a dia de milhões de consumidores.
Portugal reúne hoje as condições necessárias para continuar a afirmar-se como uma referência europeia na transição energética. No entanto, essa liderança dependerá da capacidade de desenvolver políticas públicas assentes no pragmatismo, na neutralidade tecnológica e na valorização de todas as soluções que possam contribuir para reduzir as emissões, reforçar a segurança do abastecimento e promover uma transição energética inclusiva, capaz de não deixar ninguém para trás. O sucesso dependerá da integração de soluções complementares que respondam às necessidades atuais da economia e da sociedade portuguesa, garantindo que tanto os grandes centros urbanos como o mundo rural, as famílias, as empresas e setores como o transporte pesado possam avançar para a descarbonização com alternativas viáveis, reforçando ao mesmo tempo a resiliência do sistema energético nacional.

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