Arte e política
Sobre este tema já tive a oportunidade de falar recentemente, numa apresentação na galeria Anjos Teixeira. Tendo estado ligada ao teatro e à política, desde a adolescência, foi-me consequente, e inevitável, comprovar esta afinidade “arte-política”. E não poderia ser de outra forma, na medida em que os artistas – os grandes artistas, pelo menos – são agentes de sensibilidade e de caminhos que abarcam ideias e reflexões sobre questões fundamentais, sociais, políticas e humanitárias. É o denominado papel social (e humanitário) da arte que certamente está na origem do medo que os sistemas neoliberais lhe reservam ao ponto de a estigmatizarem e querem controlar.
Esta, é uma temática sobre a qual muitos intelectuais se debruçaram (como Brecht, no teatro; ou Erwin Piscator, no teatro e cinema, por exmplo) chegando mesmo a produzir manifestos por uma Arte Revolucionária, convocando artistas de todo o mundo a se unirem para fazer valer os princípios revolucionários, contra os quais, sobretudo numa Europa dos anos 20, 30 e 40, se insurgiam correntes capitalistas, burguesas e fascistas.
André Breton também foi disto paradigmático, mediante a sua corrente contestadora do século XX, o Surrealismo. Uma corrente de afirmação da Liberdade intelectual e artística que resistiu aos intentos do controlo do Estado sobre a criação artística, que a queria como instrumento totalitário e propagandístico. Tivemos o exemplo do fascismo hitleriano, que eliminou da Alemanha os artistas que expressavam a Liberdade e obrigou outros a converter-se em lacaios- como Leni Riefenstahl? (Na verdade, há correntes que afirmam que foi defensora do regime e propaganda nazi). Pessoalmente, custa-me a crer, na medida em que considero que dificilmente um génio seria capaz de criar artisticamente contra a sua convicção e consciência que é, porventura, o maior pressuposto e precursor da arte, a não ser que fosse por sobrevivência ou por coação…
Facto, é que os totalitarismos (e também as maiorias absolutas, sobretudo as que perduram décadas no poder…) encontraram na arte não só uma forma de difusão ideológica, mas também de disciplina do coletivo. É uma forma fácil e acessível para transmitir a sua mensagem e controlar a sociedade, negando-lhe a crítica e o questionamento. Ou seja, para alguns regimes, a arte reduz-se a propaganda ou a lucro, e uma forma de controlar a sua expressão é através do controlo direto dos seus meios de produção, monopolizando as ferramentas de produção de arte e cultura, tornando a sua produção, e também o seu acesso, exclusivos e elitistas. E deste modo, vão eliminando a possibilidade do “contraditório” e marginalizando a crítica social.
Há uma indústria cultural e artística que emite produtos de validade curta, extemporâneos e descartáveis, sobretudo nos meios televisivos, potenciais difusores de mensagens premeditadas, que não descuram a lógica nem o lucro, nem tão pouco o poder vigente, impondo aos artistas os parâmetros rentáveis de produção artística.
Isto, quando a Arte só deveria ser livre e insubordinada! Só a arte, assumindo a forma mais sensível de expressão, pode materializar os sonhos do Homem!
O vazio político que se vive neste tempo, procura alienar os artistas da sua liberdade de criação, e da sua expressão particular de luta, não sujeita ao consumo nem ao sistema; nem tão pouco a aprisionamentos de qualquer espécie, dando expressão às necessidades do Homem e da humanidade, promovendo a transformação social face à miséria cultural e social a que se assiste. É verdade que a arte pode não ser uma ferramenta de libertação social por si só, isso cabe à sociedade, mas é-o, sim – deve sê-lo – de transformação social.
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