Taxas de juro em alta
Na actual conjuntura, quase que se pode dizer que os efeitos externos estão a exercer um efeito dominante sobre as taxas de juro na zona euro e em Portugal.
Em primeiro lugar, tem que se pensar num conceito um pouco abstracto, “a” taxa de juro real mundial, que é aquela que equilibra a procura e a oferta mundial de poupança. Durante muito tempo, vivemos com um excesso de poupança, sobretudo com origem na China, que deprimiu as taxas de juro até valores próximo de zero. Muitos protestaram com as acções dos bancos centrais, que baixaram as taxas de juro, nalguns casos até valores negativos, julgando que eram os grandes culpados, sem perceber que eles estavam apenas a responder a movimentos da economia real.
Nos últimos tempos, não tem havido alterações significativas da oferta de poupança, mas registou-se um forte aumento da procura de poupança, sobretudo nos EUA, com duas origens: a fortíssima subida dos défices públicos e a subida extraordinária do investimento em torno da IA (mesmo se parte dele substitui investimento noutros sectores). Ou seja, a taxa de juro real terá que subir.
Passando para as taxas de juro nominais, as de curto prazo estão dominadas pela evolução recente e a esperada nos próximos tempos da inflação. Neste caso, é evidente que o efeito predominante é o da subida dos preços da energia, desencadeada pelo ataque os EUA ao Irão, desde 28 de Fevereiro. As decisões do BCE e as Euribor estão dominadas pelas acções norte-americanas no Médio Oriente e continuarão a estar até se chegar a um cessar-fogo minimamente duradouro.
Em relação às taxas de juro no longo prazo, temos de começar também pelo que se passa nos EUA, onde a irresponsabilidade orçamental, com a expectativa de manutenção de défices elevadas e de uma dívida pública em subida descontrolada, têm conduzido a subidas sucessivas daquelas cotações. As últimas intervenções (desastradas e inúteis) do Tesouro daquele país já foram descritas como sendo equivalentes a usar o cartão de crédito para amortizar o crédito à habitação. Se a administração norte-americana quer mesmo baixar as taxas de juro o instrumento que tem que usar é baixar o défice orçamental. Para além disso, tem de parar de criar conflitos, comerciais e outros, com aliados e adversários, que estão a afugentar investidores, públicos e privados.
O Japão também está a influenciar as taxas de longo prazo, por ser um investidor decisivo, tendo passado a investir mais internamente, com as taxas em máximos de 30 anos, estando menos disponível para ajudar os mercados dos EUA e da zona euro.
Mais perto de nós, sente-se o efeito de contágio destes movimentos, a que há que acrescentar o imbróglio político francês, a caminho de eleições presidenciais na próxima Primavera, com nenhum candidato a defender um mínimo de controlo orçamental.
Pode-se dizer que Portugal enfrenta estes desafios numa posição algo favorável, com o trabalho de casa de redução da dívida pública pelos últimos governos (infelizmente à custa do investimento público, um tema a que regressaremos), mas não deixará de sofrer os efeitos destas influências externas negativas.
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