A ética do desenrascanço
A lei diz-nos o que podemos fazer, a ética o que devemos. A ideia, com esta formulação ou com uma semelhante, está inscrita em manuais profissionais e quadros de conduta, especialmente quando falamos do desenvolvimento de novas tecnologias ou de disciplinas que impactam a vida das pessoas.
A ética é o conjunto de valores e princípios que orientam comportamentos. Ou devem orientar. A lei é o conjunto de normas que nos permitem que consigamos viver em sociedade. Não são a mesma coisa, nem sempre se alinham. Ainda que assentem na mesma base, a confiança. E isto é importante para o que tem sido a discussão na praça pública sobre o que pode ou não ser feito na esfera privada ou no exercício de funções públicas. Fala-se de ética, mas o que está em causa é a integridade. É aquilo que fazemos quando ninguém está a ver, na definição feliz de autor desconhecido. Para o desenrascanço este é um selo de ignomínia, porque é o seu contrário. Podemos, mas não devemos.
O desenrascanço, o dobrar sem partir, limar para caber, ajeitar para conseguir é um hábito instalado. Sabemos perfeitamente disso. Fingimos que não existe e quando surge à vista de todos condenamo-lo. A figuras públicas, a quem se destaca, claro, ou, mais importante, a quem gere a coisa pública. Porque são exemplos, vemo-las como exemplares. Não nos passa pela cabeça admoestar o amigo que consegue fugir ao fisco. Lá muito no fundo, valorizamos a integridade, ainda que numa visão enviesada, porque garante a confiança. E é isso que pode faltar. Veja-se de onde partiu a discussão, de quem muitas vezes mente, dobra, ajeita. É ilegal? Não necessariamente. Eticamente reprovável? Sim. Afeta a confiança? Quase sempre.
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