Cinco anos depois de Cabul, o Afeganistão continua à espera
Este verão, em Palermo, o meu filho e eu tropeçámos no Afeganistão, no meio da Sicília. Num mercado ao ar livre no centro da cidade, rodeado pelas bancas e estabelecimentos de comida que tornam Palermo inconfundivelmente siciliano, encontrava-se um modesto restaurante afegão, algo desenquadrado do meio envolvente. Parámos, falámos em farsi com o dono e tivemos um almoço maravilhoso. Durante algum tempo, milhares de quilómetros e vários mundos esvaneceram-se.
Foi um breve encontro, mas tenho pensado nisso repetidamente desde então. O Afeganistão a particularidade de desaparecer do nosso radar até que alguma coisa, situação, nos recorda a sua existência.
Há cinco anos, em agosto, era impossível desviar o olhar. A 15 de agosto de 2021, os talibãs entraram em Cabul quando os Estados Unidos e os seus aliados da NATO se retiraram, pondo fim a duas décadas de intervenção do Ocidente. De uma forma abrupta e humilhante. As imagens permanecem entre as mais reconhecíveis do século: famílias junto aos portões do aeroporto de Cabul, pessoas a correr pela pista, outras, desesperadas. Tentavam agarrar-se aos aviões prontos a descolar.
Durante alguns dias, o Afeganistão esteve no centro das atenções em todo o mundo. Cinco anos depois, desapareceu de grande parte dos nossos ecrãs.
A jornalista italiana Silvia Boccardi, que regressou recentemente ao Afeganistão, descreve a estranha normalidade do aeroporto de Cabul: pessoas a recolher a sua bagagem, pessoas à espera de familiares, outras a negociar uma corrida de táxi enquanto os aviões chegavam e partiam. O aeroporto, símbolo do estrondoso colapso da presença ocidental, retomou o seu normal funcionamento. A crise não terminou quando as câmaras saíram, passou, simplesmente, a ser menos visível, dispersa por salas de aula, hospitais, locais de trabalho e no espaço doméstico.
Para milhões de afegãos, especialmente mulheres e raparigas, as consequências dessa retirada tornaram-se progressivamente mais profundas. O Afeganistão continua a ser o único país do mundo onde raparigas e mulheres são excluídas do ensino secundário e superior. A UNESCO estima que 2,4 milhões de raparigas estão atualmente impedidas de estudar. Cinco anos é um período curto na história de um país, mas representa toda uma infância. Uma rapariga que entrou na escola primária quando os talibãs regressaram ao poder já atingiu a idade em que a educação deveria abrir-lhe o mundo, mas apenas descobre que essa porta se fechou.
As mulheres também têm sido progressivamente excluídas do emprego e da vida pública, bem como sujeitas a restrições severas à mobilidade e a qualquer forma de expressão. O Relator Especial da ONU para o Afeganistão, Richard Bennett, concluiu que o sistema que lhes foi imposto equivale ao crime contra a humanidade de perseguição de género.
O que torna esta circunstância ainda mais dolorosa é que as restrições em causa estão a ser impostas a uma geração que já tinha vivido algo diferente. Zahra Joya, jornalista afegã e fundadora da Rukhshana Media, viu-se obrigada a disfarçar-se de rapaz para frequentar a escola. Depois de 2001, regressou à escola como rapariga, frequentou a universidade e tornou-se jornalista. A sua história ilustra tanto a fragilidade como a realidade do que mudou nas duas décadas seguintes: apesar da guerra e dos enormes fracassos, milhões de afegãos conquistaram oportunidades que antes eram inimagináveis.
É por isso que o período entre 2001 e 2021 não pode ser reduzido a um simples rol de fracassos do Ocidente. Houve progressos reais. Mas o drama maior foi que o sistema construído em torno da presença ocidental não sobreviveu à partida daqueles que o financiaram e protegeram.
Os Estados Unidos gastaram cerca de 2,3 biliões de dólares na sua guerra de 20 anos no Afeganistão. No entanto, as forças governamentais e de segurança que os EUA apoiavam colapsaram vertiginosamente mal o apoio americano e da NATO acabou. Antes do regresso dos talibãs, a ajuda externa financiava cerca de três quartos das despesas públicas do Afeganistão. O Ocidente passou duas décadas a falar a língua da soberania afegã, mas, paralelamente, tornou essa soberania dependente de instituições, dinheiro e poder militar estrangeiros.
Não foi apenas a saída do Afeganistão que correu mal. A construção de uma ordem política capaz de sobreviver sem o poder que a criou e sustentou revelou-se um fracasso total.
Durante 20 anos, os Estados Unidos e os seus aliados disseram aos afegãos que estava a ser construída uma ordem política diferente. Mas, chegada a hora de partir, essa ordem ruiu e muitos dos que acreditaram nela tiveram de lutar pelas suas vidas. As imagens do aeroporto de Cabul não eram apenas imagens de uma evacuação; eram imagens do colapso de um projeto político. Ora, a responsabilidade do Ocidente não terminou quando as últimas tropas partiram. A intervenção militar falhou, mas as pessoas que a viveram não desapareceram, nem as promessas feitas aos afegãos que trabalharam ao lado de governos ocidentais, forças armadas, jornalistas e organizações humanitárias. A 20 anos de intervenção não podem seguir-se 20 anos de indiferença.
Mais de 22 milhões de afegãos necessitam de assistência humanitária, incluindo 10,7 milhões de mulheres e raparigas, mesmo com o apoio internacional a diminuir. As consequências não são abstratas: quando a assistência desaparece, mulheres e crianças são frequentemente as primeiras a perder acesso a cuidados de saúde, alimentação e proteção.
A repressão também chega aos aspetos mais íntimos da vida quotidiana. O “Zan Times”, uma plataforma independente de investigação afegã, centrada nos direitos humanos e nos direitos das mulheres, noticiou recentemente que uma mulher afegã que recorreu a tribunal para escapar a um casamento abusivo não obteve o divórcio. O juiz limitou-se a ordenar à família do marido que a levasse para fora do tribunal. Uma situação que nos recorda claramente que a questão não é apenas se as mulheres podem estudar ou trabalhar, mas se podem ter controlo sobre as suas próprias vidas.
O Afeganistão está mais calmo do que era antes do regresso dos talibãs, e muitos afegãos relatam maior segurança após décadas de guerra. Essa realidade não deve ser ignorada. Mas estabilidade não é o mesmo que Liberdade, e a ausência de guerra em larga escala, não é sinónimo de paz. Uma sociedade em que metade da população é progressivamente afastada da vida pública pode ser mais ordeira, mas não é assim necessariamente mais pacífica.
Isolar o Afeganistão não é solução. Os talibãs são as autoridades de facto, e um número crescente de países tem encetado relações diplomáticas. A escolha, portanto, não é entre mais uma intervenção do Ocidente e o abandono total. O Afeganistão não precisa de ter mais exércitos estrangeiros no seu território, mas também não pode, pura e simplesmente, ser condenado ao isolamento.
O que é necessário é um envolvimento sem legitimação: manter canais diplomáticos ao mesmo tempo que se recusa a aceitar a repressão; apoiar a assistência humanitária e a sociedade civil afegã; garantir que há oportunidades para as raparigas no sistema de ensino; e honrar os compromissos daqueles que depositaram a sua confiança nos governos ocidentais. O futuro do Afeganistão também não pode ser desenhado apenas em Washington, Bruxelas ou Londres. Os seus vizinhos – incluindo o Irão, o Paquistão e a China – têm interesse direto na sua segurança e estabilidade, tornando assim a cooperação regional indispensável.
O Ocidente deve manter-se envolvido, mas de uma forma diferente: com diplomacia em vez de dominação, assistência em vez de dependência. E ter a humildade de reconhecer que devem ser os próprios afegãos a decidir o futuro do seu país.
Talvez o meu encontro em Palermo seja um pequeno lembrete do que facilmente esquecemos quando falamos do Afeganistão. Durante um almoço, o Afeganistão não foi uma guerra, uma ocupação, um decreto dos talibãs ou uma estatística humanitária. Foi simplesmente um país, representado por um homem que levou parte dele consigo para um mercado ruidoso e colorido no centro histórico de Palermo.
Cinco anos depois de Cabul, o Afeganistão continua à espera. O Ocidente não pode refazer o país, nem deve tentar fazê-lo. Mas também não deve fingir que a retirada erradicou as suas responsabilidades. As imagens de agosto de 2021 mostraram-nos como era o país quando o Ocidente partiu. O verdadeiro teste, cinco anos depois, é saber se, agora que as câmaras de televisão desapareceram, estamos preparados para não abandonar o povo afegão.
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