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Ex-presidentes do IGCP descartam crise sistémica com atual subida das yields

Ex-presidentes do IGCP descartam crise sistémica com atual subida das yields

A subida das taxas de juro de longo prazo no Ocidente reflete preocupações orçamentais e procura de financiamento para centros de dados de Inteligência Artificial, segundo dois dos antigos presidentes da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP).
João Moreira Rato, que liderou o IGCP entre 2012 e 2014 — período em que coordenou a estratégia de regresso de Portugal aos mercados internacionais de dívida após o programa de resgate da troika —, aponta duas forças principais por detrás da subida das yields a nível global: preocupações com a sustentabilidade da política orçamental dos principais países e uma forte procura de financiamento ligada a infraestruturas tecnológicas, nomeadamente os centros de dados associados à Inteligência Artificial.
“A atual subida das taxas de juro de longo prazo no mundo ocidental reflete preocupações profundas com a sustentabilidade da política orçamental, sendo simultaneamente impulsionada por uma forte procura de financiamento para infraestruturas tecnológicas, nomeadamente os data centers associados à Inteligência Artificial”, afirma o economista.
Aponta ainda menor disponibilidade da Fed para monetizar dívida e considera que as recompras do Tesouro americano têm efeitos apenas temporários. Nesse quadro, considera que as intervenções do Tesouro norte-americano — como a duplicação do programa de recompra de títulos de longo prazo para pelo menos 4 mil milhões de dólares por operação, anunciada pelo secretário Scott Bessent — tendem a ter apenas efeitos temporários, dada a força das tendências estruturais em curso.
A medida de Bessent coincidiu com o momento em que a dívida pública total dos Estados Unidos ultrapassou a marca histórica de 40 triliões de dólares.
Em Portugal, diz João Moreira Rato, esta subida das yields não está, por agora, a ter grande impacto.
Já Cristina Casalinho (presidente entre 2014 e 2022) partilha a leitura de que a dívida pública norte-americana em níveis historicamente elevados é um fator estrutural relevante. A economista salienta que há dúvidas sobre a capacidade do mercado para a absorver, numa altura em que compradores tradicionais — como a China e, mais recentemente, o Japão — têm reduzido as suas aquisições. Recorda, a este propósito, a intervenção cambial conjunta entre Washington e Tóquio no final de julho, quando os EUA venderam euros das suas reservas para comprar ienes, a primeira operação deste tipo destinada a valorizar a moeda japonesa desde 1998.
A dívida americana elevada e a menor procura de compradores tradicionais mantêm as taxas altas, mas o contágio europeu é contido, defende.
Cristina Casalinho considera que é pouco provável uma crise global. “A capacidade de geração de resultados das empresas continua muito forte, quer na Europa, quer nos Estados Unidos”.
“Na economia real, as empresas estão sólidas, têm boa capacidade de geração de cash flow. Portanto, o que nós vemos é que há liquidez nas empresas, quer na Europa, quer nos Estados Unidos, e que se olharmos, por exemplo, para a avaliação de risco de crédito, os spreads continuam bastante estáveis”, sublinha a economista que lembra que a estabilidade dos spreads de crédito, inclusive entre Portugal e países como a França, são um sinal de que não há degradação da qualidade creditícia geral da economia.
“O mercado na parte do crédito está bastante sólido e bem ancorado”, diz. Em Portugal, sublinha, as taxas diretoras importam mais do que as de longo prazo.
Cristina Casalinho lembra também que a inflação é mais conjuntural, a espiral preços-salários está contida e os spreads de crédito permanecem estáveis.
Sobre a resposta das autoridades monetárias, Cristina Casalinho prevê pelo menos mais uma subida de taxas na Europa até ao final do ano, notando que a Fed também já sinalizou a possibilidade de novos aumentos — embora a subida das taxas longas já em curso reduza a urgência de novas subidas por parte dos bancos centrais.

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