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Massas sobem 22% e pão 14%. Carne já mais do que duplicou preço desde 2022

Massas sobem 22% e pão 14%. Carne já mais do que duplicou preço desde 2022

Encher a despensa está a ficar mais caro. O preço dos alimentos voltou a subir e alguns dos produtos mais presentes na mesa das famílias portuguesas estão entre os que mais encareceram. As massas espirais aumentaram 22% numa semana, o esparguete 21% e o pão de forma sem côdea 14%, num momento em que o cabaz alimentar monitorizado pela DECO PROteste já custa 254,73 euros. São mais 2,11 euros do que na semana anterior e mais 12,91 euros do que no início do ano.
A distância para os preços de há quatro anos é ainda maior. Para comprar hoje os mesmos 63 produtos acompanhados pela organização de defesa do consumidor são necessários mais 67,03 euros do que em janeiro de 2022, uma diferença de 35,71%. Face a agosto de 2025, o cabaz está 14,17 euros mais caro, ou seja mais 5,89%.
A subida não está concentrada num único produto nem numa única categoria. Quando se alarga o horizonte para um ano, a pressão mantém-se. Mas é na comparação com janeiro de 2022 que a evolução dos preços ganha outra dimensão. A carne de novilho para cozer lidera os aumentos acumulados, com uma subida de 120%, para 12,81 euros por quilo. O bacalhau graúdo aumentou 89%, para 20,02 euros por quilo, e a couve-coração encareceu 88%, para 1,87 euros.
Segundo o jornal espanhol elEconomista há outros produtos na balança que devem aumentar em breve, caso do arroz que está a subir 55% nos mercados internacionais, assim como o óleo de soja (38%), o açúcar (21%) e o milho (15%).
O que faz subir os preços?
Pegue-se no exemplo do pão. Até porque os cereais estão no centro das preocupações do mundo. Porém, o aumento do preço deste alimento não pode ser explicado apenas pelo custo do trigo.
A cadeia de produção envolve mão de obra, energia, transporte, distribuição e outros custos que acabam por determinar o valor que chega à prateleira ou à padaria. Deborah Barbosa, presidente da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP), afirma ao JE que os associados já avisaram que vão subir o preço do pão em Outubro e explica que além do aumento do custo da matéria-prima há escassez de mão de obra, ou seja de padeiros, o que faz disparar os vencimentos. À lista junte a escassez de colaboradores para a distribuição. “Todos estes fatores ajudam a elevar a conta final”, explica.
Mas para que entenda como o preço do nosso exemplo se constrói. A farinha representa, em média, 14,14% do custo total de produção do pão, enquanto os custos com pessoal pesam 40,31%, a distribuição 15,53% e a energia 11,16%. Isto significa que uma subida do trigo não é automaticamente transferida, na mesma proporção, para o preço do produto. Geralmente esse demora entre três e seis meses a pesar na fatura do alimento.
É uma distinção importante num momento em que o preço das matérias-primas volta a estar sob pressão. Se o trigo aumentar 30%, por exemplo, e esse aumento for integralmente repercutido na farinha, mantendo todos os restantes custos constantes, o custo total de produção do pão subiria cerca de 4,2%. Não é uma previsão do preço final, mas uma forma de perceber como o impacto de uma matéria-prima é diluído ao longo da cadeia.
É neste ponto que a evolução do cabaz alimentar ganha particular significado. Os 254,73 euros calculados pela DECO PROteste não representam apenas uma fotografia de uma semana. São o resultado acumulado de centenas de pequenas decisões de preço e de uma cadeia alimentar onde produtores, indústria, distribuidores e comércio enfrentam custos diferentes e e nem sempre conseguem absorvê-los.
Armazenamento para 15 dias
O problema surge quando os aumentos deixam de ser pontuais. É esse o alerta deixado por José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais (ANPOC), ao explicar ao JE a vulnerabilidade da produção nacional e a dependência portuguesa dos mercados externos. “Portugal continua sujeito às importações de cereais — cerca de 80% das necessidades — enquanto a produção nacional de trigo (20%) cobre apenas uma pequena parcela do consumo.”
O mercado português está assim exposto ao que acontece fora das suas fronteiras. Uma quebra de produção num grande produtor, uma perturbação no comércio internacional, problemas no Mar Negro como estão a acontecer atualmente devido à guerra da Rússia com a Ucrânia, condições meteorológicas adversas como a seca na Europa ou simplesmente uma subida dos custos agrícolas podem repercutir-se num mercado onde a margem para absorver choques é limitada. Ou seja, a realidade atual.
José Palha, explica que o abastecimento nacional para a alimentação humana é essencialmente europeu. Portugal recorre à Ucrânia, França, Itália e Alemanha. Depois fora da comunidade há ainda o Canadá. Porém, a Europa está a atravessar uma seca e se esta produzir menos, Portugal terá de comprar cereais mais longe. E procurar mais longe custa dinheiro.
O responsável da ANPOC chama ainda a atenção para um problema de vulnerabilidade alimentar. “As reservas nacionais disponíveis de cereais são de apenas cerca de 15 dias a três semanas de necessidades, dependendo da situação e do cereal em causa. É uma margem pequena”, considera.
A redução da área cerealífera portuguesa não pode ser explicada apenas pelo clima. Com a expansão do regadio no Alqueva, terras que historicamente produziam cereais de sequeiro passaram a ter alternativas agrícolas mais rentáveis. O olival e o amendoal são exemplos evidentes. Para o agricultor, a escolha é racional: se a mesma terra e a mesma água permitem produzir uma cultura de maior valor económico, torna-se difícil justificar a manutenção dos cereais.
Para o país, porém, existe um problema. O que é racional para cada exploração agrícola pode ser menos racional para a segurança alimentar nacional. Este é um dos dilemas da política agrícola portuguesa.
E para que se entenda que a pressão dos cereais vai muito além do trigo. O trigo mole está na base do pão, o trigo duro é essencial para a produção de massas, a cevada alimenta animais e a indústria cervejeira e o milho é um dos principais ingredientes da alimentação animal. Conclusão? A pressão pode começar no mercado de futuros, mas acaba no prato.

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