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Combustíveis mais caros apertam ganhos e reduzem deslocações em Cabo Verde

Combustíveis mais caros apertam ganhos e reduzem deslocações em Cabo Verde

A recente subida dos preços dos combustíveis em Cabo Verde pesa nos ganhos e nas despesas, com pescadores e condutores a suportar custos mais elevados e as pessoas a reduzir deslocações, com impacto no quotidiano das famílias.
“No preço que o gasóleo está, quando pomos uma tonelada para irmos ao mar [pescar], vamos ganhar muito menos. Porque às vezes encontramos peixe, às vezes não. O mar é incerto”, conta à Lusa Carlos Gilberto, 52 anos, pescador há quatro décadas.
No cais do Porto da cidade da Praia, entre o cheiro da maresia e o movimento de desembarque do pescado, Carlos faz as contas ao custo de atestar a embarcação tradicional em que trabalha.
Uma tonelada de gasóleo passou de 70 mil escudos (cerca de 635 euros) para 100 mil escudos (quase 907 euros).
“Se pegarmos 100 mil escudos de peixe, isto fica apenas para pagar as despesas. Não sobra para a família”, acrescenta o pescador, pai de quatro filhos, pedindo medidas ao Governo.
A poucos metros, Euclides Dias, 40 anos, armador de duas embarcações, observa o peixe recolhido e lamenta que o encarecimento da fatura energética o obrigue a travar a atividade.
“Se antes íamos ao mar três vezes numa semana, agora é uma vez”, afirma, e além disso “o peixe continua sempre ao mesmo preço. Se subir, ninguém compra e estraga-se”.
No terminal dos ‘hiaces’ – as carrinhas de transporte coletivo que ligam a Praia ao interior da ilha de Santiago -, condutores aguardam que os passageiros preencham os últimos lugares.
João Correia, 57 anos, conduz há 33 anos na rota para o concelho de São Domingos.
Com um consumo diário a rondar os 20 litros, viu a despesa diária subir de 1.800 a 2.000 escudos (16 a 18 euros) para cerca de 3.000 escudos (27 euros).
“Subimos o preço do transporte em 20 escudos (18 cêntimos), mas os passageiros insistem em não pagar porque está caro. Vamos ter de subir ainda mais porque estamos numa situação difícil”, disse.
Num dos veículos, Liliana Lopes, 31 anos, faz as contas ao trajeto diário entre a localidade de Milho Branco e a capital.
Mãe de quatro filhos, apanha diariamente dois ‘hiaces’ e dois autocarros para ir e voltar do trabalho.
“Este custo nem todos conseguem suportar. Há que ter medidas, porque temos filhos para criar”, diz, apontando que o salário mínimo nacional de 17 mil escudos (154 euros) não acompanha as despesas, e que, com o aumento, gasta mensalmente cerca de 10 mil escudos (91 euros) em deslocações.
Artemisa Ferreira, 34 anos, vive na freguesia de Nossa Senhora da Luz e vende produtos agrícolas no maior mercado da capital.
Com os custos de transporte a ultrapassar os 91 euros mensais, reduziu radicalmente as idas à capital de quatro para apenas uma viagem por mês.
“Não dá para vir, está complicado”, afirma a comerciante, que passou a pagar aos motoristas para lhe transportarem as encomendas de ração e legumes.
“E os produtos que vendemos na cidade têm de ficar mais caros, porque pagamos o transporte dos sacos pesados”, disse.
Hélio Carvalho, taxista de 36 anos, trabalha entre as 06:00 e as 21:00 e precisa de circular continuamente para encontrar clientes.
“Ainda não subi a viagem, mas vou ter de o fazer. O combustível está muito elevado”, admite.
Evilise Melo, 21 anos, trabalha há seis meses numa bomba de combustível na cidade da Praia e assiste diariamente ao descontentamento dos condutores, sobretudo dos taxistas.
“Reclamam muito e nota-se uma queda no movimento. Estão a colocar menos quantidade de combustível do que antes”, relata.
O agravamento resulta do ajuste fixado pela Autoridade Reguladora Multissectorial da Economia (ARME), que determinou um aumento médio de 4,51% nos preços máximos dos combustíveis desde 01 de setembro, impulsionado pela subida do petróleo e dos derivados no mercado internacional.
A Associação para a Defesa do Consumidor de Cabo Verde (ADECO) alertou para os efeitos da subida nos transportes, na eletricidade e nos preços dos bens alimentares, pedindo ao Governo medidas para proteger as famílias.
Entretanto, o Governo de Cabo Verde anunciou a manutenção de descontos nas tarifas de eletricidade até ao final do ano (100% para a tarifa social e 70% para as restantes categorias).
Contactado pela Lusa para esclarecer a eventual adoção de novas medidas de apoio aos setores afetados, o Governo remeteu esclarecimentos para mais tarde.

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