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ONU aprova alteração dos mapas mundiais para melhor refletir dimensão de África

ONU aprova alteração dos mapas mundiais para melhor refletir dimensão de África

A Assembleia-Geral das Nações Unidas aprovou na sexta-feira 4 de setembro uma resolução, apresentada pelo Togo e apoiada pela União Africana (UA), que promove uma representação mais precisa nos mapas das áreas terrestres dos continentes, nomeadamente de África.

A resolução, intitulada “Corrigir o Mapa”, foi aprovada com 164 votos a favor, um contra (Estados Unidos) e seis abstenções (Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia).

Os Estados Unidos justificaram o voto contra por entenderem que a iniciativa é parte de um “projeto ideológico radical”. O representante norte-americano considerou que a resolução “ironiza o trabalho e o propósito desta instituição [ONU]” referindo que a “tentativa inocente” de atualizar as proporções cartográficas fazia parte de “um projeto ideológico muito maior e mais radical a que pertence”, referindo que iniciativas deste género representam “cracas” no trabalho que se efetua na ONU e a razão pela qual a ONU “está a perder a sua credibilidade”.

O lado norte-americano acrescentou que “em vez de se concentrar em problemas genuínos de paz internacional, prosperidade ou boas relações, este organismo está a debater projetos cartográficos do século XVI e o seu papel na promoção de reparações e justiça cognitiva. Resoluções como esta e a agenda ideológica que promovem são (…) a razão pela qual esta instituição está a perder a sua credibilidade”.

A posição de Washington surge na mesma semana em que o Presidente norte-americano, Donald Trump, propôs renomear o estreito de Ormuz como “estreito Trump” e poucos dias após ter assinado uma ordem executiva para mudar o nome do lago Ontário, localizado na fronteira canadiana, para “lago América”.

No ano passado, Trump ordenou que o Golfo do México fosse renomeado “Golfo da América” e tanto as gigantes tecnológicas Apple como a Google atualizaram o nome nos seus mapas nos EUA.

Os defensores da resolução argumentam que a projeção de Mercator, desenvolvida no século XVI pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator e usada até hoje, faz com que a África pareça muito menor do que realmente é, ao mesmo tempo que exagera visualmente as regiões próximas aos polos.

Isso faz com que a Gronelândia e a África pareçam ter tamanhos semelhantes nos mapas, quando na realidade o continente africano é cerca de 14 vezes maior.

A resolução defende o abandono do uso da projeção cartográfica de Mercator e a sua substituição por uma que mostre com mais precisão o tamanho de continentes, incentivando os Estados-membros, organizações internacionais e outras entidades relevantes a adotarem a projeção Equal Earth, que mostra países e continentes em tamanhos proporcionais.

Antes da votação, o Togo indicou que a persistência destas distorções nos mapas provocou, ao longo do tempo, consequências significativas.

“Contribuiu para minimizar simbolicamente a dimensão de África, assim como de outras regiões, o que criou uma visão desequilibrada da geografia global. Portanto, (…) vai muito para além da esfera da cartografia”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, Robert Dussey.

“Tem a ver com a justiça cognitiva, com o acesso a um conhecimento geográfico preciso, a dignidade dos povos, a memória histórica e a luta contra as representações que herdamos e que influenciam a nossa perceção”, acrescentou, em Nova Iorque. “Os mapas moldam a nossa compreensão do mundo. Orientam a educação, alimentam a imaginação e influenciam as perceções coletivas”, sublinhou.

Robert Dussey, disse ainda que este esforço, liderado por África, “não tinha a intenção de condenar” a projeção de Mercator. “Um mapa justo não muda a geografia do mundo, muda a forma como vemos o mundo”, acrescentou.

Caso a modificação seja efetivamente aplicada, França, Estados Unidos e Rússia ficariam consideravelmente menores nos mapas, enquanto África, América Latina e Sul da Ásia ganhariam espaço.

“Esta iniciativa marca um passo histórico para uma representação cartográfica global precisa e equitativa”, celebrou a União Africana após a votação, numa publicação feita na rede social Instagram.

“A resolução de hoje [4 de setembro] promove mapas de áreas iguais, como o Equal Earth, nas salas de aula, nos meios de comunicação social e nas instituições internacionais, garantindo que o mapa-mundo reflete finalmente a verdadeira escala, importância e lugar de África no mundo”, acrescentou.

Como as resoluções da Assembleia-Geral da ONU não têm força jurídica obrigatória (ao contrário das decisões do Conselho de Segurança), a aplicação depende da vontade política dos Estados-membros e das próprias organizações internacionais.

ONU diz que resolução não proíbe projeção de Mercator nem impõe substituta

O site oficial da ONU refere que a resolução “não proíbe” a projeção de Mercator “nem impõe” uma substituta. “Em vez disso, incentiva os governos, as escolas, as organizações internacionais e as empresas tecnológicas a utilizarem a projeção Equal Earth e outros mapas de áreas equivalentes quando a dimensão relativa é relevante, e a ensinarem as limitações de qualquer mapa plano na representação de um planeta esférico”, acrescentou.
“Gerardus Mercator, um cartógrafo flamengo, criou a sua projeção em 1569 para resolver um problema prático de navegação marítima. Como as linhas retas no seu mapa correspondem a direções constantes da bússola, os marinheiros podiam utilizá-lo para traçar as suas rotas. Mas a preservação da direção teve um custo: a área. As massas de terra parecem cada vez maiores quanto mais afastadas estão do Equador. A Gronelândia, por exemplo, pode parecer ter um tamanho aproximadamente comparável ao de África, embora África seja cerca de 14 vezes maior. O norte da Europa e a América do Norte são alargados de forma semelhante em relação às regiões equatoriais. Apesar do seu propósito original de navegação, a projeção de Mercator continua a ser comum em materiais educativos, mediáticos, digitais e oficiais”, salientou.
Do lado francês o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, disse que iriam abandonar o sistema de Mercator para os seus mapas-mundo. De acordo com o sítio oficial da ONU a Ucrânia também deu o seu apoio à “correção de distorções históricas” que afetam África e outras partes do Sul apesar de ter contestado a forma como alguns mapas que utilizam a plataforma Equal Earth representam o território ucraniano ocupado pela Rússia, e alertou que o apoio da projecção sem salvaguardas adequadas poderia abrir uma “caixa de Pandora”, permitindo que os mapas “criassem ambiguidade sobre territórios disputados”.
Em nome da União Europeia, falou a Irlanda, e disse que a medida apenas à dimensão relativa das massas de terra e não tinha qualquer relação com a soberania, o estatuto territorial ou as fronteiras internacionalmente reconhecidas,  que o apoio da União Europeia à resolução “não constituía” um apoio aos mapas exibidos no site da Equal Earth.

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