Custo do financiamento de Portugal dispara para máximos em leilão de dívida de 1,6 mil milhões
A tendência mundial de agravamento das “yields” não está a ser inócua para Portugal. Os juros da dívida pública portuguesa voltam a subir em todas as maturidades, impulsionados pela tensão geopolítica no Médio Oriente e pela perspetiva de novas subidas das taxas de juro pelo BCE.
Apesar da recente subida do rating pela Fitch para A+, Portugal voltou a ver agravado o custo para obter financiamento no mercado de dívida pública.
A operação realizada pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) resultou na colocação de 1.631 milhões de euros através de três leilões de Obrigações do Tesouro (OT), registando uma subida generalizada do rendimento (yields) exigido pelos investidores, em linha com a tendência global.
Na linha com maturidade mais longa (junho de 2035, a 8,7 anos), foram colocados 602 milhões de euros a uma taxa média de 3,632% (com a procura a superar a oferta em 1,52 vezes). O valor reflete um agravamento face a junho, altura em que o país emitiu dívida a nove anos com uma taxa de 3,342%.
Na maturidade a 8 anos (outubro de 2034), o IGCP capta 629 milhões de euros com uma taxa de 3,559% e uma procura de 1,66 vezes a oferta. Para encontrar uma referência comparável, recua-se a março, quando uma emissão a sete anos fixou o cupão nos 3,009%.
Por fim, na maturidade mais curta (fevereiro de 2030, a 3,4 anos), o financiamento fixou-se nos 400 milhões de euros a uma taxa de 3,122%, com uma forte procura de 2,79 vezes a oferta. A taxa fica visivelmente acima dos 2,834% registados na última emissão a quatro anos, realizada em maio.
A subida das taxas em Portugal insere-se num movimento global de contágio das economias centrais. De acordo com Filipe Silva, Diretor de Investimentos do Banco Carregosa, o leilão ocorreu num “contexto de subida generalizada das yields soberanas, sobretudo por força do movimento da dívida core”. O especialista salienta que a “pressão recente sobre os Bunds e Treasuries tem sido alimentada pela subida do preço do petróleo e pelo consequente agravamento dos riscos inflacionistas”, o que levou o mercado a rever em alta as expetativas para as taxas diretoras dos bancos centrais.
Este cenário coincide com a reunião do Banco Central Europeu (BCE), agendada para quinta-feira, na qual o mercado antecipa quase com certeza um aumento de 25 pontos-base na taxa de depósito, fixando-a nos 2,50%. “Neste contexto, é natural que as taxas de colocação das três linhas portuguesas tenham ficado acima das observadas em emissões comparáveis anteriores”, aponta Filipe Silva.
O ambiente de aperto estende-se a outros mercados soberanos. A Alemanha emitiu dívida a 10 anos com a taxa mais alta desde 2010. No mercado secundário, a yield das Bunds alemãs na maturidade benchmark avançou para os 3,395%, enquanto o juro das obrigações portuguesas subiu para os 3,741% — o valor mais elevado desde abril de 2017.
Apesar do agravamento dos juros, os analistas convergem na ideia de que a dívida portuguesa não está a ser penalizada por fatores específicos de risco de crédito nacional.
Filipe Silva sublinha que a evolução das taxas portuguesas “tem acompanhado essencialmente o movimento das curvas core, não refletindo, até ao momento, uma deterioração da perceção de risco sobre o soberano português”. O responsável do Banco Carregosa nota que os spreads da dívida periférica face à Alemanha se mantêm contidos, demonstrando o conforto dos investidores.
Este enquadramento favorável foi reforçado pela agência Fitch, que elevou o rating da República Portuguesa de A para A+, com perspetiva estável, fundamentando a decisão com a trajetória de descida da dívida pública e a robustez do desempenho orçamental face aos pares europeus.
A subida dos juros da dívida soberana nacional é reflexo direto de um cenário global instável. O conflito no Médio Oriente reacendeu receios inflacionistas e reforçou as apostas de que o Banco Central Europeu (BCE) voltará a encarecer o preço do dinheiro, antecipando-se um aumento de 25 pontos-base na reunião da autoridade monetária.
Também a guerra da Ucrânia está a ajudar à inflação. Além da redução das exportações do Golfo, ataques ucranianos a refinarias russas diminuíram a oferta de combustíveis no mercado internacional. Os ataques contínuos a refinarias e portos do Mar Negro mantêm també, uma pressão estrutural sobre os preços não só dos combustíveis mas dos grãos.
Num contexto de pressão ascendente sobre as rentabilidades da dívida, Florian Späte, estratega sénior de obrigações da Generali Investments, considera que a subida dos rendimentos ainda não terminou. Na sua opinião, os riscos fiscais, a inflação e as crescentes necessidades de financiamento continuarão a impulsionar os prémios de prazo, pelo que ainda é prematuro aumentar a exposição a obrigações de longa duração.
Num relatório recente, o especialista aponta que os riscos orçamentais, a inflação persistente e a necessidade crescente de emissões de dívida continuarão a inflacionar os prémios de risco exigidos pelos mercados, considerando “prematuro” reforçar posições (nas carteiras) em títulos de maturidade longa.
Apesar deste contexto conturbado, Späte antecipa que as diferenças de rendimento (spreads) da dívida dos países da periferia da Zona Euro permaneçam estabilizadas.
Em contrapartida, destaca a vulnerabilidade de França, cujos desequilíbrios fiscais e incertezas políticas deixam as suas obrigações mais expostas a um alargamento do prémio de risco.
(atualizada com a análise de Filipe Silva, do Banco Carregosa)
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