Interligação energética com Marrocos serve como “seguro contra apagões”
Portugal vê Marrocos como uma fonte de segurança energética e uma alternativa a Espanha, o único país com que mantém fronteira terrestre.
Os dois países já contam com 10 interligações energéticas, mas o apagão de 28 de abril de 2025 demonstrou que é um risco depender apenas de um único para recomeçar a rede.
Apesar de o Governo ter decidido aumentar o número de centrais black-start que permitem um arranque autónomo da rede, e acelerar o recomeço após um apagão, a verdade é que um cabo submarino com Marrocos serviria de redundância, à semelhança do que aconteceu em Espanha no apagão, com o arranque a ter a ajuda da rede elétrica de França e de Marrocos.
No País Basco, por exemplo, junto à fronteira com França, a recuperação teve início 10 minutos depois do ‘blackout’ a partir da subestação de Hernani, a menos de 50 km da fronteira francesa.
“Estamos em conversações com o governo de Marrocos. É quase como um seguro caso haja apagão, para haver ajuda alternativa”, disse a ministra do Ambiente e da Energia na quarta-feira, 9 de setembro, no Parlamento.
“Se o apagão for em Espanha, começamos pelos black-start, as centrais que têm arranque autónomo. Mas não temos a quem nos ligar se o apagão for em Espanha”, daí a lógica da ligação a Marrocos.
“Estamos a fazer a contabilização de quanto custa este seguro. Pode ser demasiado caro ou ser mais conveniente correr o risco”, segundo Maria da Graça Carvalho.
A 20 de junho, a ministra reuniu-se com a sua homóloga marroquina em Lisboa para promover o rearranque do projeto.
Na reunião, ficou decidido que Portugal vai procurar obter fundos europeus para a autoestrada de eletricidade com Marrocos.
E também vai abrir uma manifestação de interesse para atestar o apetite de empresas privadas pelo projeto.
O objetivo é a partilha de risco, num projeto que já foi avaliado em 800 milhões de euros em 2018, mas cujo valor já deverá estar desatualizado.
O Jornal Económico já tinha revelado em maio de 2025 que já tinha havido “contactos preliminares” entre os dois países para o relançamento do projeto.
A ideia é transportar eletricidade portuguesa para Marrocos e trazer eletricidade marroquina para Portugal.
Mas o projeto de uma autoestrada de eletricidade submarina já está a criar preocupações em Espanha num momento em que o país vizinho está em elevada tensão com Rabat devido à invasão de Ceuta.
“Marrocos pacta com Portugal um ‘bypass’ elétrico a Espanha em plena crise diplomática por Ceuta”, escreveu o jornal “El Economista” a 4 de setembro dando conta das preocupações da opinião pública espanhola no tema mais quente da política espanhola neste momento.
Curiosamente, o jornal espanhol relata como se fosse uma reação de Rabat à crise de Ceuta, com a invasão de 70 mil migrantes, mas na verdade o encontro entre os governos de Portugal e Marrocos teve lugar a 20 de julho em Lisboa onde foi anunciado a retoma do interesse no projeto, muito antes da invasão.
Surpreendentemente, Espanha já tem duas interligações elétricas com Marrocos, mas só a possibilidade da uma interligação com Portugal é que faz a imprensa espanhola avisar que “mais interligação pode elevar o preço em Espanha”… algo que não receia com os cabos atuais.
Mesmo assim, admite que “se Marrocos dispuser em determinadas horas de eletricidade solar ou eólica mais barata, Espanha e Portugal poderão importá-la e reduzir os seus preços”, com benefícios também para a segurança de abastecimento.
Em Espanha há uma questão de fundo no ar perante a crise em Ceuta: Marrocos quer deixar de “depender exclusivamente de Espanha para ligar-se eletricamente com a Europa”, escreve o “El Economista”.
Portugal pode ser chave neste objetivo de Rabat, para desilusão de alguns em Espanha.
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