A carregar agora

Na TAP, o preço não basta

Na TAP, o preço não basta

O Governo convidou a Lufthansa e a Air France-KLM a melhorarem as propostas, consideradas globalmente muito próximas, para a aquisição dos 44,9% da TAP. O prazo vai até 31 de dezembro. Segue-se, portanto, a fase final, decisiva em que o Estado, perante ofertas equivalentes, deve procurar melhorar as condições.
É claro que preço importa. O Estado injetou 3,2 mil milhões de euros na TAP e deve ter como meta recuperar o máximo possível.
Lembremos: em 2025, no quarto ano consecutivo de lucros, a empresa faturou 4,31 mil milhões, transportou mais de 16 milhões de passageiros e lucrou 4,1 milhões. A recuperação é real. No entanto, a rentabilidade permanece frágil. A TAP precisa de capital, escala e uma rede global para enfrentar a consolidação europeia.
Dito isto, o preço não pode ser o critério decisivo.
Não se descobre aqui a pólvora. O caderno de encargos já manda avaliar o preço com o plano industrial e estratégico e as garantias de execução. Exige a promoção da marca TAP, a sede e o estabelecimento principal, e ligações entre os principais aeroportos nacionais, as regiões autónomas, a diáspora e os países e comunidades de língua portuguesa. Inclui os compromissos laborais e a manutenção e engenharia. O Governo afirmou que a estratégia, não apenas o preço, decidirá.
É preciso, no entanto, garantir que estes critérios não sejam cláusulas de estilo.
A lusofonia é história, cultura e sentimento, mas também demografia, comércio, turismo, investimento, influência. A diáspora é memória de milhões de partidas e uma rede de pessoas, empresas, conhecimento, capital. Ambas são herança e futuro; dimensão afetiva e ativo económico estratégico.
Mais de 265 milhões de pessoas falam português e esse universo crescerá, sobretudo em África. Portugal pode ser a plataforma entre a Europa, o Brasil, África e as comunidades portuguesas no mundo. A TAP converte essa posição em vantagem económica.
Em 2024, mais de dois milhões de passageiros viajaram nas rotas da TAP entre o Brasil e a Europa e 1,1 milhões nas ligações de e para África.
Em 2026, a companhia prevê operar 15 destinos brasileiros. Não são apenas passageiros: são negócios, exportações, investimento, mercados.
É esta rede que a reprivatização tem de, acima de tudo, proteger. As condições já estão escritas; falta convertê-las em compromissos mensuráveis, contratuais e com consequências para o incumprimento. Se o Estado vender mais tarde a posição remanescente, o parceiro terá direito a apresentar a primeira oferta.
A língua portuguesa não é um adereço sentimental da negociação. É parte do ativo económico em disputa.
Por tudo isso, o Estado não tem apenas de vender bem. Tem de escolher quem garanta que a TAP continuará ligada ao mundo onde se fala português, e explicar ao País como o assegurou.

Share this content:

Publicar comentário