A carregar agora

Pode a Europa sobreviver sem protecionismo?

Pode a Europa sobreviver sem protecionismo?

Durante décadas, a Europa foi um dos grandes defensores de uma economia mundial aberta, assente no comércio livre e na concorrência. Mas o mundo mudou. Um estudo recente do Citi descreve uma União Europeia comprimida entre uns Estados Unidos mais protecionistas e uma China com enorme capacidade industrial à procura de mercados externos. Em 2025, a UE importou cerca de 560 mil milhões de euros da China e exportou apenas 199 mil milhões, um défice de 361 mil milhões. A dúvida é inevitável: como pode a Europa preservar a sua identidade de comércio livre perante estas novas regras do jogo?
Uma primeira reflexão é que o comércio livre pressupõe algum grau de reciprocidade. A China construiu uma poderosa política industrial, combinando escala, financiamento e apoios públicos, enquanto os Estados Unidos condicionam cada vez mais incentivos e acesso ao mercado à produção doméstica. A Europa corre o risco de continuar a operar segundo regras que os seus principais concorrentes já não seguem. A abertura económica deixa de ser uma vantagem quando é essencialmente unilateral.
Depois, maior proteção não significa terminar relações comerciais. Baterias, terras raras, componentes eletrónicos, equipamento solar e alguns produtos químicos são áreas onde a dependência europeia da China é particularmente elevada. Automóvel e maquinaria enfrentam também crescente concorrência chinesa. É nestes setores estratégicos que contratação pública, incentivos ou requisitos de conteúdo europeu podem fazer sentido. O objetivo não é proteger empresas ineficientes, mas preservar capacidade industrial, tecnologia e propriedade intelectual. Uma fábrica localizada na Europa não é necessariamente uma cadeia de valor europeia.
Uma terceira reflexão é que nenhuma barreira comercial substitui competitividade. A Europa enfrenta energia mais cara, mercados de capitais fragmentados, menor escala empresarial e excesso de regulação. Tarifas podem proteger temporariamente uma fábrica; não conseguem tornar competitiva uma economia que produz estruturalmente mais caro. A política comercial tem, por isso, de ser acompanhada por uma verdadeira política de competitividade.
Ou seja, a União Europeia não está condenada a escolher entre a ingenuidade do comércio livre unilateral e o protecionismo indiscriminado. Precisa de reciprocidade onde for possível e proteção estratégica onde for necessária, garantindo que manter-se aberta ao mundo não significa deixar de produzir para ele. Para Portugal, esta mudança pode representar uma oportunidade. A preferência pela produção europeia poderá trazer investimento e cadeias de valor para dentro da União, permitindo às economias periféricas disputar novas localizações industriais. Energia renovável, posição atlântica e uma base industrial exportadora são vantagens portuguesas, mas não chegam sem melhores redes, qualificações, capital e capacidade de execução. Saibamos adquirir o que nos falta para capturar este potencial.

Share this content:

Publicar comentário