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Cerâmica e cristal alertam para risco de encerramento de empresas

Cerâmica e cristal alertam para risco de encerramento de empresas

A subida do petróleo e gás natural tem pressionado os setores mais intensivos em energia, como o da cerâmica e cristal, que temem mesmo ver empresas a fecharem portas fruto da atual crise. Com margens esmagadas pela concorrência vinda do Oriente, subir preços não é uma hipótese, e as medidas desenhadas pelo Governo irão sobretudo agravar o endividamento das empresas – muitas já pressionadas pela tesouraria. No segmento do vidro de embalagem, a situação é menos preocupante, mas a pressão não deixa de se fazer sentir.
O agravamento de custos para as empresas tem como consequência mais óbvia a subida generalizada de preços, assumindo que existe margem para tal. Mas, nalguns casos, tal não é possível, sobretudo dada a necessidade de competir com outras economias com custos de produção consideravelmente mais baixos.
É esse o caso da cerâmica e cristal, que enfrenta uma concorrência crescente vinda da Ásia, sobretudo da China e Índia. As margens das empresas nacionais ficam assim esmagadas, tornando impossível aumentos de preços no consumidor para repercutir a escalada de custos causada pela vertente energética.
“Atendendo ao excesso de oferta que neste momento aparece no mercado, as possibilidades de repercutir estes aumentos de custo de energia são muito reduzidas. Portanto tememos que as empresas não tenham margem para acomodar isto e que algumas delas tenham de ficar pelo caminho”, alerta Paulo Almeida, vice-presidente da Apicer – Associação Portuguesa da Indústria Cerâmica, lembrando também as diferenças a nível “ambiental, laboral e social” que enfrentam em relação às concorrentes asiáticas.
Por outro lado, o recurso ao lay-off também não é solução, dado que “o mercado continua aberto”. Ou seja, “se as empresas saírem do mercado, depois é muito difícil voltar”.
No início da crise, aponta, o setor acreditava conseguir “encaixar e aguentar” apenas cerca de quatro semanas de preços elevados, mas, passados mais de seis meses, o gás natural passou de cerca de 32 para 73-75 euros/MWh. Como tal, as medidas apresentadas na passada semana pelo Governo são insuficientes, dado que uma situação que parecia temporária ameaça cada vez mais tornar-se estrutural.
Junta-se a isto o facto de os apoios serem maioritariamente via linhas de crédito, algo que agravará ainda mais os problemas de tesouraria do setor, que é composto sobretudo por empresas de pequena e média dimensão.
Vidro acompanha pedidos da cerâmica
Isso mesmo começa por apontar Beatriz Freitas, secretária-geral da Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem (AIVE). O setor “não precisa de se financiar, que depois acaba por resultar em problemas de tesouraria”, mas sim de “apoio específico”.
“Isso é chutar para a frente o problema. Não resolve nada”, argumenta, ainda que lembrando as diferenças entre setores: ao contrário da cerâmica e cristal, a AIVE representa três grandes empresas do segmento do vidro de embalagem, onde os consumos de energia são significativamente menos pesados do que na cerâmica.
A AIVE acompanha assim os pedidos da Apicer para medidas dirigidas ao setor e que não representem um agravamento do endividamento das suas empresas, fazendo saber que enviará esta semana uma carta ao Ministério da Economia a manifestar as suas preocupações. A associação da cerâmica e cristalaria pede a recuperação do modelo do antigo ‘Apoiar Gás’, que destinou 190 milhões a apoiar os segmentos mais dependentes do gás natural aquando da escalada na cotação desta matéria-prima após a invasão russa da Ucrânia. À altura, foram atribuídos apoios até 500 mil euros por empresa.
Por outro lado, a concorrência de produtos sucedâneos não pode ser ignorada. Se o disparo nos custos fizer com que as embalagens de vidro “comecem a ter valores muito altos, vamos perder a competitividade do nosso material face ao plástico, às latas e por aí fora”.
Sendo um setor altamente exportador, em que três quartos da produção se destina ao mercado externo, os impactos para a economia são imediatos. E, apesar de reconhecer que a situação não é tão gravosa como no caso da cerâmica e cristal, “num caso super extremo” as empresas de vidro de embalagem portuguesas também poderão enfrentar dificuldades que coloquem em causa a sua sobrevivência.
“Não gostamos de ser alarmistas, mas há um limite. […] Se queremos manter uma indústria saudável, próspera em Portugal e eficiente, não podemos estar constantemente perante este tipo de situações que nos limitam”, remata.
Segundo os dados mais recentes do INE, a indústria do vidro e da cerâmica empregava em 2024 mais de 25 mil pessoas.

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