Governar num dia de sol
Pedro Passos Coelho tornou-se o D. Sebastião da direita portuguesa. Não desapareceu numa manhã de nevoeiro, mas regressa ciclicamente envolto em nuvens negras, para anunciar que o país continua bloqueado, que as reformas não chegam e que o tempo se esgota.
À sua volta formou-se uma pequena corte de intérpretes, ou no mood do tempo, os seus proxi. Pululam por jornais, televisões e podcasts, numa curiosa posição: comentam a direita ao mesmo tempo que disputam o seu rumo. Rumo à grande maioria.
Não são propriamente liberais, porque o liberalismo exige alguma desconfiança perante salvadores. Também não são conservadores, porque parecem pouco interessados em conservar um Governo de direita eleito duas vezes. São, antes de tudo, passistas. E a grande Maioria, a das direitas, sim todas. É só para essa meta.
Tudo é pouco. Se Montenegro reforma, é tímido. Se negoceia, falta-lhe coragem. Se aumenta pensões, é socialista. Se alarga a base eleitoral, trai a direita. E até um Presidente que procura consensos merece a mesma ferocidade: moderação passa a fraqueza, diálogo a cedência e ausência de trincheira a falta de convicções.
Há ainda uma ironia esquecida. Passos governou num tempo excecional. A gravidade fazia parte das circunstâncias, admito. Mas será essa a única linguagem possível para governar Portugal?
Queremos viver permanentemente sob um ralhete? Com alguém a explicar-nos que gastamos mal, trabalhamos mal, votamos mal e provavelmente até pensamos mal? A política não pode ser uma sessão contínua de educação moral dos portugueses.
O sebastianismo tem esta vantagem: quem permanece no nevoeiro nunca precisa de provar como governaria num dia de sol.
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