Portugal e Índia, um diálogo histórico que se reinventa e surpreende
São mais de cinco séculos de trocas culturais e influências mútuas. No início, através de rotas marítimas. Depois, pela redescoberta mútua, feita de sincretismos, como os contadores indo-portugueses, habitados por gavetas e gavetinhas e recantos escondidos para guardar segredos. O encontro do saber-fazer de dois povos revelou-nos a vastidão de possibilidades de fazer história em conjunto.
Distante geograficamente, a Índia não nos é assim tão distante. Mas muitas das suas manifestações contemporâneas teimam em não chegar ao ritmo do tempo em que vivemos. Daí que a proposta do Palácio dos Duques de Cadaval, em Évora, seja difícil de recusar. Fazê-lo seria ignorar o território simbólico desta “Índia”, que nutre a continuidade deste diálogo de séculos entre os dois países. Sem facilitismos. Ou seja, nesta exposição, não exalta o exotismo nem uma qualquer leitura histórica. Pretende-se, antes, explorar as possibilidades do presente.
Como? Através de um diálogo entre mundos, uma pluralidade radical, entre tribal e urbano. Saindo das narrativas eurocêntricas e trilhando a dimensão espiritual que as mais de 90 obras aqui reunidas convoca.
Transformar a consciência
A arte contemporânea tântrica carateriza-se pela reinterpretação moderna de símbolos e conceitos espirituais do tantrismo, através de composições figurativas altamente simbólicas, nas quais a experiência estética se associa à meditação, à energia cósmica e à transformação da consciência. A sua força reside em não buscarem apenas a contemplação estética, mas também a meditação, a introspeção e a dimensão espiritual.
“A exposição reúne as obras sobre papel de Acharya Vyakul (Vyakul significa “o exaltado” em sânscrito). As pinturas anónimas das famílias Tantrika, que desafiam as fronteiras entre abstração e meditação. As obras de Jangarh Singh Shyam e Jivya Soma Mashe, que revelam as raízes da sua cultura animista. Ao lado dos trabalhos de Sosa Joseph e Siji Krishnan, que evidenciam a presença constante das mulheres artistas tanto nas artes populares como na arte contemporânea deste vasto subcontinente”, diz Hervé Perdriolle, curador da exposição.
As cores, formas e relações espaciais possuem significados precisos ligados à energia, ao equilíbrio entre masculino e feminino, à criação do universo e à busca da iluminação. Fusão entre tradição e modernidade, os artistas contemporâneos indianos utilizam conceitos tântricos ancestrais, representando forças invisíveis, vibrações e estados mentais. Mas também “o hiper-realismo e a tradição dos pintores de cartazes de Bollywood”, exemplifica Perdriolle, como “os grandes retratos de Parag Sonarghare.” Antes de destacar, entre as obras dos restantes artistas presentes no Palácio Cadaval, a arte de T. Venkanna, que “celebra, através do erotismo, a atividade do universo, por vezes entendida como uma gigantesca cópula divina, tal como escreveu Octavio Paz no seu livro Vislumbres da Índia.”
Pluralidade, sempre
Fantasia, humor, cores violentas, umas, cores térreas, outras, e formas bizarras. O mundo do sagrado quotidiano e da poesia diária, apetece dizer. Sentidos alerta, mente desperta e disponível para fruir, questionar, absorver os muitos mundos que encontramos nestas obras. Pedem tempo, vagar. Pedem para ser perscrutadas ao mais ínfimo detalhe. Pedem para irmos além do imediato. Para soltarmos o pensamento e vogar com elas. Para sairmos de eventuais zonas de conforto e não sucumbirmos a ideias feitas. Preconceitos. Para percebermos que aqui coexistem diferentes temporalidades e linguagens, que a tradição não limita a contemporaneidade, que a experimentação é um território mágico. E que espiritualidade e crítica social também aqui cabem.
“A Índia continua a surpreender-nos com o melhor da arte contemporânea. Tanto proveniente de culturas dominantes como minoritárias, globais e locais, urbanas e rurais. A Índia, tal como a arte contemporânea, é plural”, sintetiza Hervé Perdriolle. Nutrir o diálogo histórico passa por aqui, pelo Palácio dos Duques de Cadaval: uma ponte entre culturas e uma plataforma de (re)descoberta do Outro.
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