Eleições parlamentares russas marcadas por participação acima da média e por ataques da Ucrânia
A votação para a renovação dos 450 lugares da Duma (a câmara baixa do Parlamento russo) deverá servir para o partido do presidente Vladimir Putin, o Rússia Unida, reforçar o seu peso, que é da ordem dos 315 lugares. Segundo a imprensa russa, qualquer resultado acima dos 300 lugares será considerado bom. Os primeiros indicadores parecem ser favoráveis a Putin: a taxa de participação eleitoral geral ultrapassou os 52,6%, superando o nível registado nas eleições parlamentares anteriores em 2021, ainda antes da invasão da Ucrânia. O temor de que os russos optassem por deixar a eleição em branco – o que serviria como um alerta contra a guerra – não se verificou.
Segundo as agências internacionais, as regiões ocupadas na Ucrânia (como a autoproclamada República Popular de Donetsk e Zaporíjia) registaram taxas de participação muito elevadas no primeiro dia, o que também parece ser um indicador favorável ao regime. Só em Moscovo, mais de 2,8 milhões de pessoas votaram digitalmente, com uma taxa de participação a rondar os 82% entre os eleitores inscritos no sistema online.
O último dia (de três) de votação ficou marcado pelo aumento dos ataques da Ucrânia ao território russo – algo que as autoridades de Moscovo tinham antecipado como muito provável. As autoridades russas reportaram a interseção de mais de 1.600 drones em várias regiões do país, dos quais cerca de 450 tinham como alvo direto Moscovo. Vários drones conseguiram passar pelas defesas aéreas, atingindo prédios de habitação em localidades da região de Moscovo, como Kotelniki.
O governador da região de Moscovo confirmou a morte de três pessoas devido aos ataques. Pelo menos outras 20 pessoas ficaram feridas, incluindo três crianças. Registaram-se ainda feridos na região fronteiriça de Belgorod e a morte de uma funcionária eleitoral num ataque na região ocupada de Kherson. A Rússia respondeu com ataques contínuos de mísseis e drones contra a Ucrânia, provocando também a morte de quatro pessoas (incluindo três crianças) na região de Kiev.
De acordo com declarações do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a ofensiva teve um duplo propósito: enviar um sinal claro à população e ao Kremlin em pleno dia de votação, demonstrando a capacidade militar ucraniana – evidenciandoque a guerra tem custos diretos dentro da própria capital russa; e continuar a campanha de asfixia económica focada em destruir a infraestrutura russa de refinação de combustível.
Zelensky destacou a eficácia das novas tecnologias de drones de longo alcance da Ucrânia, enquanto o autarca de Moscovo, Sergei Sobyanin, classificou a operação como uma tentativa falhada de “perturbar e sabotar o processo eleitoral”.
Por outro lado, os ataques informáticos contra o sistema eleitoral russo atingiram uma escala inédita durante este fim-de-semana de votação, com as autoridades do país a reportarem mais de mil ondas de ataques cibernéticos em massa direcionadas especificamente contra a infraestrutura das eleições legislativas. A maioria das investidas consistiu em ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS), que são dirigidos para inundar as plataformas com tráfego artificial para deixar os servidores lentos ou completamente inoperacionais.
O sistema de votação remota online da capital foi o principal alvo. Os hackers lançaram um ataque cibernético “muito potente” e persistente, disseram as autoridades russas, que durou quase toda a madrugada de sábado. O Ministério Digital da Rússia confirmou ainda que foram registadas tentativas físicas e digitais de sabotar as linhas de comunicação em regiões do Extremo Oriente do país para tentar desligar as assembleias de voto locais.
Segundo a presidente da Comissão Eleitoral Central da Rússia, Ella Pamfilova, as operações foram executadas por “grupos altamente profissionais e bem coordenados”, que recorreram ao uso de ferramentas baseadas em Inteligência Artificial para contornar as defesas digitais. Embora a Comissão Eleitoral não tenha nomeado diretamente um país nas suas declarações técnicas, o presidente Vladimir Putin acusou a Ucrânia de tentar interferir nas eleições através do ciberespaço.
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