Escalada dos juros da dívida francesa assombra Europa e conflito com Irão condiciona Wall Street
As yields das obrigações soberanas voltam a estar no centro das atenções dos mercados esta quinta-feira, com a dívida francesa a assumir particular destaque depois de a taxa a 10 anos ter superado os 4,5% e de o prémio exigido face à dívida alemã se aproximar de máximos de mais de uma década. Nos EUA, a subida das Treasuries — com a yield a dois anos em máximos desde 2024 e a 10 anos no nível mais elevado desde 2007 — continua a pressionar as ações, num contexto agravado pela subida do petróleo e pela tensão entre Washington e Teerão.
Wall Street fecha em baixa com subida dos juros e tensão no Irão
Wall Street encerrou a sessão de quarta-feira em terreno negativo, pressionada pela subida dos rendimentos das obrigações do Tesouro norte-americano, pela escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irão e pelas quedas de algumas das principais tecnológicas. O S&P 500 recuou 0,75%, para 7.706,05 pontos, o Nasdaq perdeu 1,13%, para 26.936,04 pontos, e o Dow Jones caiu 0,68%, para 51.511,59 pontos.
Nove dos 11 setores do S&P 500 fecharam em queda, com os serviços públicos (-1,72%) e os serviços de comunicação (-1,49%) entre os mais penalizados.
Entre as tecnológicas, a Alphabet caiu 3,8% e a Amazon recuou 2,2%. A Meta, por seu lado, avançou 1%, elevando para 12% a valorização acumulada na semana. O índice de semicondutores PHLX perdeu 1,2%, com a Nvidia a recuar 1,5%. Expedia e Airbnb estiveram entre as maiores quedas, ambas superiores a 7%.
O ambiente de mercado foi agravado pela subida das yields da dívida norte-americana. Dados relativos à atividade empresarial nos Estados Unidos apontaram para uma aceleração em setembro, levando os investidores a reverem as expectativas para a trajetória dos juros da Reserva Federal.
A yield da Treasury a dois anos atingiu o nível mais elevado desde 2024, enquanto a taxa a 10 anos subiu para máximos desde 2007. O movimento reforçou a pressão sobre as ações, num contexto em que o mercado passou a atribuir uma probabilidade de cerca de 71% a uma nova subida das taxas de juro na reunião da Fed de outubro.
Para esta quinta-feira, a evolução das yields, o petróleo e os desenvolvimentos no Médio Oriente continuam no centro das atenções dos investidores.
Petróleo sobe com tensão entre EUA e Irão
Os preços do petróleo dispararam quase 4% na quarta-feira, com o Brent a recuperar mais de 4% e a superar novamente os 103 dólares por barril, interrompendo uma sequência de cinco sessões de quedas.
A subida ocorreu depois de o Presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, ter discursado na Assembleia-Geral das Nações Unidas, um dia depois de Donald Trump ter aumentado o tom das ameaças dirigidas a Teerão.
O mercado continua particularmente atento aos riscos de perturbação da oferta de crude no Médio Oriente. A suspensão das exportações sauditas através do oleoduto East-West, uma rota alternativa ao Estreito de Ormuz, acrescentou pressão ao mercado físico numa altura em que as tensões na região permanecem elevadas.
A evolução da relação entre Washington e Teerão e os dados semanais sobre as reservas de crude nos Estados Unidos deverão continuar a determinar o comportamento do petróleo ao longo da sessão.
França mantém pressão sobre dívida europeia
No mercado europeu de dívida, a trajetória das obrigações francesas continua a merecer particular atenção. A yield da OAT francesa a 10 anos ultrapassou esta semana os 4,5%, atingindo máximos desde 2008, enquanto o diferencial face à dívida alemã se aproximou de 1 ponto percentual, em máximos desde 2012.
A taxa a 30 anos chegou também aos 5,16%, um nível não observado desde 2003.
A subida dos juros franceses ocorre num contexto de incerteza política e orçamental, com os investidores atentos à capacidade de Paris para avançar com medidas de consolidação das contas públicas. A proximidade das eleições presidenciais de 2027 acrescenta uma dimensão política às preocupações em torno da trajetória da dívida francesa.
Nos Estados Unidos, a subida das yields acompanha a revisão das expectativas para os juros da Fed. A combinação de taxas mais elevadas, petróleo mais caro e incerteza geopolítica cria um ambiente de maior pressão tanto sobre as ações como sobre a dívida soberana.
Bolsas europeias terminam sessão em queda
As principais bolsas europeias encerraram a sessão de quarta-feira em baixa, depois de perderem o impulso registado no início da sessão, num contexto marcado pela recuperação dos preços do petróleo e pela cautela dos investidores perante a escalada das tensões entre os Estados Unidos e o Irão.
O FTSE 100 londrino praticamente estabilizou, com uma queda de 0,03%, para 10.705,26 pontos. Em Frankfurt, o DAX recuou 0,59%, para 25.426,79 pontos, enquanto o CAC 40 francês perdeu 0,39%, para 8.123,41 pontos.
Em Milão, o FTSE MIB caiu 0,21%, para 51.987,49 pontos, e o Ibex 35, em Madrid, recuou 0,48%, para 19.659,20 pontos. Em Lisboa, o PSI perdeu 0,25%, para 9.632,44 pontos.
Os dados económicos trouxeram, contudo, um sinal positivo. O PMI composto da zona euro subiu para 53,1 pontos em setembro, o nível mais elevado em 41 meses e acima das expectativas. Na Alemanha, o indicador atingiu um máximo de 11 meses.
A recuperação do petróleo beneficiou as empresas do setor energético. A Repsol avançou 3,39% em Madrid, a Galp ganhou 2,79% em Lisboa e a Neste subiu 3,24% em Helsínquia, depois de Donald Trump ter admitido estar a avaliar restrições às exportações norte-americanas de gasóleo.
No setor automóvel, a Volkswagen recuou 2,26%. Em Zurique, a UBS caiu 1,44%, depois de o Senado suíço ter aprovado uma proposta destinada a suavizar as novas exigências de capital para o banco.
Pedidos de subsídio e vendas de casas em foco nos EUA
A agenda macroeconómica norte-americana desta quinta-feira inclui os pedidos semanais de subsídio de desemprego, divulgados às 13h30, hora de Lisboa, e os dados sobre as vendas de casas novas.
Os indicadores serão acompanhados de perto depois dos sinais de maior dinamismo da atividade empresarial em setembro e num momento em que os investidores procuram avaliar até que ponto a economia norte-americana continua suficientemente robusta para justificar uma política monetária mais restritiva.
Os discursos de responsáveis da Fed também permanecem no radar, sobretudo depois da recente revisão das expectativas do mercado em relação à reunião de outubro.
Xi e Trump encontram-se em Washington
No plano geopolítico, o encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca será um dos principais acontecimentos desta quinta-feira.
A reunião deverá abordar comércio, inteligência artificial, minerais estratégicos, Taiwan, Irão e o combate ao tráfico de substâncias utilizadas na produção de fentanil. O encontro ocorre num contexto de relações comerciais ainda marcadas por divergências, apesar da trégua alcançada entre Washington e Pequim.
A trégua comercial de 11 meses termina em novembro e permanecem diferenças entre os dois países em áreas como Taiwan e as terras raras. Ainda assim, as negociações poderão produzir acordos pontuais em matérias como tarifas setoriais, combate ao tráfico de droga e diálogo militar.
Para os mercados, a evolução das relações entre as duas maiores economias mundiais junta-se à tensão no Médio Oriente como um dos principais fatores de risco geopolítico da sessão.
No caso do Irão, a escalada da retórica entre Washington e Teerão mantém a pressão sobre o petróleo e aumenta a incerteza em torno da inflação. Uma subida mais prolongada dos preços da energia poderá, por sua vez, condicionar as expectativas para a política monetária e manter os juros soberanos sob pressão.
A presença russa em Nova Iorque, à margem da Semana de Alto Nível da 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, é outro fator a acompanhar pelo seu potencial impacto nos preços da energia. Depois de um encontro a portas fechadas entre Lavrov e o secretário de Estado Marco Rubio, Washington confirmou o convite formal a Putin para a cimeira do G20, em Miami, a 14 e 15 de dezembro — e Rubio revelou que Moscovo e Kiev sinalizaram abertura a um cessar-fogo limitado que cubra cereais e energia, uma trégua que, mesmo parcial, os mercados vigiarão de perto
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