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Um conto de dois continentes

Um conto de dois continentes

A situação nos EUA está claramente insustentável, mas será ultrapassada a médio prazo porque alguém irá pôr Trump na ordem e acabar com a sua verticalité jupitérienne – os eleitores, o Grande Old Party, os representantes, o grande capital,  all of the above.  O seu estado de, digamos, desconexão com a realidade está cada vez mais evidente, tal como o mal que pode causar à Nação Americana.
A sua ameaça de acabar com as trocas com os outros países é patética – ninguém nos EUA o deixaria transformar o País na Albânia de Enver Hoxha. Aliás, a ameaça do início deste mês de acabar com as transações com alguns países se a Fed não baixasse as taxas de juro não impediu o FOMC de as subir na reunião da semana passada, e por unanimidade. Isto depois de ele ter colocado Warsh na presidência da instituição, o que mostra o respeito que Trump merece nos dias de hoje; o sinal avançado do fim será o decoupling de Vance. Mas é uma situação perigosa quando se trata de alguém que está na terceira fase do Síndroma de Hubris. E que bem podia ter ficado calado quando Amodei, Altman e Musk lhe explicaram o “I’m sorry, Dave. I’m afraid I can’t do that.”
Entretanto, o caminho está a ser feito. O fundo de pensões da Noruega, o maior do Mundo, está a preparar-se para “despachar” 80 mil milhões de dólares de títulos do Tesouro americano; França e Holanda estão a retirar reservas de ouro dos EUA; o dólar representava 71% das reservas de divisas em 2000, agora fica-se pelos 57%; a China cria o mBridge para desdolarizar a economia internacional e arregimenta membros para o sistema, e publica em junho um paper sobre global governance.
Caminhamos para um admirável Mundo novo, e ninguém na Europa está preparado. A França está em vias de ficar (mais) ingovernável, e ninguém consegue pôr as finanças públicas em ordem.  Na Alemanha é a vez da CDU/CSU perder terreno para os extremos (AfD e Die Link) entre os eleitores – não consegue sequer eleger no Meclemburgo. No Reino Unido, com o custo de financiamento mais alto do G7 (market yield), Andy Haldane fez um aviso a Burnham para deixar de parecer um “tradicional tax and spend socialist government with better TikTok vídeos” e cortar na despesa pública.
Temos pela frente a hipótese de uma Armadilha de Kindleberger – a potência dominante arrasta a economia mundial para a instabilidade e recusa-se a exercer a liderança internacional, quando não há outro candidato forte à liderança. Ou talvez haja, mas não sei se será positivo para nós.

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