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Ásia, de laboratório a fábrica do mundo. Já conquistou 43% da inovação farmacêutica mundial

Ásia, de laboratório a fábrica do mundo. Já conquistou 43% da inovação farmacêutica mundial

Durante muito tempo, quando uma empresa farmacêutica ocidental procurava a Ásia, procurava sobretudo capacidade de produção. A região era sinónimo de fábricas, genéricos, custos mais baixos e cadeias de abastecimento. Agora, a conversa está a mudar.
A Ásia está a deixar de ser apenas o lugar onde os medicamentos são fabricados para passar a ser também o lugar onde são descobertos, testados e desenvolvidos. E a velocidade desta transformação está a obrigar a indústria farmacêutica mundial a rever a forma como olha para a região.
Em apenas cinco anos, a participação asiática na pipeline mundial de medicamentos inovadores passou de 28% para 43%, ultrapassando tanto os Estados Unidos como a Europa. Só em 2024, os países asiáticos foram responsáveis por mais de 85% do crescimento mundial desta pipeline, com a China e a Coreia do Sul a liderarem a entrada de novos ativos clínicos.
Os números são de uma análise da McKinsey publicada em janeiro de 2026 e apontam para uma alteração que vai muito além da dimensão da indústria farmacêutica asiática. Em 2024, a Ásia foi responsável por quase dois terços das patentes de biotecnologia concedidas em todo o mundo — cinco vezes a quota europeia — e por cerca de um quarto dos acordos mundiais de licenciamento de medicamentos.
Há, contudo, um indicador em que a região ainda fica bastante atrás: os novos medicamentos aprovados pela FDA, o regulador norte-americano. A Ásia é responsável por cerca de um em cada dez medicamentos inovadores aprovados nos Estados Unidos.
A diferença entre os números não é necessariamente uma contradição. Uma descoberta pode demorar anos até chegar ao mercado. O que hoje aparece como investigação, patente ou ensaio clínico só mais tarde se transforma numa aprovação. É precisamente por isso que a McKinsey considera que os indicadores mais recentes da inovação asiática podem antecipar uma presença maior nos medicamentos que chegarão aos mercados globais nos próximos anos.
China acelera e começa a vender inovação ao mundo
Se a Ásia está a ganhar velocidade, a China é o país que mais rapidamente está a transformar essa velocidade em escala. O país representa atualmente cerca de 29% da pipeline mundial de medicamentos inovadores e tornou-se o principal destino asiático para investimento em biotecnologia. Entre 2019 e 2024, as empresas chinesas de biotecnologia atraíram 26 mil milhões de dólares (cerca de 22,2 mil milhões de euros) em investimento de private equity e capital de risco.
A diferença em relação ao passado está no tipo de ciência que está a ser produzida.
As empresas chinesas já não estão concentradas apenas em medicamentos tradicionais. Estão a desenvolver anticorpos conjugados a fármacos, anticorpos multiespecíficos, terapias celulares e genéticas, degradadores de proteínas, terapias de RNA e radiofármacos. Em várias destas tecnologias de nova geração, a China já aparece logo atrás dos Estados Unidos.
A oncologia continua a ser a principal área de atividade, mas a pipeline está a tornar-se mais diversificada, abrangendo imunologia, neurologia e doenças metabólicas. Os medicamentos baseados em GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e da diabetes, são uma das áreas onde a atividade está a crescer.
Mas talvez a maior vantagem chinesa seja outra: tempo.
Segundo a McKinsey, os processos entre a descoberta inicial de uma molécula e a apresentação de um pedido para iniciar ensaios clínicos podem ser 50% a 70% mais rápidos na China do que no resto do mundo. Na fase de desenvolvimento clínico, o recrutamento de doentes pode ser duas a cinco vezes mais rápido do que nos Estados Unidos e na União Europeia.
A combinação de uma população muito grande, centros clínicos concentrados, redes de organizações de investigação por contrato e capacidade de execução permite encurtar etapas que tradicionalmente consomem anos.
Em 2023, a China representava 39% dos ensaios clínicos mundiais, de acordo com a análise. Também o regulador mudou. A entrada da China no International Council for Harmonisation, em 2017, aproximou o sistema regulatório chinês dos padrões internacionais. O Center for Drug Evaluation reforçou significativamente os seus recursos e, segundo a McKinsey, o tempo de aprovação de medicamentos caiu de cerca de 4,5 anos em 2018 para aproximadamente um ano em 2023.
O resultado começa a aparecer fora da China. Os pagamentos iniciais associados a acordos de licenciamento de ativos originários do país passaram de menos de 100 milhões de dólares (cerca de 85 milhões de euros) em 2020 para mais de 800 milhões de dólares (cerca de 684 milhões de euros) em 2024. Ou seja, as farmacêuticas chinesas estão a deixar de vender apenas capacidade de produção. Estão a vender ciência.
A Coreia do Sul escolheu a especialização
A Coreia do Sul está a seguir uma trajetória diferente, mas igualmente rápida.
Em vez de procurar cobrir toda a cadeia da mesma forma que a China, o país está a ganhar espaço em áreas particularmente sofisticadas da biotecnologia, como os anticorpos conjugados a fármacos e as terapias celulares e genéticas.
Os grandes negócios começam a refletir essa especialização. A GSK assinou com a ABL Bio um acordo que pode atingir 2,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,1 mil milhões de euros) para desenvolver medicamentos capazes de atravessar a barreira hematoencefálica no tratamento de doenças neurodegenerativas. A LigaChem fechou uma parceria com a Johnson & Johnson Innovative Medicine avaliada em 1,7 mil milhões de dólares (cerca de 1,45 mil milhões de euros).
São negócios que mostram como a inovação sul-coreana começa a ser incorporada nas pipelines das grandes farmacêuticas internacionais. A infraestrutura também está a acompanhar. O país tem vindo a desenvolver centros de investigação associados a hospitais, empresas de desenvolvimento e produção por contrato e capacidades industriais destinadas a suportar terapias de nova geração.
O Governo colocou a biofarmacêutica entre as 55 tecnologias estratégicas nacionais. O Korea Drug Development Fund comprometeu 2 mil milhões de dólares para apoiar mais de 1.200 projetos de inovação até 2030. O mercado de capitais é outro elemento da estratégia. Desde 2018, cerca de 40 empresas de biotecnologia entraram no KOSDAQ, incluindo empresas que ainda não tinham receitas.
Japão não corre atrás. Tem outra vantagem
O Japão ocupa uma posição diferente neste novo mapa. Enquanto a China aposta na escala e velocidade e a Coreia do Sul na especialização, o Japão combina ciência, investigação aplicada, regulação e experiência comercial.
Entre 2015 e 2023, o país foi responsável por 24 novas entidades moleculares aprovadas pela FDA, o maior número entre os países asiáticos analisados pela McKinsey. É também o país de empresas como a Daiichi Sankyo, que construiu uma posição mundial nos anticorpos conjugados a fármacos, e a Eisai, cuja atividade na doença de Alzheimer se tornou global.
O Japão dispõe ainda de mecanismos regulatórios para acelerar medicamentos considerados prioritários. No caso das terapias celulares e genéticas, criou uma categoria específica de produtos de medicina regenerativa com uma via de aprovação condicional e limitada no tempo.
A investigação pública continua a ser uma peça importante. A Japan Agency for Medical Research and Development dispõe de um orçamento anual de aproximadamente mil milhões de dólares (cerca de 855 milhões de euros), abrangendo áreas como descoberta de medicamentos, medicina regenerativa e genómica.
O país tem ainda uma vantagem menos visível: a experiência internacional. Cerca de um em cada quatro líderes das principais farmacêuticas japonesas tem experiência profissional fora do país, segundo a análise da McKinsey.
Singapura quer ser a ponte
Singapura não tem a população da China, a indústria da Índia ou a tradição científica japonesa. A sua aposta é outra: ser a ponte entre ciência, capital e mercados.
O país tornou-se um dos principais centros de inovação biofarmacêutica do Sudeste Asiático, particularmente nas fases iniciais do desenvolvimento. Infraestruturas como o Biopolis e a A*STAR permitem às empresas transformar descobertas científicas em projetos com potencial comercial. A proteção da propriedade intelectual, a eficiência dos processos de ensaios clínicos e uma infraestrutura digital avançada ajudam a reforçar essa posição.
Desde 2010, o Governo de Singapura comprometeu mais de 45 mil milhões de dólares (cerca de 38,5 mil milhões de euros) através dos programas Research, Innovation and Enterprise. Cerca de metade desse montante foi destinada às ciências biomédicas e da saúde, incluindo a biofarmacêutica.
O país conseguiu ainda atrair grandes investidores internacionais. Flagship Pioneering, CBC Group e Novo Holdings estão entre os grupos de capital de risco que estabeleceram presença no mercado. Para Singapura, a escala não está dentro das suas fronteiras. Está na possibilidade de funcionar como plataforma para empresas que pretendam entrar nos mercados asiáticos.
Índia quer subir na cadeia de valor
Na Índia, a transformação parte de uma base completamente diferente. O país continua a ser uma das grandes potências mundiais na produção farmacêutica. Tem mais de 750 instalações aprovadas pela FDA e mais de 2.050 instalações certificadas pela Organização Mundial da Saúde em boas práticas de fabrico.
Mas a Índia quer agora fazer mais do que fabricar medicamentos descobertos noutros países. A pipeline de inovação passou de aproximadamente 270 ativos em 2015 para cerca de 450 em 2024. As empresas indianas estão a avançar para biossimilares, injetáveis e anticorpos conjugados a fármacos. Existem já mais de 138 biossimilares aprovados nos diferentes mercados.
A estratégia tem uma vantagem económica evidente: juntar capacidade industrial, talento científico e custos competitivos. Em 2023, o Governo lançou uma política nacional para estimular a investigação e desenvolvimento na indústria farmacêutica e de dispositivos médicos, apoiada por 600 milhões de dólares (cerca de 513 milhões de euros) através de um programa de incentivos ligado à investigação, com financiamento até 2028.
Em 2024, foram investidos entre 2,5 mil milhões e 3 mil milhões de dólares (cerca de 2,1 a 2,6 mil milhões de euros) em investigação e desenvolvimento farmacêutico na Índia.
O país tem ainda mais de mil empresas de biotecnologia em fase de arranque e 12 parques de biotecnologia. A Índia está, assim, a tentar transformar aquilo que durante décadas foi visto como uma vantagem de custos numa vantagem científica.
A nova fábrica pode ser um laboratório
É a soma destas diferentes estratégias que torna a mudança asiática particularmente relevante. Não existe um único modelo asiático de inovação. Existem vários.
A China oferece escala, velocidade, uma grande pipeline e uma rede de investigação e produção altamente desenvolvida. A Coreia do Sul especializa-se em determinadas tecnologias avançadas. O Japão combina investigação e capacidade de levar medicamentos ao mercado mundial. Singapura funciona como plataforma de inovação e porta de entrada regional. A Índia junta talento, produção e custos competitivos.
Para as grandes farmacêuticas, isso abre uma possibilidade que há poucos anos teria sido mais difícil de imaginar: construir uma cadeia de investigação distribuída por vários países asiáticos.
Uma molécula pode ser descoberta na China, desenvolvida através de ensaios clínicos na região, produzida na Coreia do Sul e passar pela capacidade indiana de formulação e produção em escala. O Japão pode contribuir com investigação básica e desenvolvimento translacional, enquanto Singapura pode funcionar como plataforma regional. A indústria deixa, desta forma, de pensar apenas em geografias e começa a pensar em competências.
Quatro maneiras de uma empresa asiática chegar ao mundo
A crescente capacidade científica está também a alterar a forma como as empresas asiáticas se internacionalizam. A primeira via é o licenciamento. Uma empresa descobre e desenvolve um medicamento e licencia os direitos a uma farmacêutica estrangeira, que assume parte do desenvolvimento, produção e comercialização. É o modelo mais tradicional e permite transformar investigação em receita sem assumir o custo de construir uma operação mundial. As empresas asiáticas representam já cerca de 25% dos acordos mundiais de licenciamento, segundo a McKinsey.
A segunda são as parcerias estratégicas, nas quais empresas asiáticas e multinacionais partilham custos, riscos e receitas. A região representa aproximadamente 30% das parcerias globais.
A terceira é o modelo direct to global. Aqui, a empresa asiática deixa de depender de uma multinacional para levar o seu produto ao exterior e assume diretamente processos regulatórios, ensaios clínicos, operações e comercialização.
O Japão tem empresas com longa experiência internacional, mas a estratégia está também a ganhar força na China. A BeOne é apontada pela McKinsey como um dos primeiros grandes grupos biofarmacêuticos chineses a levar diretamente os seus ativos para mercados internacionais. A sul-coreana SK Biopharmaceuticals e a indiana Dr. Reddy’s Laboratories são outros exemplos de empresas asiáticas com presença global.
Finalmente, existe o modelo NewCo.
Neste caso, um ou mais medicamentos são separados da empresa original e colocados numa nova companhia, muitas vezes criada numa jurisdição estrangeira. A nova empresa procura investidores, contrata uma equipa própria e desenvolve o medicamento para os mercados internacionais, enquanto a empresa asiática de origem pode conservar uma participação.
Mais de dez operações deste género foram realizadas no último ano, de acordo com a McKinsey, com a China a concentrar a maioria dos casos.
Um exemplo é a criação, em 2025, da Timberlyne Therapeutics, uma empresa norte-americana lançada pela KeyMed Biosciences em parceria com a Mountainfield Venture Partners para desenvolver fora da Grande China o anticorpo CM313, destinado a aplicações em oncologia e doenças autoimunes.
Para as empresas asiáticas, o modelo permite aceder a capital e talento especializado noutros mercados sem abdicar totalmente do controlo sobre os ativos.
O preço pode ser a próxima vantagem
Há uma última variável que pode tornar esta transformação ainda mais importante: o custo.
Segundo a McKinsey, os programas de descoberta na China podem custar aproximadamente entre um terço e metade do que custam a nível mundial. Na fase de desenvolvimento clínico, os custos podem representar entre 20% e 50% dos níveis registados nos Estados Unidos.
Se estas diferenças forem sustentáveis, a vantagem asiática não será apenas científica ou operacional. Será também económica.
Isso pode tornar-se especialmente relevante num setor confrontado com elevados custos de investigação, expiração de patentes e necessidade de encontrar novas fontes de produtividade. A consequência pode ultrapassar os mercados desenvolvidos.
Uma inovação que consiga ser descoberta e produzida a um custo inferior pode encontrar espaço em mercados onde o preço continua a ser uma das principais barreiras ao acesso a medicamentos inovadores — do Sudeste Asiático à América Latina, passando pelo Médio Oriente e África.
Mas a vantagem de custos, por si só, não resolve o problema. Para chegar aos doentes serão necessárias redes de distribuição, estruturas regulatórias e parceiros locais.
O novo mapa da indústria farmacêutica
A ascensão da Ásia não significa que Estados Unidos e Europa estejam a perder a sua importância na investigação farmacêutica. Os Estados Unidos continuam a concentrar uma parte muito significativa da inovação e das aprovações de novos medicamentos. A mudança é outra: a inovação está a tornar-se mais distribuída.
A Ásia está a acumular, ao mesmo tempo, investigação, capital, talento, ensaios clínicos, capacidade industrial e experiência regulatória. E começa a transformar essa combinação em medicamentos e tecnologias que interessam às maiores farmacêuticas mundiais.
A aquisição da Gracell Biotechnologies pela AstraZeneca, por exemplo, mostra como uma empresa fundada na China pode tornar-se um ativo estratégico para uma das maiores farmacêuticas do mundo.
O modelo tradicional — descobrir nos Estados Unidos ou na Europa, produzir na Ásia e vender no mundo — começa a dar lugar a outro. Nesse novo modelo, a descoberta pode acontecer na China, os ensaios clínicos podem envolver vários mercados asiáticos, a produção avançada pode ser feita na Coreia do Sul, a investigação pode beneficiar da ciência japonesa, a Índia pode fornecer capacidade industrial e Singapura pode servir de plataforma regional.
É uma indústria menos organizada em torno de fronteiras e mais em torno de competências. Para os investidores, a mudança também é significativa. Entre 2019 e 2024, só a China recebeu 26 mil milhões de dólares de investimento privado e de capital de risco em biotecnologia. A Coreia do Sul está a multiplicar operações de financiamento e parcerias internacionais. A Índia está a atrair capital para investigação. Singapura tornou-se um destino para fundos internacionais especializados.
A questão para as farmacêuticas deixou, por isso, de ser simplesmente onde fabricar. É onde descobrir, onde testar, onde produzir e com quem levar cada medicamento ao mundo. A resposta pode já não estar num único país. Pode estar numa cadeia asiática de competências que começa a transformar a antiga “fábrica do mundo” num dos grandes laboratórios da indústria farmacêutica global.

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