Flexibilidade já pesa mais do que aumentos salariais na atração de talento tecnológico em Portugal
Para os trabalhadores, o próprio modelo de trabalho ganhou peso na escolha de um novo emprego. Um estudo da Hays realizado em 2026 concluiu que 87% dos profissionais consideram o modelo — presencial, remoto ou híbrido — uma prioridade máxima ou um fator muito importante na avaliação de uma nova oportunidade. Os dados integram um conjunto de estudos citados num novo trabalho da International Workplace Group (IWG), em conjunto com a Arup, que procura medir o impacto económico dos modelos de trabalho mais flexíveis.
O estudo conclui que a capacidade de atrair e reter talento pode ter um impacto significativo na produtividade, ao permitir às empresas preservar experiência e conhecimento e reduzir os custos associados à saída de trabalhadores.
Em Portugal, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é o principal motivo para 51% dos profissionais permanecerem no atual emprego, segundo o Workmonitor 2026 da Randstad. A remuneração e os benefícios são apontados por 23%. A autonomia também pesa: metade dos profissionais portugueses inquiridos afirma já ter abandonado um emprego por falta dela, enquanto oito em cada dez empregadores consideram que dar maior autonomia aos colaboradores contribui para aumentar o compromisso e a produtividade.
A importância da flexibilidade surge também nos dados globais da IWG. Segundo estudos da organização, 81% dos diretores de Recursos Humanos consideram o trabalho híbrido fundamental para reter os melhores talentos, enquanto 86% identificam a flexibilidade como o benefício mais procurado pelos candidatos.
Quase três quartos dos líderes empresariais, 72%, consideram que oferecer modelos de trabalho híbridos ou flexíveis é essencial para atrair líderes mais jovens. E 78% acreditam que as organizações que disponibilizam essas modalidades têm uma clara vantagem face às que não as oferecem.
No setor tecnológico, o trabalho híbrido é a estratégia mais utilizada para competir pelos melhores profissionais, referida por 37% dos líderes empresariais, à frente da remuneração competitiva, apontada por 35%. Nos Estados Unidos, mais de um terço dos profissionais indica já o trabalho remoto como o principal fator na escolha de um novo emprego, à frente do salário.
Reter trabalhadores pode valer milhares de milhões
É na retenção que o estudo da IWG e da Arup encontra o maior potencial económico. Nos Estados Unidos, uma maior capacidade para manter profissionais poderá representar ganhos de produtividade de 204,7 mil milhões de dólares (€180,6 mil milhões) ao longo de cinco anos. No Reino Unido, o valor estimado chega a 10,8 mil milhões de libras (€12,6 mil milhões).
Os valores referem-se exclusivamente aos dois mercados analisados, mas procuram quantificar o impacto económico da perda de trabalhadores experientes. Quando um profissional deixa uma organização, a empresa perde não apenas a pessoa, mas também experiência, conhecimento, continuidade e capacidade produtiva.
A redução da rotatividade pode evitar perdas anuais de Valor Acrescentado Bruto (VAB) que chegam a 40,9 mil milhões de dólares (€36,1 mil milhões) nos Estados Unidos e 2,2 mil milhões de libras (€2,6 mil milhões) no Reino Unido.
A preservação do conhecimento dentro das empresas representa outros 65,5 mil milhões de dólares (€57,8 mil milhões) em ganhos de produtividade nos Estados Unidos e 5,7 mil milhões de libras (€6,7 mil milhões) no Reino Unido ao longo de cinco anos.
A capacidade de atrair talento poderá gerar mais 98,3 mil milhões de dólares (€86,7 mil milhões) nos Estados Unidos e 6,5 mil milhões de libras (€7,6 mil milhões) no Reino Unido no mesmo período. Já processos de recrutamento e integração mais eficientes são estimados em aproximadamente 9,4 mil milhões de dólares (€8,3 mil milhões) e 600 milhões de libras (€700 milhões), respetivamente.
Inteligência Artificial junta-se à equação
A Inteligência Artificial poderá reforçar estes ganhos. Quatro em cada cinco CEO, ou 80%, consideram que a combinação entre IA e trabalho híbrido aumenta a produtividade dos colaboradores.
Cerca de 60% dos profissionais norte-americanos e 68% dos britânicos afirmam que a tecnologia já está a melhorar a sua experiência de trabalho híbrido.
Em Portugal, 60% dos profissionais e 70% dos empregadores inquiridos no Workmonitor 2026 da Randstad consideram que a IA está a contribuir para melhorar o desempenho. E a adoção deverá continuar a aumentar: 89% dos empregadores portugueses planeiam reforçar a utilização da tecnologia nos 12 meses seguintes.
A combinação entre flexibilidade, retenção de talento e Inteligência Artificial está, assim, a alterar a relação entre organização do trabalho e produtividade. Para as empresas, a questão já não passa apenas pelo local onde os trabalhadores exercem funções, mas também pela capacidade de atrair profissionais, manter conhecimento e criar condições para aumentar o desempenho.
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