Juros do Tesouro americano nos 5,15% asfixiam Wall Street e dívida de Paris dispara para 4,86% na véspera do orçamento
Os mercados entram no quarto trimestre sob pressão da subida abrupta das taxas de juro nos Estados Unidos e da crise orçamental francesa, com os investidores a prepararem-se para um dia carregado de dados macroeconómicos e riscos geopolíticos.
O Irão anunciou que recebeu uma resposta formal dos Estados Unidos à sua última proposta para pôr fim à guerra no Médio Oriente, sem especificar o conteúdo.
Os futuros de Wall Street apontam para uma abertura mista, com os investidores a digerirem a escalada dos rendimentos do Tesouro.
Os principais índices norte-americanos terminaram a sessão desta quarta-feira, 30 de setembro, em território maioritariamente negativo, depois de uma onda de volatilidade ter tomado conta de Wall Street na última hora de negociação. As ações reverteram grande parte das subidas registadas ao longo do dia. O S&P 500 desceu 0,25% para 7.651,54 pontos, o Dow Jones Industrial Average recuou 0,86% para 50.906,05 pontos e o Nasdaq Composite avançou 0,24% para 26.861,06 pontos.
O dia ficou marcado pela divulgação dos dados da inflação nos Estados Unidos, que ficaram abaixo das previsões dos analistas. O índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE) — a principal medida de inflação acompanhada pela Reserva Federal (Fed) — subiu 0,3% em agosto face ao mês anterior, depois de um aumento de 0,1% em julho (valor entretanto revisto em baixa). O resultado ficou abaixo dos 0,4% esperados pelos economistas consultados pela Reuters.
Já o PCE subjacente (sem alimentos e energia), indicador preferido da Fed, avançou 0,2% em agosto, abaixo dos 0,3% projetados pelos analistas consultados pela Bloomberg. A leitura veio aliviar as expectativas de que a Fed volte a subir as taxas de juro na reunião de outubro.
O mercado foi também influenciado pela revisão em alta do crescimento da economia norte-americana. A leitura final do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre foi revista para 2,2% face ao mesmo trimestre do ano anterior, de acordo com a terceira estimativa divulgada pelo Gabinete de Análise Económica dos EUA. A revisão em alta de 0,7 pontos percentuais face à estimativa anterior, é sinal de maior robustez da economia norte-americana.
A criação de vagas no setor privado dos Estados Unidos acelerou em setembro, segundo o Relatório Nacional de Emprego da ADP divulgado nesta quarta-feira. Foram abertos 90 mil postos de trabalho no setor privado neste mês, após 36 mil em agosto em dado revisado para baixo. Economistas consultados pela Reuters previam abertura de 70 mil postos de trabalho, após 38 mil em agosto conforme divulgado anteriormente.
O foco recai agora sobre o relatório de emprego de setembro na sexta-feira.
Esta quarta-feira as yields das Obrigações do Tesouro norte-americano a dez anos recuaram cerca de 2,5 pontos base, para perto de 5,2%, enquanto a das obrigações a 30 anos caíram aproximadamente três pontos base, para 5,6%.
Na Europa “teremos sempre Paris”
Na Europa, a sessão deve abrir com cautela. O factor França domina. O spread OAT-Bund alargou-se após a dívida francesa a 10 anos ter disparado 4,68 pontos base para 4,86%, enquanto o Bund alemão caiu 3,98 pb para 3,58%. O novo Governador do Banco de França, Emmanuel Moulin, afastou qualquer ajuda do BCE e colocou a bola em Paris. “Dada a situação atual do mercado, os governos devem se organizar e reduzir seus déficits de maneira confiável”, disse em conferência de imprensa na capital francesa.
A divergência entre o OAT em alta e os restantes mercados soberanos em queda é exatamente o tipo de pormenor que reforça a tese do risco político francês a dominar a agenda da dívida europeia nesta sessão de estreia de outubro.
Moulin avisou que “se não lidarmos com o nosso problema do défice e não trouxermos de volta a ordem às finanças públicas, arriscamos pagar mais e mais numa asfixia gradual”.
O alerta surge na antecâmara da apresentação do orçamento para 2027, onde o primeiro-ministro Sébastien Lecornu tenta aprovar um esforço de 54 mil milhões de euros sem apoio garantido no Parlamento, num contexto em que a dívida pública francesa poderá subir para 121,7% do PIB em 2027.
A dívida italiana cedeu 0,06 pb para 4,61% e os juros das OT portuguesas recuaram 3,24 pb para 4,01%.
O mercado obrigacionista vive dois mundos. Nos EUA, a curva mantém-se invertida e pressionada: 2 anos nos 4,91%, 5 anos nos 5,03%. Na zona euro, a queda do Bund para 3,58% reflecte procura por activo-refúgio, enquanto a subida da OAT para 4,86% mostra prémio de risco político francês. Itália e Portugal beneficiam do efeito refúgio relativo dentro da periferia.
O petróleo sustenta o prémio geopolítico
Num mercado pressionado pelo impasse nas negociações entre os Estados Unidos e o Irão, e pela tensão nos mercados de combustíveis, nomeadamente no diesel, fruto da guerra da Russia-Ucrânia, o Brent avançou 0,9%, para 103,50 dólares por barril, enquanto o West Texas Intermediate (WTI) subiu 1,2%, para 90,42 dólares.
Analistas elevaram as previsões para 2026 para uma média de 89,05 dólares para o Brent e 83,90 dólares para o WTI, contra 85,08 dólares anteriormente, devido ao prolongamento da disrupção no Estreito de Ormuz. O intervalo para Outubro é de 95 a 108 dólares no Brent, com cada manchete sobre o Golfo a valer cerca de 3 dólares.
O último trimestre de 2026 arranca assim com o mercado a precificar três choques em simultâneo: o Tesouro americano em máximos de 19 anos; a crise orçamental francesa sem rede do BCE que testa a coesão da zona euro e a mensagem de disciplina orçamental do BCE, num momento em que a zona euro cresceu 0,6% no segundo trimestre e a Fed ainda debate nova subida; e uma escalada Rússia-NATO que volta a colocar um prémio de guerra nos ativos.
A Rússia avisou a NATO de que está preparada para utilizar todo o seu arsenal, incluindo armas nucleares, caso a aliança ocidental tente isolar o enclave báltico de Kaliningrado, segundo um documento diplomático enviado aos Estados-membros.
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