Embaixador dos EUA acusa plano da UE de rearmamento de ser do interesse dos seus inimigos
A aposta da União Europeia em favorecer a sua própria indústria de armamento corre o risco de “afastar aliados” e fragmentar a base industrial de defesa transatlântica, afirmou o Embaixador dos Estados Unidos junto da União Europeia, Andrew Puzder. A retórica, que dificilmente poderá ser provada com números, já tinha sido usada pelo presidente norte-americano, Donald Trump, quando, na cimeira da NATO em Ancara, em julho passado, aconselhou vivamente os parceiros europeus a aumentarem os gastos em armamentos, mas não se esqueceu de dizer que ficava à espera que os Estados-membros da Europa fossem ‘fazer fila’ às portas das empresas de defesa do seu país.
De então para cá, vários responsáveis norte-americanos têm falado na necessidade de o armamento usado pelos parceiros da NATO obedecer a conformidades – tradicionalmente decididas pelo Pentágono – que, não sendo cumpridas, podem colocar em causa a sua própria operacionalidade. Dito de outra forma: os Estados Unidos olham com desconfiança para o plano ReArm Europe, que prevê a mobilização de financiamento (800 mil milhões de euros) e a coordenação de investimentos em defesa, que tenha também o benefício de auxiliar a reindustrialização do bloco. Nada disso, dizem os norte-americanos: esse dinheiro deve ser aplicado em compras às grandes empresas norte-americanas.
Numa intervenção na cimeira ‘Defesa e Espaço’, organizada pela agência Euronews, Puzder afirmou: “Só os nossos inimigos beneficiam quando deixamos de nos concentrar em garantir que dispomos das armas mais eficazes, apoiando a nossa defesa mútua”. “Bastará um ataque de um adversário poderoso contra um Estado-membro para ficarmos todos satisfeitos por termos privilegiado a superioridade das armas em vez da economia regional”, acrescentou. “A solução deve ser determinada pela capacidade e pela disponibilidade, não pela geografia”, acrescentou.
O ReArm Europe estabelece que, até 2030, os Estados-membros devem realizar pelo menos 40% das suas aquisições de equipamento militar de forma colaborativa intra-União e favorecer consórcios europeus. A Comissão Europeia e os Estados-membros apresentaram propostas para favorecer os fabricantes de armamento europeus, com o objetivo de reduzir a dependência de armas produzidas nos Estados Unidos, numa altura em que surgem sinais de fraturas na aliança transatlântica sob a liderança de Donald Trump. O Pentágono tem combatido vigorosamente esta orientação, recorda a agência. Os norte-americanos criticaram as regras da União Europeia, apelidando o ReArm Europe de “protecionista” e afirmando que Bruxelas iria “isolar-se e cortar o acesso de aliados cruciais não-União”, como a Turquia e os próprios Estados Unidos.
As ameaças de Trump de tomar a Gronelândia à força, bem como o recuo significativo no apoio financeiro e militar à Ucrânia, deram novo impulso aos esforços da UE para priorizar armamento produzido na Europa. De qualquer modo, e face ao desinvestimento que a União realizou ao longo de décadas, o bloco sabe que ainda está muito longe da autossuficiência, o que garante a manutenção dos negócios da indústria norte-americana.
Na passada terça-feira, recorda a Euronews, o principal comandante militar da NATO, Alexus Grynkewich, alertou, perante a comissão de Defesa do Parlamento Europeu, que “inscrever em normas preferências sobre o local de fabrico do material militar” só beneficia os adversários da Europa.
Mas Puzder elogiou a Comissão por permitir a aquisição de material de defesa norte-americano para a Ucrânia no âmbito do recente empréstimo de 90 mil milhões de euros do bloco a Kiev, afirmando que Washington irá defender disposições idênticas nas próximas políticas de defesa. “Continuaremos a ter conversas francas. Por vezes vamos discordar. Em geral, creio que estaremos de acordo”, disse.
Referiu também que o executivo comunitário indicou não ter “qualquer intenção” de impedir os Estados-membros de utilizarem fundos nacionais para comprarem sistemas de armas dos Estados Unidos. “Uma aliança que enfrente os nossos adversários com unidade e força, em vez de divisão e do interesse próprio”, concluiu o embaixador.
Mark Rutte rodeia o problema
Europeu de nascimento (é neerlandês) mas obedecendo por inerência de funções a Washington, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, que também falou na cimeira, tratou de tentar ‘arredondar’ o problema, conseguindo assim não se pronunciar sobre as palavras de Puzder. O debate sobre as preferências europeias é um “luxo”, já que nem a Europa nem os Estados Unidos conseguem atender à crescente procura por produtos de defesa.
O debate, disse, não pode ignorar um problema fundamental: a indústria de defesa europeia não consegue produzir o suficiente. Nesse contexto, “o problema não é: comprar na Europa ou nos Estados Unidos? O problema é: é possível comprar? O dinheiro existe. Mas a base industrial de defesa na Europa está subdesenvolvida. Não está a produzir o suficiente”.
Nos últimos meses, a UE debateu se deveria privilegiar produtos fabricados na Europa em contratos de defesa pública, dividindo profundamente a França, que defende uma preferência estrita, e a Alemanha, que favorece uma abordagem mais aberta em relação aos aliados da NATO.
“Empresas europeias estão a investir nos Estados Unidos. Empresas norte-americanas estão a investir na Europa. É uma base industrial de defesa transatlântica que funciona como uma só, e é exatamente assim que deve ser”, continuou Rutte – que desta forma parece ter uma ideia sobre independência da União que não coincide com a definição proposta pelo ReArm Europe.
Rutte citou o caso da necessidade urgente de a Ucrânia adquirir intercetores de mísseis antibalísticos, que nem o sistema franco-italiano SAMP/T nem o sistema norte-americano Patriot podem ser produzidos em quantidade suficiente para suprir a procura. “Há dinheiro suficiente para todos. E haverá um dividendo de defesa resultante disso, porque todos esses investimentos também gerarão retornos para a sociedade, não apenas na produção e na base industrial de defesa, mas também em inovação e em tudo o mais”, acrescentou Rutte.
Convém recordar que, em agosto passado, Donald Trump desmentiu categoricamente notícias que apontavam para uma escassez crítica de mísseis Patriot e outras munições nos stocks norte-americanos. O presidente dos Estados Unidos classificou publicamente relatórios de think tanks (como o CSIS, Center for Strategic and International Studies, de Washington) que estimava uma redução de até 65% nos mísseis Patriot devido ao conflito com o Irão) como “falsos” e “traiçoeiros”. Trump garantiu que o seu país dispõe de “quantidades massivas de munições” e que a base industrial de defesa está a produzir ao ritmo mais elevado da história, com o secretário da Defesa, Pete Hegseth, a reforçar a mensagem – agora desmentida por Rutte.
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