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O drone seguinte

O drone seguinte

Nesta guerra, o que envelhece depressa não é o material, é a geração. Um sistema comprado hoje vale até o adversário mudar de motor. A pergunta certa não é quantos temos, é quanto tempo levamos a ter o seguinte.
A 28 de Setembro, Zelensky admitiu que a defesa ucraniana abate setenta por cento dos drones russos, mas apenas 57 por cento dos que já voam a jacto, contra mais de noventa por cento dos antigos de hélice. A diferença é de motor: os de hélice voam a cerca de 180 quilómetros por hora, os novos vão dos 300 aos 600. A defesa que funcionava em Março deixou de funcionar em Setembro.
A resposta ucraniana não foi comprar mais do mesmo. Foi um interceptor de cerca de dois mil dólares, produzido aos milhares por mês, e logo a seguir uma segunda geração mais rápida e autónoma. É aqui que se vê a economia desta guerra: ganha quem troca de geração mais depressa e sabe multiplicar a produção quando a nova prova que funciona.
Por isso os números que o comissário europeu da Defesa pôs na mesa a 11 de Setembro, um milhão e meio de drones por ano na Europa contra dez milhões do lado russo, medem uma dimensão do problema, não o problema todo. Lidos como se fossem tudo, encomendam-se milhões de unidades de uma geração que estará velha quando sair da linha. Portugal não está em regime de desgaste, e não precisa de uma fábrica de milhões. Precisa de outra coisa.
Precisa de um ecossistema. Materiais e compósitos, onde o que conta não é só o peso, mas a assinatura e a detecção, e onde o grafeno começa a entrar. Fabrico aditivo, para peças e substituições junto de quem opera, já presente no REPMUS em Tróia. Inteligência artificial no comando e controlo, e esta tem de ser proprietária, porque quem compra o cérebro do sistema aluga a sua autonomia. Guiamento e comunicações que resistam a empastelamento. Sensores e radares. E a engenharia de integração, que junta tudo isto num sistema e não numa feira de componentes.
Fica a parte difícil. Dominar a integração, o software e os compósitos convive com uma dependência externa no hardware crítico, os semicondutores, a óptica de precisão, certos motores que nenhum europeu fabrica sozinho. É essa falha comum que obriga a entrar nos projectos europeus onde a escala desses componentes se decide.
Um ecossistema não é um somatório de empresas. É uma mão a fechar-se. Em Portugal os dedos já se tocam, dos fabricantes de drones aos materiais e à protecção balística, dos centros de engenharia ao software de autonomia das universidades. Falta o gesto que os une, e falta um cliente que o exija.
E é aqui que está a mensagem, que é económica e não militar. O Estado deve comprar prontidão, não apenas unidades. Isso significa séries pequenas e regulares que mantenham linhas vivas e engenheiros ocupados, com a obrigação contratual de duplicar ou triplicar a cadência num prazo definido. Só que comprar prontidão choca com a contratação feita para o preço mais baixo, e exige os instrumentos que existem e pouco se usam, a parceria para a inovação e a excepção do artigo 346.º. É mais barato do que um armazém a envelhecer e é a única forma de ter, no dia em que contar, não o drone de 2026, mas o seguinte.
A mesma mão serve o que não é guerra: vigia a costa, inspecciona cabos e parques ao largo e apoia a Polícia Marítima e a GNR, que querem meios actualizáveis, não peças de museu.
O teste é imediato: 5,84 mil milhões do SAFE a executar até 2030 e uma Lei de Programação Militar por rever. Se isso comprar plataformas e não cadência, teremos equipamento novo e continuaremos sem indústria. Fica a pergunta da próxima semana: nos projectos europeus, Portugal escolheu estar em todos aqueles onde tem o que oferecer?

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