“Desta vez, será mais difícil a Lula da Silva ser eleito”
Desta vez, Inácio Lula da Silva, que se recandidata ao lugar que ocupa pela terceira vez, “terá mais dificuldade em ser reeleito, será uma corrida mais difícil que há quatro anos”. Para André Pereira Matos, especialista em assuntos internacionais, docente da Universidade Aberta e investigador do Centro de Investigação em Ciência Política da Universidade do Minho, não tem dúvida que, num país partido ao meio, a vantagem de Lula da Silva nas sondagens (para a segunda volta) é desta vez demasiado curta para assegurar um bom resultado para o presidente.
Em entrevista ao JE, Pereira Matos diz que a ‘culpa’ deve-se em parte ao afunilamento da própria campanha, que se concentrou em três temas centrais, deixando de lado questões que têm mais a ver com o dia-a-dia dos brasileiros.
O tema da soberania – com o ‘stuff’ de Lula a tentar ‘colar’ o adversário a uma mais que evidente proteção dos Estados Unidos – é dos mais presentes na campanha, mas o atual presidente não parece ter grandes ganhos a registar nessa matéria. Até porque saiu ‘colado’ à fação ‘anti-ocidental’ liderada pela China, com a Rússia incluída – como se estivesse do lado errado da história.
A corrupção, tema que não pode faltar numas presidenciais brasileiras, também não lhe surtiu nenhum benefício. “Há uma perceção de que muitos dos que rodeiam Lula da Silva são corruptos”, refere o investigador, e o presidente pouco pode fazer para ‘desmontar’ essa perceção. Mais ainda, salienta Pereira Matos, dá-se um caso a todos os títulos difícil de explicar: Flávio Bolsonaro está a ser oficialmente investigado no âmbito do escândalo do Banco Master, no âmbito do qual o Supremo Tribunal Federal autorizou uma investigação conduzida pela Polícia Federal a suspeitas dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Aparentemente, os brasileiros passaram ao lado do tema e insistem que é Lula quem é o corrupto. A extrema-direita internacional – Chega de André Ventura incluído – faz a sua parte, aliás preciosa. “É uma dinâmica muito curiosa”, sempre contra Lula da Silva, que explica o que é o Brasil profundo.
Nossa Senhora da Reaparecida
O terceiro eixo é a religião, outro dos temas que não escapa às campanhas eleitorais brasileiras. Neste contexto, o enorme potencial de ódio destilado pelas igrejas evangélicas – insidiosamente preponderantes no país – está todo concentrado em Lula da Silva. Que tentou defender-se com o episódio de Nossa Senhora da Aparecida: a campanha de Lula tentou provar que Flávio Bolsonaro queria expulsá-la da categoria de padroeira oficial do Brasil ou até mesmo da categoria de santa, o que terá sido completamente falso. Nossa Senhora da Aparecida não foi suficiente para fazer reaparecer a esperança nas hostes de Lula da Silva.
Outra mulher, esta de nome Michelle e de apelido Bolsonaro, parece ter sido o principal problema de Flávio, enteado daquela. A mulher de Jair, o anterior presidente do Brasil, era apontada como a sua sucessora natural e uma possível candidatura da sua parte chegou a ter maior adesão que a do enteado – que acabou por suplantar a madrasta, mas que sofreu um revés reputacional assinalável com o episódio.
Onde está a economia real?
Para André Pereira Matos, o facto de a economia real ter pouca atração enquanto elemento marcante da campanha é outra das curiosidades – o termo ‘bizarrias’ também se adequava – associadas ao Brasil. “Apesar de tudo”, apesar de Lula da Silva já não ser a revoada de frescura que imprimiu quando ganhou a presidência pela primeira vez (em 2002), “a prestação do presidente nos últimos quatro anos não parece tão mal quanto isso, até porque a taxa de desemprego está historicamente baixa, a inflação está mais ou menos controlado, os níveis de pobreza e de pobreza extrema são positivos, o salário mínimo tem acompanhado a inflação. E tudo isso costuma contar muito para os brasileiros”.
O investigador chama, de qualquer modo, a atenção para a primeira volta – que terá lugar este domingo – ter ainda alguma importância. “Os candidatos Ronaldo Caiado (do Partido Social Democrata) e Augusto Cury (do partido Avante) ‘valem’ qualquer coisa entre os 12% e os 15%. Ainda não se pronunciaram sobre quem vão apoiar na segunda volta, mas o seu peso pode fazer a diferença”.
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