Segunda de feriado com mercados abertos: Wall Street em rally técnico, Europa refém de França
A Bolsa de Portugal pára esta segunda-feira, 5 de outubro, por causa do feriado da Implantação da República, mas as bolsas lá fora funcionam em horário normal e chegam a esta abertura num equilíbrio frágil, dividido entre o alívio trazido por um mercado de trabalho americano mais fraco e o peso de um sell-off histórico nas obrigações que empurrou os juros para máximos de 24 anos.
Wall Street fechou a última sessão, sexta-feira dia 2, em alta depois de dados de emprego de setembro abaixo do esperado terem reduzido as apostas numa nova subida de juros da Reserva Federal já em outubro. O S&P 500 fechou nos 7.722,72 pontos com um ganho de 0,73%, o Nasdaq Composite avançou 1,19% para os 27.190,86 pontos, perto de um novo recorde, e o Dow Jones somou 0,49% para os 51.176,96 pontos.
Apesar do fecho positivo, a semana foi de divergência, com o Nasdaq a fechar com um ganho de 0,5% enquanto o S&P perdeu 0,3% e o Dow recuou 1,3%.
O tom para a abertura de segunda é de indefinição. Leituras preliminares apontam para uma abertura mista, com o Dow futuro ligeiramente em terreno positivo e o Nasdaq sob pressão, num contexto em que alguns cenários de risco descrevem futuros do S&P a cair 0,52% e do Nasdaq 100 a cair 0,92% com o VIX a disparar 9,82% para os 16,33 pontos, pressionado por três choques em simultâneo: taxas americanas nos 5,22%, crude WTI nos 96,33 dólares e receios ligados ao investimento em inteligência artificial. Tudo vai depender do ISM de Serviços dos Estados Unidos, marcado para as 15 horas de Lisboa, que vai definir o tom da sessão. Um número fraco ajuda as ações ao aliviar a pressão sobre as yields, um número forte reforça a venda de obrigações e penaliza sobretudo a tecnologia.
Entretanto as ações de empresas do Brasil disparam em Nova Iorque este domingo, no pré-market, após o resultado das eleições gerais que mostra a vitória à primeira volta do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
Na Europa o arranque também se adivinha morno. As indicações matinais que têm circulado para aberturas à segunda-feira neste período apontam para um CAC 40 a ceder cerca de 0,12%, um DAX a subir 0,27% e um FTSE 100 praticamente estável com menos 0,02%, enquanto o EuroStoxx 50 avançaria 0,08% e o Stoxx 600 subiria 0,05%. É um retrato de um mercado que não quer arriscar antes dos dados americanos.
O DAX alemão, mais sensível à subida das yields, vem de uma queda de 2,26% nos últimos cinco dias e continua vulnerável. O CAC 40 parisiense é o elo mais fraco neste momento. O FTSE MIB italiano e o IBEX espanhol, apesar de beneficiarem de um petróleo caro, sofrem com o alargamento dos spreads soberanos, enquanto o FTSE 100 londrino, mais defensivo pela exposição a energia e matérias-primas, pode aguentar-se melhor se o Brent se mantiver acima dos 100 dólares.
O petróleo é um dos protagonistas do fim de semana. Este domingo, dia 4,os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e os seus aliados (OPEP+) reuniram-se, após G7 anunciar libertação de reservas, e decidiram, pelo segundo mês consecutivo, manter inalterada a oferta de crude para novembro.
A reunião online contou com a participação de sete membros principais da OPEP+: Arábia Saudita, Rússia, Iraque, Kuwait, Argélia, Cazaquistão e Omã. O encontro ocorre num momento em que os produtores do Golfo recuperam o volume de vendas externas após meses de interrupções associadas ao conflito regional. Apesar disso, a maioria mantém a produção abaixo das metas estipuladas devido aos impactos contínuos da guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão, que fez os fluxos oscilarem entre 60% e 80% dos níveis normais nos últimos meses.
Na sexta-feira o Brent fechava nos 102,72 dólares, referência usada no calendário da semana, e o WTI rondava os 96,33 dólares no cenário de maior aversão ao risco. Para outubro, a expectativa dominante é de um WTI a negociar entre 82,50 e 97,50 dólares por barril devido ao aumento da volatilidade e aos riscos geopolíticos persistentes, com a Agência Internacional de Energia a alertar que o défice de oferta global vai aprofundar-se este ano pela falta de progresso para acabar com a guerra no Irão, o que atrasa o regresso de fluxos normais do Médio Oriente para 2027.
A guerra da Ucrânia hoje pesa no gasóleo mais do que no Brent e é por isso que o gasóleo está a subir mais que o crude. Desde o início da escalada no Golfo a 28 de Fevereiro, o gasóleo na Europa subiu 98%, contra apenas 36% do Brent. O gasoil no ICE [gasoil é o nome do contrato que negoceia em Londres no ICE] saltou de 753 para 1.490 dólares por tonelada e a margem de refinação de destilados alargou de 28 para 101 dólares por barril. O crude sozinho já não explica o preço na bomba.
Os drones de longo alcance da Ucrânia têm atingido sistematicamente refinarias e o governo russo acabou por cortar exportações de gasóleo. A Rússia e o Golfo juntos representavam quase 45% das exportações globais de gasóleo e diesel por via marítima em Fevereiro. Quando essa torneira fecha, a Europa, que já perdeu a capacidade russa desde 2022, fica sem almofada. A análise da Reuters fala em operações e exportações russas substancialmente reduzidas por estes ataques.
O grande tema está, no entanto, nas obrigações. O sell-off global levou as yields americanas de 10 anos a 5,342%, um máximo de 24 anos, e as de 30 anos a 5,683%, níveis que depois estabilizaram ligeiramente na sexta-feira nos 5,239% depois de um pico de 5,344% na quinta-feira. Na Europa o movimento foi idêntico. A yield das Bunds alemãs a 10 anos subiu para 3,633%, perto do nível mais alto desde meados de 2009, antes de recuar para baixo dos 3,5% numa procura por segurança. Em França a tensão é mais aguda. A yield da OAT francesa a 10 anos desceu marginalmente para 4,908% na busca por refúgio mas tinha tocado os 4,96% na quinta-feira, o nível mais alto desde julho de 2002, com o spread face ao Bund alemão a quebrar acima dos 100 pontos base pela primeira vez em 14 anos.
A fotografia completa da semana passada mostrava Itália nos 4,45%, Portugal nos 3,93% e Espanha nos 4,03%, com a comparação internacional a colocar os Estados Unidos nos 5,252%, França 47,6 pontos base abaixo, Alemanha 160,2 pontos base abaixo e Itália 65,1 pontos base abaixo.
A origem do nervosismo francês é orçamental. O primeiro-ministro Lecornu apresentou um orçamento de 54 mil milhões de euros de poupanças e aumentos de impostos para 2027 visando um défice de 5%, mas o défice deste ano já é esperado em 5,4% do PIB face à meta de 5%, com a dívida a atingir um recorde do pós-Segunda Guerra Mundial de 119% do PIB e uma necessidade de emissão recorde de 340 mil milhões de euros no próximo ano para financiar o buraco e refinanciar dívida emitida a taxas muito baixas.
O mercado duplica o prémio de risco desde as legislativas antecipadas de 2024 que deixaram um parlamento fragmentado e tornam muito mais difícil cortar o défice.
O calendário macro desta semana ajuda a explicar a cautela. Não há CPI, PCE ou reunião da Fed, mas há peças que alimentam a decisão de 28 e 29 de outubro. Nesta segunda-feira sai o ISM de Serviços nos Estados Unidos, na terça as vendas a retalho na zona euro e a balança comercial americana, na quarta as atas da reunião de setembro da Fed às 18 horas GMT, na quinta a conta da reunião de setembro do BCE e os pedidos semanais de subsídio de desemprego, e na sexta o CPI da China e o índice de confiança da Universidade de Michigan.
O evento que realmente importa só chega na semana seguinte, a 14 de outubro, com o CPI de setembro nos Estados Unidos, a última leitura de inflação relevante antes do voto do FOMC.
Esta semana é, por isso, vista como uma volta de aquecimento, onde ISM, JOLTS e jobless claims servem de contexto à volta desse número, numa altura em que a China está em feriado do Dia Nacional até 7 de outubro e o conflito no Médio Oriente mantém a sua longevidade inesperada, com destacamentos estendidos até 2027, a sustentar a incerteza e a volatilidade no mercado petrolífero.
Para quem acompanha de Lisboa, num dia de PSI com pouco volume por causa do feriado, a sessão lá fora será de gestão defensiva. Se o ISM vier forte, o mercado volta a vender obrigações e tecnologia. Se vier fraco, abre-se uma janela de alívio para as yields e para o Nasdaq, mas sem apagar o risco central que continua a ser Paris, onde o contágio para Portugal e Itália se faz sentir a cada alargamento do spread face à Alemanha.
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