Já sabemos o que é construir de forma sustentável, falta começar a fazê-lo
Há uma mudança importante na forma como falamos de construção sustentável e essa discussão está hoje mais madura. Os resultados do Barómetro da Construção Sustentável 2026 mostram isso mesmo. Em Portugal, 73% das partes interessadas dizem compreender claramente o conceito de construção sustentável e 73% consideram-no uma prioridade. Entre os cidadãos, 60% atribuem também prioridade ao tema.
Com tudo isto, o desafio é claro: como transformar essa consciência em decisões concretas, em projetos e, sobretudo, em edifícios melhores?
Esta é provavelmente uma das perguntas mais importantes que o setor tem de responder. Porque dizer que a construção sustentável é uma prioridade é relativamente fácil. Mais difícil é escolher uma solução com menor impacto, investir na renovação energética de um edifício, avaliar o seu desempenho ao longo do tempo ou integrar critérios de resiliência num projeto quando isso pode representar um investimento inicial superior.
Claro que a questão do custo não pode ser ignorada, e isso é refletido no mesmo Barómetro: 41% das partes interessadas em Portugal consideram que a construção sustentável gera mais valor do que a construção tradicional, mas 26% entendem que gera menos valor e 20% consideram que o valor é equivalente.
Se olharmos apenas para o investimento inicial, algumas soluções podem parecer mais caras, mas um edifício não existe apenas no momento em que é construído. Tem décadas de utilização pela frente, consome energia, precisa de manutenção, tem de proporcionar conforto aos seus ocupantes, enfrenta temperaturas extremas e outros fenómenos associados às alterações climáticas e, no final, terá de ser adaptado, renovado ou substituído. Assim, o custo tem de ter em conta a eficiência energética, conforto térmico e acústico, durabilidade, qualidade do ar interior e resiliência e a poupança que determina o valor do edifício para quem o utiliza e para quem o detém.
A construção tem também de responder a outra realidade: não podemos continuar a olhar para cada edifício como se fosse um projeto isolado. Temos um parque edificado que precisa de ser renovado e temos recursos limitados, o que obriga a fazer mais com menos, a escolher materiais e soluções com maior eficiência e a pensar na utilização dos recursos muito para além do momento da obra.
Por isso, quando falamos do próximo nível da construção, estamos a falar de três coisas que têm de avançar em conjunto: usar melhor os recursos, melhorar a qualidade de vida dos seus utilizadores e reduzir a pegada ambiental dos edifícios. É importante sublinhar que nenhuma delas, isoladamente, resolve o problema.
O setor tem hoje conhecimento, tecnologia e soluções para fazer diferente, com o Barómetro a apontar alguns dos caminhos: 36% das partes interessadas apontam para a necessidade de melhorar a competitividade dos materiais, produtos e soluções sustentáveis, enquanto 31% defendem uma maior sensibilização do público e 25% referem a importância de uma regulamentação que favoreça a renovação energética.
Assim, fabricantes, arquitetos, engenheiros, construtores, promotores, investidores, decisores políticos, proprietários e utilizadores têm responsabilidades diferentes, mas fazem parte da mesma equação. Os dados mostram que Portugal já deu passos importantes e o próximo não passa por falar mais sobre sustentabilidade, mas sim por construir melhor.
Share this content:


Publicar comentário