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“Se eu estivesse em Portugal já teria sido despedido”

“Se eu estivesse em Portugal já teria sido despedido”

“É raríssimo o projeto que tem um caminho claramente definido. Escolhe-se um treinador com características ofensivas e, depois, outro com perfil defensivo. Hoje vem um treinador que tem muita experiência e amanhã um com menos. Trazem um com uma forma de jogar apoiada e, mais tarde, outro que só joga direto. Tudo isto na mesma época e depois queremos milagres”, advertiu o técnico, de 56 anos, em entrevista à agência Lusa.
 
Ao fim de sete jornadas, três clubes primodivisionários já trocaram de treinador em 2026/27, sendo que Nacional e Rio Ave fizeram-no devido aos maus resultados, enquanto o Arouca teve de colmatar a saída de Vasco Seabra rumo aos vila-condenses, situados no 16.º e antepenúltimo lugar.
“Quem acredita vai ter resultados mais tarde ou mais cedo. As pessoas têm muita dificuldade em entender que só ganha um e não vencem sempre os mesmos. Como não têm conhecimento para avaliar se o trabalho está a ser bem ou mal feito, tomam decisões em função disso. Há falta de capacidade ou de cultura para definir estratégias e acreditar nelas de forma clara. Depois, quem paga são os treinadores”, notou o ex-técnico das camadas jovens do Benfica, que nunca passou pela I Liga e saiu do país em 2020.
Renato Paiva lembra os casos em que há clubes a dispensar treinadores que nem sequer completaram cinco jogos, tal como aconteceu com João Gião, demitido do Nacional à quarta ronda e rendido por Alexandre Santos.
“Todos temos culpa. Agora, curiosamente, aquelas equipas que têm três ou quatro treinadores durante uma temporada acabam por descer de divisão. Por alguma razão é. Se tens tantos treinadores que não funcionaram, a culpa é deles ou de quem os escolhe? Eu não vejo demissões de diretores desportivos nem de presidentes, mas de treinadores, porque é muito mais fácil pôr a culpa sempre nos mesmos”, disse, convicto de que, se os clubes soubessem porque é que contratam, estariam mais perto de não despedir.
Ressalvando haver “bons exemplos” de projetos na I Liga, Renato Paiva faz uma comparação com o México, onde está a trabalhar pela terceira vez e lidera o Santos Laguna, 16.º e antepenúltimo do torneio de abertura da Liga MX.
“Se eu estivesse em Portugal já teria sido despedido. Não teríamos este crescimento [na classificação] com três vitórias seguidas, porque já tinha certamente sido despedido em função dos resultados anteriores”, traçou.
O treinador resume a luta pelo título a FC Porto, campeão e líder isolado, Benfica e Sporting, com o Sporting de Braga à espreita, num reflexo do “absolutismo do futebol português”, embora sinta “alguma vantagem” para ‘dragões’ e ‘leões’, que mantiveram os respetivos técnicos de 2025/26.
Estabelecido nas Américas desde que rumou do Benfica B, da II Liga, ao Independiente del Valle, pelo qual se sagrou campeão equatoriano em 2021, Renato Paiva descarta pensar no futuro além do dia seguinte, mas imagina um eventual regresso a Portugal e a estreia no escalão principal.
“Às vezes, construímos coisas que achamos que são boas, aparece um artista qualquer e despede-nos do nada. Tive coisas ótimas e horríveis. Habituei-me a não gerar expectativas e a olhar muito com os pés na terra para o futuro, que, para mim, é o treino de amanhã. Estou aberto ao que apareça, mas sendo sempre muito cuidadoso nas análises e nos próximos passos a dar. Já cometi um ou outro erro que não devia e sinto que isso danificou a minha carreira, fosse por escolhas minhas ou por acreditar em pessoas”, terminou.

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