Portugal em 2036: Especialistas apostam em mais produtividade, melhor saúde e empresas com maior escala
Onde quer estar Portugal no mundo daqui a 10 anos? A questão exige mais do que previsões económicas. Passa principalmente pelas escolhas sobre o modelo de desenvolvimento, a produtividade das empresas, a qualidade de vida da população e a capacidade do país para transformar investimento em resultados e foi debatida pelos especialistas no painel ‘O Mundo em 2036: Onde vai estar Portugal’, inserido na conferência dos 10 anos do Jornal Económico que se realiza esta quarta-feira, 7 de outubro, na Alfândega do Porto.
Ana Madsen, professora da Universidade Católica Portuguesa, manifestou o seu desejo de olhar para a economia portuguesa a crescer significativamente acima das principais economias europeias.
“Não é o que vai acontecer, mas queria muito uma economia que crescesse a uma taxa de crescimento o dobro da dos outros, dos grandes da União Europeia. E, se nós crescêssemos o dobro dos outros, daqui a 40 ou 50 anos chegávamos lá”, afirmou.
Uma das palavras-chave para a economista é ‘retorno’, considerando que Portugal tem de avaliar de forma mais rigorosa os resultados dos investimentos públicos e privados. “Gosto muito da palavra retorno. É uma palavra a que, em Portugal, os nossos políticos e a nossa economia são alérgicos”, salientou, recordando a ideia atribuída ao Nobel da Economia de 2024, James A. Robinson, segundo a qual Portugal é “um país burro e pobre porque quer”, precisamente por investir sem avaliar posteriormente os resultados desses investimentos. “Lançamos o dinheiro nas coisas e depois não vamos ver os resultados”, realçou.
Como exemplo, apontou a Dinamarca, que financiou o aeroporto de Copenhaga e tem um segundo aeroporto em Billund, cidade onde está sediada a Lego. Neste último caso, explicou, o investimento foi suportado pela própria empresa. “Mas não existe nenhuma autoestrada a ligar os aeroportos, porque eles perceberam que isso não lhes dava retorno”, sublinhou.
Empresas maiores, mais produtivas e tecnológicas
A mudança de modelo produtivo surge também como uma resposta ao problema identificado por Rafael Alves Rocha, diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), assumindo a dificuldade em prever como estarão as empresas portuguesas dentro de 10 anos.
“É difícil adivinhar o tipo de empresas que queremos ter em 2036. Se não é o pior exercício de todos, será um dos mais complicados”, afirmou, relembrando que a última década mostrou, como é difícil antecipar o contexto económico. “Nos últimos dez anos tivemos a pandemia, temos as tarifas norte-americanas, temos a guerra na Ucrânia, a crise energética e a situação no Estreito de Ormuz”, reiterou.
Apesar da incerteza, os números atuais mostram a dimensão do desafio. O rendimento médio bruto em Portugal ronda os 1.700 euros, contra cerca de 3.300 euros na União Europeia. Já a produtividade portuguesa corresponde a pouco mais de 68% da média europeia.
“Temos uma produtividade por hora de 29 euros em Portugal, enquanto na União Europeia é de 44 euros. Mas temos setores em Portugal que têm uma produtividade por hora de 60 euros, outros de 50 euros e outros de 17,5 euros. É este o cenário onde hoje nos movemos”, explicou.
O tecido empresarial português é também marcado pela reduzida dimensão das empresas. Portugal tem cerca de meio milhão de empresas, 99% das quais são PME, e apenas cerca de mil grandes empresas.
Para Rafael Alves Rocha, existem cinco fatores fundamentais para criar empresas “mais sofisticadas, produtivas e que participem nas cadeias de valor”. O primeiro é a escala. “Em Portugal não temos escala, até porque a nossa noção de PME em Portugal é distinta daquilo que é a noção de PME noutros países da União Europeia”, afirmou.
O segundo é o talento, salientando que Portugal consegue formar profissionais altamente qualificados, mas tem dificuldades em mantê-los no país. “Temos de saber reter talento. É uma daquelas premissas que se repetem todos os dias, que estão nas capas dos jornais e nas conversas de café. Em Portugal temos talento, formamos ao nível do melhor que se faz pelo mundo fora, mas não o retemos”, referiu.
O terceiro fator é o investimento, dando conta de que o stock de capital por trabalhador em Portugal é “muito fraco”. “Temos de aumentar o investimento no fator capital por trabalhador para termos capacidade de competir com os nossos congéneres europeus”, salientou.
Por fim, surgem a inovação e a tecnologia, áreas em que, segundo o responsável da CIP, tanto Portugal como a Europa têm de acelerar. “A Europa, neste fator, está muito atrasada em relação aos Estados Unidos e à China. Portugal, por consequência, também está muito atrasado e tem de apostar mais em inovação e tecnologia”, defendeu.
Crescer não chega: é preciso viver melhor
A discussão sobre o futuro de Portugal não se resume, contudo, ao crescimento económico. Para Fernando Araújo, médico e ex-secretário de Estado Adjunto e da Saúde, uma das principais métricas para avaliar o progresso de uma sociedade deve ser o número de anos que os cidadãos conseguem viver com qualidade.
“Cada vez mais, as sociedades não querem que vivamos mais tempo, mas querem que vivamos melhor”, afirmou, sublinhando que Portugal apresenta uma esperança média de vida de cerca de 82 anos, acima da média da União Europeia e da OCDE. O problema está na qualidade dos anos vividos após os 65.
“Acima dos 65 anos, vivemos em média oito ou nove anos com qualidade na saúde. Ou seja, mais de metade será resignada a termos doenças crónicas, que limitam a nossa capacidade e, por vezes, colocam um fardo em cima das próprias sociedades”, explicou.
Fernando Araújo chamou ainda a atenção para as desigualdades no acesso à saúde. Uma das dimensões é geográfica. “Há locais do país onde nascer significa ter menos acesso à saúde”, alertou, realçando que a outra dimensão está relacionada com a condição económica das famílias. “Quando se nasce com pais mais ricos ou menos ricos, isso tem impacto nestas desigualdades”, afirmou.
Um país com mais retorno e maior valor acrescentado
As diferentes perspetivas dos especialistas convergem num ponto: Portugal terá de fazer escolhas se quiser aproximar-se dos países europeus mais ricos na próxima década. Para Ana Madsen, isso passa por avaliar o retorno dos investimentos e mudar o modelo produtivo, reduzindo a dependência de atividades de menor valor acrescentado.
Por sua vez, Rafael Alves Rocha, dá prioridade para que sejam criadas empresas com maior escala, mais capital, talento, inovação e tecnologia, capazes de competir nas cadeias de valor internacionais.
Já Fernando Araújo, defende que o progresso terá de ser medido para lá do crescimento do Produto Interno Bruto. “Uma sociedade desenvolvida é também aquela que consegue garantir mais anos de vida saudável e reduzir as desigualdades no acesso à saúde”, referiu.
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