Cabo Verde quer portos na estratégia económica do país
Vivemos um período de “profunda transformação da economia mundial”, marcado pelas tensões geopolíticas, pelas alterações climáticas, pela redefinição das rotas comerciais, pela volatilidade dos mercados energéticos e pela reconfiguração das cadeias globais de valor. A estes fatores junta-se o regresso de medidas protecionistas, que está a alterar os fundamentos sobre os quais se organizou durante décadas o comércio internacional.
É neste contexto que João do Carmo Brito Soares, ministro dos Transportes e do Mar de Cabo Verde, coloca os portos no centro da estratégia económica do país na Conferência Internacional sobre Desempenho, Inovação e Sustentabilidade dos Portos, realizada hoje, 19 de outubro, em Lisboa pela Logistel e Católica Porto Business School. Para o governante, a globalização está a evoluir para modelos mais complexos, nos quais a resiliência, a segurança do abastecimento e a capacidade de adaptação ganham uma importância crescente.
Durante décadas, explica, a competitividade foi sobretudo determinada pela concentração da produção em localizações capazes de oferecer maiores ganhos de escala e menores custos. Hoje, esse paradigma está a mudar.
“A eficiência é complementada pela resiliência, segurança das cadeias de abastecimento e pela proximidade aos mercados estratégicos”, afirmou numa conferência dedicada ao futuro do setor portuário.
A transformação tecnológica é outra das mudanças que está a alterar profundamente a atividade. A inteligência artificial, a análise avançada de dados e as tecnologias digitais estão a modificar a forma como as cadeias logísticas são planeadas, geridas e operacionalizadas.
Para os portos, esta evolução abre possibilidades para aumentar a eficiência das operações, melhorar a tomada de decisão, reforçar a segurança, otimizar a utilização das infraestruturas e melhorar o desempenho, ao mesmo tempo que permite reduzir o impacto ambiental da atividade.
“Os portos do futuro serão centros avançados de logística, tecnologia e criação de valor”, defendeu o ministro.
Serão, acrescentou, infraestruturas inteligentes e digitalmente interligadas, capazes de antecipar necessidades operacionais, otimizar recursos, aumentar a produtividade e responder rapidamente às exigências de um mercado internacional “cada vez mais dinâmico, complexo e desafiante”.
O mar como condição económica
Para Cabo Verde, esta transformação assume uma importância particular. A condição geográfica do arquipélago faz do mar um elemento essencial do desenvolvimento económico, da conectividade e da integração internacional.
O país dispõe de uma zona económica exclusiva de dimensão muito superior ao seu território terrestre, o que lhe confere, segundo o ministro, um património marítimo de elevado valor estratégico, capaz de contribuir para o crescimento, atrair investimento e criar riqueza de forma sustentável.
“Os portos são, nesta realidade, elementos essenciais da nossa soberania económica, da conectividade entre ilhas, da ligação ao exterior e da integração do país nas cadeias regionais e internacionais”, afirmou.
Por isso, a política portuária não deve ser encarada isoladamente. Deve estar integrada numa política mais ampla de transportes, logística, mar e economia.
A visão defendida pelo Governo cabo-verdiano passa por aproximar os portos do conjunto da economia marítima, articulando-os com o transporte marítimo, a logística, a indústria, o comércio, o turismo, as pescas, a aquacultura, a reparação naval e os serviços marítimos, bem como com os novos sectores da economia ligados ao oceano.
“Só desta forma os investimentos em infraestruturas se traduzem em maior atividade económica, criação de valor e desenvolvimento sustentável”, sustentou.
Um porto mede-se pelo impacto que gera
Na visão de João do Carmo Brites Soares, não basta construir ou modernizar infraestruturas. O desempenho de um porto deve ser avaliado pela sua capacidade para responder às necessidades da economia.
“Um porto mundial avalia-se pela eficiência com que responde às necessidades da economia”, afirmou.
Essa eficiência mede-se pela rapidez das operações, pela produtividade dos ativos, pela fiabilidade dos serviços, pela fluidez das cadeias logísticas e pela redução dos custos de transporte. Mas também pela capacidade de ligar mercados, empresas e territórios.
E, acima de tudo, pelo impacto económico que consegue gerar.
Esta perspetiva torna-se particularmente importante num momento em que os portos enfrentam riscos que vão muito além da sua operação quotidiana. Para Cabo Verde, as alterações climáticas constituem uma preocupação acrescida, dada a exposição do arquipélago e a limitação dos meios disponíveis para responder a determinados constrangimentos.
“Estamos expostos aos efeitos das alterações climáticas e nem temos meios próprios para respostas aos constrangimentos”, reconheceu o ministro.
A transição energética assume, por isso, uma importância crescente. Os portos que conseguirem reduzir emissões, utilizar os recursos de forma mais eficiente e adaptar-se aos desafios climáticos estarão, na sua perspectiva, melhor posicionados para captar investimento, gerar confiança e responder às exigências do mercado internacional.
A definição dos investimentos deve, por isso, assentar em três dimensões fundamentais: “Eficiência, criação de valor económico e sustentabilidade a longo prazo.”
Resiliência passa a ser palavra-chave
A eficiência, contudo, já não pode ser pensada sem segurança e capacidade de resposta a situações de crise.
Uma cadeia logística pode funcionar de forma extremamente eficiente em condições normais e, ainda assim, revelar-se vulnerável perante uma crise geopolítica, uma interrupção de uma rota, uma perturbação energética ou um fenómeno climático extremo.
“Uma cadeia logística extremamente eficiente, mas incapaz de responder a uma crise geopolítica, a uma interrupção de rota, a uma perturbação energética ou a um evento climático extremo, é uma cadeia frágil e vulnerável”, alertou.
Para reduzir essa vulnerabilidade, Cabo Verde considera necessário reforçar a capacidade de antecipação, criar planos de contingência, diversificar ligações e rotas e assegurar sistemas de informação robustos. Será igualmente necessária uma maior coordenação entre os diferentes sectores da economia e os vários intervenientes na cadeia logística.
A tecnologia pode desempenhar aqui um papel decisivo, mas não será suficiente por si só. A transformação dos portos terá de envolver também pessoas, competências, regulação e modelos de gestão.
“O futuro dos portos será construído através da combinação de infraestrutura, tecnologia, pessoas, regulação e gestão”, afirmou João do Carmo Brites Soares.
Portugal e Cabo Verde com o Atlântico pelo meio
É também neste quadro que o ministro enquadra a relação entre Portugal e Cabo Verde. O Atlântico continua a ser, na sua perspectiva, o principal eixo de uma relação estratégica construída ao longo de séculos e reforçada por fortes laços económicos, institucionais e humanos.
Desde a independência de Cabo Verde, recordou, empresas portuguesas têm marcado presença nos sectores da logística e dos transportes, acompanhando o desenvolvimento da economia cabo-verdiana.
O futuro dessa relação poderá passar precisamente pelas áreas em que os dois países enfrentam desafios comuns: inovação, transformação digital, sustentabilidade, qualificação dos recursos humanos e criação de valor nas economias marítimas.
Uma conferência internacional como a que juntou representantes de Portugal, Cabo Verde, Espanha e outras entidades ligadas ao sector pode, segundo o ministro, servir para trocar experiências, comparar modelos, conhecer melhores práticas e encontrar soluções concretas.
Mas a ambição cabo-verdiana vai além da modernização dos portos enquanto infraestruturas.
O objetivo é construir uma política pública que articule transportes, portos e economia marítima e que coloque a competitividade no centro da transformação do sector. Para isso, o ministro defende também uma maior articulação e regulação das políticas públicas.
A lógica é simples: numa economia insular, a qualidade das ligações marítimas condiciona diretamente a capacidade de ligação ao exterior, o acesso aos mercados e as oportunidades de investimento.
No final, João do Carmo Brites Soares deixou uma espécie de roteiro para essa transformação: “Chegou o momento de passar das intenções à ação, dos diagnósticos à execução e das estratégias aos resultados concretos.”
E resumiu o papel que atribui aos portos no futuro de Cabo Verde: “Mais do que infraestruturas, os portos são plataformas de competitividade, inovação e crescimento sustentável”, onde se cruzam os grandes desafios económicos, sociais, ambientais e tecnológicos do presente.
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