Moçambique quer transformar portos em motores de desenvolvimento e reduzir custos logísticos
Moçambique quer transformar os seus portos em motores de desenvolvimento económico, ultrapassando o papel tradicional de plataformas de trânsito de mercadorias. A estratégia passa por integrar portos, ferrovias, estradas e fronteiras, reduzir os custos logísticos e reforçar as ligações comerciais entre os países africanos e os mercados internacionais.
Numa intervenção dedicada à inovação e à sustentabilidade das infraestruturas portuárias, João Jorge Matlombe, Ministro dos Transportes e Logística de Moçambique destacou na Conferência CIDIS 2026, realizada hoje, 19 de Outubro, em Lisboa pela Logistel e Católica Porto Business School of Business and Economics, a posição geográfica do país, situado na costa do oceano Índico, como uma vantagem estratégica para servir não só a economia nacional, mas também vários países do interior de África.
Moçambique dispõe de uma extensa costa e de infraestruturas portuárias que permitem assegurar o acesso aos mercados internacionais de países sem saída direta para o mar. Esta posição representa uma oportunidade económica, mas exige uma mudança na forma como os portos são planeados e geridos.
Durante vários anos, explicou, estas infraestruturas foram concebidas sobretudo para assegurar o trânsito de mercadorias. O desafio consiste agora em alargar a sua função, fazendo com que contribuam para o desenvolvimento das economias locais, a industrialização, a agricultura e o turismo.
A eficiência de um porto não depende apenas das suas instalações. Exige também boas ligações ferroviárias e rodoviárias, capacidade de escoamento das mercadorias e coordenação entre os diferentes operadores envolvidos na cadeia logística.
A modernização das infraestruturas portuárias perde parte do seu valor se as mercadorias não conseguirem chegar ao destino de forma rápida e económica. Por isso, a estratégia defendida por Moçambique passa por desenvolver corredores que funcionem como sistemas integrados de transporte e desenvolvimento.
Portos mais ligados às cidades e às comunidades
A nova abordagem pretende também garantir que os benefícios da atividade portuária chegam às comunidades locais. O desenvolvimento não deve limitar-se às empresas e aos operadores que utilizam diretamente os portos, devendo contribuir para criar oportunidades económicas nas regiões envolventes.
A integração urbana é outra das prioridades. Os portos instalados em cidades podem gerar congestionamento, aumentar as emissões poluentes e afetar a qualidade de vida das populações. Para evitar estes problemas, o planeamento deve procurar reduzir os impactos negativos da atividade portuária e, simultaneamente, gerar benefícios para as cidades.
A solução não passa apenas por criar corredores de saída para os camiões. Implica integrar a atividade portuária no desenvolvimento urbano, de modo a que as infraestruturas contribuam para a economia local sem agravar os problemas das áreas onde estão instaladas.
Esta visão exige a participação de diferentes entidades e uma coordenação eficaz entre os responsáveis pelos portos, os operadores ferroviários e os restantes parceiros logísticos. Apesar de terem modelos de negócio e responsabilidades distintos, todos desempenham um papel importante no funcionamento dos corredores.
A articulação entre estes intervenientes é essencial para garantir que as mercadorias são transportadas dentro dos prazos necessários e que os investimentos realizados se traduzem em ganhos de eficiência e competitividade.
Digitalização para acelerar o transporte de mercadorias
A digitalização dos processos logísticos é outro dos elementos centrais da estratégia. A competitividade dos portos depende cada vez mais da previsibilidade das operações, da rapidez dos procedimentos administrativos e da partilha de informação entre os diferentes intervenientes.
A modernização das instalações não é suficiente se a burocracia continuar a atrasar a circulação das mercadorias. A integração dos sistemas informáticos e a criação de mecanismos de janela única podem simplificar os procedimentos aduaneiros, reduzir a duplicação de tarefas e facilitar o acesso à informação.
A eficiência depende, por isso, não apenas da administração portuária, mas também das autoridades aduaneiras e das restantes entidades envolvidas no controlo das mercadorias.
O governante defendeu igualmente que a integração deve estender-se às fronteiras. A circulação de mercadorias entre países exige procedimentos coordenados ao longo de todo o percurso, desde a entrada no porto até ao destino final.
A criação de mecanismos de cooperação fronteiriça, incluindo postos de paragem única, pode contribuir para acelerar os controlos e reduzir os atrasos. Sem esta articulação, os custos aumentam e os corredores perdem competitividade face a outras rotas comerciais.
A partilha de informação entre os operadores e as companhias de navegação permite ainda melhorar o planeamento das operações, aumentar a previsibilidade dos prazos e tornar os portos mais atrativos para o transporte internacional.
Maputo, Beira e Nacala são estratégicos
Moçambique tem vindo a consolidar três importantes eixos portuários: Maputo, no sul; Beira, no centro; e Nacala, no norte.
O porto de Maputo desempenha um papel relevante nas ligações comerciais do sul do país. A sua eficiência depende da articulação com as infraestruturas ferroviárias e rodoviárias e da coordenação entre os operadores envolvidos no transporte de mercadorias.
Na região centro, o porto da Beira assegura ligações importantes aos países vizinhos, nomeadamente ao Zimbabué e ao Maláui. A qualidade das ligações terrestres e a eficiência dos procedimentos fronteiriços são determinantes para o transporte de mercadorias entre estes mercados.
No norte, o porto de Nacala integra a rede de infraestruturas que permite ligar Moçambique aos mercados regionais e apoiar a atividade económica da região.
Para reforçar a competitividade destes eixos, o país considera fundamental melhorar a integração dos sistemas e assegurar que os diferentes parceiros têm acesso à informação necessária para organizar as operações logísticas.
O objetivo é reduzir os custos, acelerar os fluxos de mercadorias e garantir que as infraestruturas funcionam como partes de uma única cadeia de transporte.
Mercadorias africanas mais caras do que as asiáticas
A insuficiência das infraestruturas de transporte tem consequências para o comércio e para a competitividade das economias africanas. Um dos problemas identificados é o custo de transportar mercadorias entre países do continente, que pode ser superior ao de importar produtos de mercados mais distantes.
Na intervenção, o governante chamou a atenção para o facto de poder ser mais caro transportar produtos de um país africano vizinho do que importá-los da Tailândia ou do Vietname.
A situação evidencia as dificuldades do comércio intra-africano. A proximidade geográfica não garante custos de transporte mais baixos quando faltam estradas adequadas, ligações ferroviárias eficientes e procedimentos fronteiriços céleres.
Transportar mercadorias a distâncias relativamente curtas pode tornar-se economicamente menos vantajoso do que recorrer a fornecedores asiáticos, precisamente porque as infraestruturas de suporte não asseguram uma circulação eficiente.
Para Moçambique, a resposta passa por reforçar a complementaridade entre os diferentes meios de transporte e desenvolver corredores que liguem os produtores aos mercados consumidores.
A sustentabilidade das infraestruturas portuárias depende, assim, da capacidade de assegurar o funcionamento de toda a cadeia logística. Sem ligações eficientes, os portos não conseguem concretizar plenamente o seu potencial económico.
Oceano Índico pode reforçar ligações comerciais
A necessidade de diversificar as rotas comerciais e encontrar alternativas para o transporte de mercadorias reforça, na perspetiva apresentada pelo governante, a importância estratégica do oceano Índico.
Moçambique considera que a sua localização pode favorecer o acesso aos mercados africanos e as ligações comerciais entre África e a Europa. Para aproveitar essa oportunidade, será necessário consolidar as infraestruturas, melhorar os serviços logísticos e reforçar a cooperação entre os países da região.
O desenvolvimento de novos corredores poderá facilitar a integração regional e intercontinental, desde que os investimentos sejam acompanhados por uma estratégia comum e por sistemas de transporte articulados.
Um dos principais obstáculos é a tendência para os países planearem as suas infraestruturas sobretudo em função das prioridades nacionais, sem garantir a continuidade das ligações para lá das fronteiras.
O governante apontou esta limitação como um dos grandes desafios ao desenvolvimento dos corredores africanos. Uma estrada ou uma linha ferroviária pode ter utilidade dentro de um país, mas o seu valor económico diminui se não existir continuidade no território vizinho.
A este respeito, destacou a diferença em relação à União Europeia, onde a existência de instituições e mecanismos de cooperação facilita o planeamento de investimentos em infraestruturas à escala regional.
Em África, apesar das iniciativas de integração, a concretização de projetos comuns continua dependente das prioridades de cada Estado e da capacidade de coordenação entre governos.
A solução passa por uma visão regional que permita articular os investimentos nacionais e desenvolver redes de transporte adequadas às necessidades dos mercados.
Para Moçambique, o futuro dos portos depende, assim, de uma estratégia que combine modernização, digitalização, sustentabilidade e cooperação internacional. O objetivo é transformar a posição geográfica do país numa vantagem económica efetiva, capaz de reduzir os custos do comércio, aumentar a competitividade das empresas e promover o desenvolvimento dos países ligados aos seus corredores logísticos.
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