EUA querem deixar de comprar cães militares à Europa e criar os seus próprios cães com tecnologia de guerra
Os Estados Unidos têm um problema de quatro patas. Mais de 80% dos cães militares que utilizam são adquiridos na Europa, numa dependência que o país considera estratégica numa altura em que as cadeias de abastecimento deixaram de ser apenas uma questão de comércio. Agora, uma nova empresa quer resolver o problema com uma receita que mistura genética, clonagem, biotecnologia e tecnologia militar. O resultado chama-se Warhound e chega ao mercado com 200 milhões de dólares (cerca de 173 milhões de euros) de financiamento inicial.
A empresa, criada pelos empresários tecnológicos Palmer Luckey e Ben Lamm e liderada pelo antigo militar David Spirk, quer reconstruir nos Estados Unidos a capacidade de produzir cães para as forças armadas, polícia e equipas de emergência. E não está propriamente a falar de ensinar um pastor alemão a sentar-se e dar a pata. A ambição é criar cães mais saudáveis e preparados para missões exigentes, recorrendo a avanços na genética e na clonagem e, em paralelo, equipá-los com tecnologia desenvolvida para ambientes de combate.
A Warhound junta, assim, duas empresas com especialidades bastante diferentes. De um lado está a Colossal Biosciences, empresa de biotecnologia conhecida pelo trabalho em genética e clonagem animal. Do outro está a Anduril, companhia de tecnologia de defesa fundada por Palmer Luckey, que fornece os sistemas de “augmentação” cibernética, software e ferramentas de consciência situacional. Ou seja, o cão continua a ser o cão. Mas a coleira já tem ambições bem mais sofisticadas.
Segundo a Warhound, a tecnologia da Anduril deverá incluir sistemas destinados a proteger os animais e os seus tratadores, incluindo proteção para olhos e ouvidos e a tecnologia Eagle Eye. A ideia é permitir que as equipas cão-humano tenham maior percepção do que acontece no terreno e possam operar com mais segurança.
O projeto nasce de um problema muito concreto. O programa de cães militares norte-americano conta actualmente com mais de 2.200 equipas operacionais, fundamentais sobretudo para detecção e patrulhamento. Mas o percurso entre encontrar um candidato e colocá-lo ao serviço é longo e caro. De acordo com a empresa, o processo de aquisição e treino pode demorar cerca de três anos e menos de metade dos cães inicialmente seleccionados acaba por ser considerada apta para o serviço.
A conta é pouco simpática: para conseguir colocar 100 cães em serviço, é necessário adquirir e treinar cerca de 200. A Warhound quer inverter esta lógica, produzindo menos animais, mas aumentando a probabilidade de estes permanecerem saudáveis, concluírem o treino e conseguirem desempenhar as missões para as quais foram seleccionados.
A parte da história mais futurista!
É aqui que entra a parte mais controversa — e mais futurista — do projeto. A empresa pretende utilizar genética avançada para seleccionar características associadas à saúde e ao desempenho e recorrer à clonagem para reproduzir animais com determinadas características. A promessa não é, pelo menos segundo a empresa, criar supercães de laboratório, mas melhorar as probabilidades de saúde, resistência e sucesso dos animais ao longo da sua vida.
A Warhound insiste, aliás, que o bem-estar animal está no centro do projecto. A empresa afirma que pretende reduzir o número de cães que entram em programas intensivos de treino e acabam por ser excluídos, além de assegurar cuidados ao longo de toda a vida, incluindo a reforma. A American Humane Society deverá acompanhar o programa, certificando os processos de treino e apoiando a reunificação dos cães reformados com antigos tratadores, bem como os processos de adopção.
A preocupação não é apenas uma questão de imagem. Os cães militares são utilizados para detectar explosivos, proteger militares e avançar para situações de perigo onde os humanos prefeririam, compreensivelmente, ter alguma distância. A Warhound argumenta que, se estes animais são chamados a correr riscos para proteger pessoas, também devem beneficiar da melhor tecnologia disponível para reduzir esses riscos.
Palmer Luckey resume a filosofia da empresa numa frase que parece saída de um anúncio, mas que traduz bem o conceito: “man’s best friend deserves man’s best tech”. Em português, o melhor amigo do homem merece a melhor tecnologia do homem. Resta saber se o melhor amigo concorda com o upgrade.
A aposta tem também uma dimensão geopolítica. Ao criar uma cadeia doméstica de criação, treino e fornecimento, a empresa pretende reduzir a exposição dos Estados Unidos ao mercado europeu de cães de trabalho, que considera limitado e vulnerável. A estratégia segue uma lógica cada vez mais comum na indústria de defesa norte-americana: trazer para território nacional tecnologias e capacidades consideradas críticas e reduzir dependências externas.
Por trás da operação está uma lista de investidores que inclui a Sequoia Capital, a In-Q-Tel, ligada à comunidade de inteligência norte-americana, a ARK Invest, a Franklin Templeton, a 8VC, a Lux Capital e outros fundos e investidores. A dimensão do financiamento inicial mostra que a Warhound não quer ser apenas mais um criador de cães de trabalho, mas construir uma plataforma tecnológica em torno deles.
O projecto junta ainda uma curiosa combinação de mundos. A biotecnologia quer melhorar o animal, a indústria de defesa quer melhorar o soldado e a inteligência artificial e os sensores querem melhorar aquilo que ambos conseguem ver e compreender. No centro de tudo está, no entanto, um animal que continua a ter quatro patas, um nariz extraordinário e nenhuma particular vocação para discursos sobre inovação.
A verdadeira questão será perceber até onde pode ir esta transformação sem alterar aquilo que torna os cães militares tão valiosos em primeiro lugar. A Warhound diz querer animais mais saudáveis, mais capazes e melhor protegidos. Mas quanto mais tecnologia for colocada entre o cão e o campo de batalha, mais a velha fronteira entre animal, máquina e combatente começa a ficar interessante — e eticamente incómoda.
Por enquanto, a empresa tem uma missão bastante mais prosaica: fazer com que os Estados Unidos consigam produzir em casa os cães de que precisam. Se conseguir, Washington poderá finalmente deixar de importar uma parte importante do seu poder de quatro patas. E talvez o próximo grande salto tecnológico da defesa americana não tenha asas, rodas ou hélices. Tenha simplesmente um focinho.
Share this content:



Publicar comentário