Netanyahu pode estar a caminho de uma derrota histórica
A sociedade israelita arrisca nova extremista à direita nas eleições do próximo dia 27 de outubro, numa altura em que a vitória do Licud, de Benjamin Netanyahu, sendo possível, não o vai subtrair à necessidade de voltar a formar uma coligação que, como sucede desde as eleições de 2022, o colocará debaixo do controlo apertado dos extremistas. Os cerca de sete milhões de eleitores votam numa única lista nacional para os 120 lugares do Knesset, o parlamente, que deverá manter o carácter muito pulverizado (obrigando a coligações entre numerosas formações políticas. Vão longe os tempos em que a polarização da política israelita se dava entre o centro-esquerda do Partido Trabalhista – onde pontificaram nomes sonantes como Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Golda Meir – e o centro-direita do Likud.
As sondagens indicam que os herdeiros dos trabalhistas devem conseguir oito lugares, provavelmente menos um que aqueles que serão obtidos pelo partido Força Judaica, liderado pelo atual ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que, nos comícios em que tem participado, apela ora sorridente ora abespinhado, à limpeza étnica dos palestinianos.
Os boletins de voto ostentarão as insígnias de pelo menos 37 formações políticas, mas as sondagens indicam que provavelmente só 12 conseguirão superar os 3,25% dos votos, o mínimo necessário para ascender ao Knesset. Mais de 500 mil israelitas atingiram a idade de votar desde 2022, e cerca de 66% destes que votarão pela primeira vez definem-se como de direita ou centro-direita, segundo uma sondagem divulgada pela televisão Canal 12.
De acordo com a maioria das pesquisas, o partido Yashar, liderado pelo antigo chefe das Forças Armadas Gadi Eisenkot, encontra-se na liderança das intenções de voto, surgindo ligeiramente à frente do Likud. Uma sondagem da estação pública Kan atribui 23 mandatos ao Yashar e 21 mandatos ao Likud. Ao mesmo tempo, indica que os partidos da oposição conseguirão um bloco de 52 lugares, enquanto os partidos árabes somarão 13. A coligação da Lista Conjunta (que reúne forças socialistas, comunistas e árabes) tem uma projeção de sete ou oito lugares.
A maioria das sondagens mostra que o atual bloco do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu com os ultraortodoxos e a extrema-direita ficará bem abaixo do limite de 61 lugares necessárias para formar um governo. Será certamente a vez da oposição tomar o rumo do país.
Alterações na frente da guerra? Nem por isso!
A provável derrota de Netanyahu indica, segundo os analistas, que os israelitas contestam fortemente a forma como o primeiro-ministro conduziu a guerra que eclodiu a 7 de outubro de 2023. Não por causa da barbárie que as forças armadas israelitas instalaram em Gaza – com rápida extensão, apesar de menos brutal, para as Cisjordânia – mas exatamente pela fraca eficácia que, apesar e tudo, essa brutalidade demonstrou ter. A enorme demora na recuperação de todos os sobreviventes e de todos os cadáveres dos israelitas raptados a 7 de outubro (840 dias) é um estigma que, aparentemente, os israelitas entendem não desculpar a Netanyahu.
Dito de outra forma: seja que partido for que consiga formar uma coligação para governar, ninguém está à espera que a guerra em Gaza tal como é conhecida e conduzida nos últimos três anos venha a sofrer grandes alterações. Particularmente no que diz respeito à Palestina, a maioria oferece pouca contestação à afirmação de Netanyahu de que a segurança só pode ser alcançada através da dominação militar e da anexação de território, desde Gaza até à Síria e ao Líbano. A promessa de responsabilizar os autores dos ataques de 7 de outubro é transversal aos dois quadrantes políticos.
Os acordos de paz que garantiram as fronteiras de Israel com a Jordânia e o Egipto, países que outrora representavam uma ameaça existencial idêntica àquela que o Irão representa atualmente, não figuram no debate político como uma alternativa viável.
De facto, um olhar rápido pela imprensa israelita permite concluir que a campanha concentrou-se noutras questões, com destaque para o combate à corrupção – de que, aliás, Netanyahu é acusado em vários processos que continuam a correr nos tribunais – até à melhoria das condições das escolas, passando pelo inevitável aumento do custo de vida. Um outro debate divide os eleitores: a evasão ao serviço militar obrigatório por parte dos ultraortodoxos, que está vertida na lei, mas tem cada vez menos apoiantes.
Quem é Gadi Eisenkot, possível futuro primeiro-ministro de Israel?
Gadi Eisenkot foi, de 2015 a 2019 o 21º chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel e de 2023 a 2024 foi ministro sem pasta no governo de unidade. Fundador do partido centrista Yashar (em 2025), lançou uma campanha baseada na responsabilidade, na reforma política e na unidade nacional. Criticou duramente a liderança de Netanyahu antes e depois dos ataques de 7 de outubro. E embora apoie as operações militares de Israel, argumenta que o governo carece de uma estratégia clara em Gaza. Chegou mesmo a pedir uma investigação independente sobre as falhas relacionadas com os ataques. O seu histórico militar e a perda pessoal sofrida na guerra (Gal, um de seus cinco filhos, foi morto em combate em Gaza) fortaleceram a sua posição entre muitos eleitores.
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