Três em cada quatro viajantes já usam inteligência artificial para planear férias
Planear férias começa cada vez mais com uma conversa com a inteligência artificial. Em vez de percorrer dezenas de páginas na Internet, os viajantes podem pedir a um assistente digital que encontre destinos, compare hotéis ou organize um itinerário de acordo com o orçamento disponível. A tecnologia já entrou nesta fase da viagem, mas ainda não conquistou a mesma confiança quando chega o momento de pagar.
De acordo com o estudo Tailored Horizons, publicado pela Amadeus em agosto de 2026, 74% dos viajantes inquiridos nos Estados Unidos já utilizaram inteligência artificial durante o planeamento de uma viagem, nomeadamente para procurar alojamento, identificar rotas ou encontrar alternativas de transporte. O inquérito abrangeu mil pessoas e foi realizado em julho, com o apoio da empresa de investigação Mercury Analytics.
A adesão é expressiva: 85% dos inquiridos consideram que estas ferramentas permitem poupar tempo e obter recomendações mais personalizadas. Mais de metade, 53%, recorre à IA para encontrar inspiração, enquanto 49% já a utilizaram durante a própria viagem, para consultar informações sobre voos, navegação, meteorologia ou sugestões locais.
Os números mostram que a tecnologia está a ganhar espaço ao longo de diferentes etapas da experiência turística. Mas usar a IA para pedir sugestões não é o mesmo que lhe entregar o cartão de crédito.
Em Portugal, a inteligência artificial também começa a ganhar espaço no planeamento das férias, embora os dados disponíveis não sejam diretamente comparáveis com os dos Estados Unidos. Um estudo do IPAM, realizado em junho de 2026 junto de 450 adultos, concluiu que 21% dos portugueses já recorrem à IA para pesquisar destinos, alojamento ou atividades. Este indicador mede a utilização da tecnologia na fase de pesquisa, não a conclusão de reservas.
Já o Barómetro Anual de Férias de Verão de 2026, da Europ Assistance, aponta para 27% dos portugueses que utilizam inteligência artificial para planear férias, mais 11 pontos percentuais do que em 2025. Também neste caso, o indicador diz respeito ao planeamento das viagens, não necessariamente à compra de alojamento ou de bilhetes através de um assistente digital.
A distinção é importante: nos Estados Unidos, os 74% identificados pela Amadeus também dizem respeito à utilização da IA durante o planeamento das viagens, e não à conclusão de reservas através desta tecnologia. Os números dos dois países apontam para uma mudança nos hábitos dos viajantes, mas não permitem concluir quantos portugueses ou norte-americanos já compram viagens diretamente através de assistentes digitais.
O dinheiro continua nas mãos dos viajantes
Segundo o relatório da Amadeus, 65% dos participantes mostram interesse em poder concluir reservas e pagamentos diretamente através de um assistente de inteligência artificial. No entanto, apenas 20% aceitariam que essa ferramenta gastasse dinheiro em seu nome, dentro de um orçamento previamente definido, sem pedir autorização adicional.
Outros 43% admitiriam essa possibilidade sob determinadas condições ou restrições, enquanto 29% rejeitariam a ideia.
A cautela também se manifesta na validação das recomendações. Quase nove em cada dez inquiridos confirmam, pelo menos ocasionalmente, a informação recebida através da IA antes de fazer uma reserva. Apenas 11% afirmam confiar exclusivamente nas sugestões da tecnologia.
O estudo revela, assim, um contraste entre a vontade de simplificar o planeamento das férias e a resistência a delegar decisões que envolvam dinheiro. A IA pode ajudar a encontrar opções, mas a responsabilidade pela escolha continua a ser um fator importante para os consumidores.
Recomendações à medida de cada turista
A personalização é um dos principais argumentos a favor destas ferramentas. Segundo a Amadeus, 55% dos inquiridos valorizam a possibilidade de receber sugestões úteis sobre o destino durante a estadia. Encontrar alternativas ajustadas ao orçamento é uma prioridade para 52%, enquanto 49% destacam a utilidade de reorganizar uma viagem em tempo real quando surgem alterações nos planos.
Ainda assim, a tecnologia nem sempre corresponde às expectativas. Cerca de 64% dos participantes afirmam já ter recebido recomendações que repetiam destinos ou opções conhecidos, em vez de lhes apresentarem alternativas novas.
Há também limites relacionados com a privacidade. Embora os viajantes estejam relativamente disponíveis para partilhar preferências de viagem e informações sobre o orçamento, a abertura diminui quando estão em causa dados de pagamento ou de identificação pessoal.
A confiança será, por isso, determinante para que os assistentes digitais passem de ferramentas de consulta a intermediários capazes de executar reservas.
Hotéis e agências enfrentam uma nova concorrência
A mudança tem consequências para as empresas de viagens. Se os consumidores começarem a descobrir hotéis, voos e pacotes turísticos diretamente através de assistentes digitais, as empresas poderão ter de disputar a atenção dos clientes num novo canal, controlado por plataformas tecnológicas.
O desafio não consiste apenas em disponibilizar informação na Internet. Os sistemas de inteligência artificial precisam de conseguir interpretar as características de cada alojamento, os preços, a disponibilidade e os serviços oferecidos para apresentar recomendações adequadas a cada pedido.
Para os hotéis e as agências de viagens, estar presente nas respostas destes assistentes poderá tornar-se tão importante como aparecer nos resultados dos motores de busca tradicionais. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a possibilidade de perderem o contacto direto com os clientes e ficarem mais dependentes de grandes plataformas digitais.
A Amadeus, empresa tecnológica que fornece sistemas e serviços à indústria das viagens, considera que a evolução da IA abre oportunidades para tornar a experiência mais personalizada. Mas os resultados do seu próprio estudo indicam que a automatização, por si só, não chega para conquistar os consumidores.
Quando alguma coisa corre mal durante uma viagem, a preferência continua a recair sobre o contacto humano: 37% dos inquiridos preferem apoio telefónico e 25% assistência presencial, contra apenas 7% que escolhem assistentes de inteligência artificial.
Mais de metade, 51%, prefere combinar a tecnologia com a intervenção humana, enquanto apenas 17% confiaria exclusivamente na IA para organizar uma viagem.
A conclusão é clara: a inteligência artificial está a ganhar lugar na preparação das férias, mas ainda não substitui a confiança que os viajantes depositam no controlo das suas escolhas e na possibilidade de falar com uma pessoa quando precisam de resolver um problema.
Fontes: Amadeus, relatório Tailored Horizons, publicado em agosto de 2026; IPAM, estudo sobre os hábitos de férias dos portugueses, junho de 2026; Europ Assistance, Barómetro Anual de Férias de Verão de 2026.
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