Q&A com Armindo Araújo: triunfo, experiência, azares, críticas, reflexão e futuro
Armindo Araújo e Luís Ramalho (Skoda Fabia RS Rally2) venceram, entre os concorrentes do CPR, o Rali 6 Cidades Norte de Portugal, repetindo o feito do Rali da Madeira. Terminaram em sétimo na geral, mas deixaram duras críticas aos custos e às condições de participação dos concorrentes nacionais na prova. Em entrevista ao AutoSport, o piloto explicou a recuperação após um início difícil, reconheceu o desgaste provocado pelos contratempos de 2026 e revelou estar a ponderar o seu futuro, sem ter decidido se vai continuar a competir.
Autosport: Esta foi uma vitória suportada na experiência e na capacidade de gestão. Foi esse o truque para esta vitória?Armindo Araújo: “Bom, eu acho que, nesta prova, tivemos como parte menos positiva a manhã de ontem. Depois, acho que impusemos um ritmo bom. O carro esteve sempre a aguentar-se firme, em todas as condições do troço. Portanto, honestamente, não precisei de poupar muito. E poupar é escolher as melhores trajetórias e fugir a alguns potenciais problemas, isso faz parte da experiência, mas o carro estava a aguentar-se bem, e está impecável no final deste rali.Depois, com a mudança da afinação, como disse à hora do almoço, conseguimos tornar o carro mais rápido. O carro começou a ter melhor tração, e começámos a fazer tempos; fomos recuperando logo do 14.º para o top 10 ontem. Hoje conseguimos manter este 7.º lugar e eu acho que, em termos de Europeu de Ralis, é muito bom para a nossa imagem. Em termos nacionais, venci a prova, venci a Power Stage, portanto, não podia fazer mais e estou contente com este resultado.”
AS: E com isso, dar um pontapé no azar que te tem perseguido este ano…AA: “Sim, 2026 tem sido um péssimo ano para mim. As coisas não têm corrido bem. Por um motivo ou por outro, as coisas não correm bem. Eu também não quero estar a retirar mérito aos meus adversários, pois eles têm feito provas fantásticas e, portanto, o mérito também é todo deles, mas eu tenho de falar de mim, e quando falo de mim, sei que as coisas estão a acontecer e isso reflete-se, obviamente, quando as coisas não estão a correr bem. E por um motivo ou por outro, às vezes até alheio àquilo que estamos a controlar.Mas as coisas são assim, e eu acho que este também é um momento de viragem, e eu acho que esta prova também demonstrou que, às vezes, também temos de ter um bocadinho da estrelinha da sorte connosco, um bocadinho de sorte, e tudo correu bem. Não tivemos problema nenhum; uma prova que decorreu sempre sem problemas. Não cometi nenhum erro durante estes três dias e o carro também não me deu nenhum problema. Portanto, estou muito contente e feliz com tudo isto.”
AS: Achas que a maré de azar influenciou também a tua confiança, ou nunca foi essa a questão?AA: “Não, quando nós estamos a liderar corridas e cometemos erros e saímos de estrada, como aconteceu em Chaves, quando estamos na luta pela vitória no Algarve, e o filtro de ar entupiu, perdemos imenso tempo, e, a seguir, quando fomos recuperar, ainda furámos outra vez. É uma prova atrás da outra a correr mal. Depois, tivemos um problema elétrico no Rali de Portugal, onde quase desistíamos e penalizámos imenso tempo.E chegamos ao fim da prova, percebemos que, sem aquela penalização, tínhamos ganho. Portanto, tudo isto começa a fazer mossa, pesa na carga emocional, mas temos de nos abstrair disso e saber que isto vai dar a volta, e que Deus queira que seja tudo resumido aqui, num ano. Eu também tenho tido muita sorte na minha carreira, e a estrelinha tem-me acompanhado sempre. Mas 2026 é um ano um bocado para esquecer.”
AS: Há uma questão que tem sido falada muito em relação ao CPR, a questão de os pilotos que não estão no Europeu largarem muito atrás, e houve muitas queixas disso, ontem…AA: “Sou completamente solidário com todas essas queixas. Eu sou contra aquilo a que fui ‘obrigado’, porque tenho um projeto com grandes empresas nacionais, com uma grande responsabilidade comercial, e eu nunca podia apresentar-me aqui no fundo do pelotão. Esta é a verdade das circunstâncias; não tenho como admitir nada. Portanto, eu, muito contra a minha vontade, paguei os mais de 8.000 euros de inscrição para fazer uma prova do CPR, porque estou a fazer o CPR, não o Campeonato da Europa.E quando tínhamos o WRC, o ACP criava as condições para fazermos o WRC em condições iguais para todos os pilotos, sem custos acrescidos. Portanto, aqui é que está o segredo. Sim, senhor, as provas internacionais vêm cá, os nossos do CPR vão entrar nessa festa, mas com os custos controlados do CPR.E há aqui uma discrepância: sim, senhores, se querem vir à festa do Europeu, têm de pagar uma inscrição do Europeu. Quando é a última prova do ERC, são mais de 4.000 euros de inscrição.Portanto, isto faz com que os custos sejam desmesurados para a realidade portuguesa, que é a do CPR. Portanto, apoio totalmente o que acontece no pelotão do CPR e, embora não tenha estado lá, revejo-me naquelas dificuldades. Estive muito tentado a fazer aquilo, mas não o pude fazer pelas responsabilidades comerciais que tenho no meu projeto.”
AS: Vocês, pilotos, acham que devem criar uma plataforma para que isto possa ser evitado no futuro, ou são coisas da organização?AA: “A nossa queixa já estava em cima da mesa. É completamente surreal vir fazer uma prova do Campeonato Nacional e ter de pagar 8.000 euros de inscrição. Portanto, isto não cabe na cabeça de ninguém. Isto não é a nossa realidade. Estamos a matar os ralis com isto. E a prova foi dada, este fim de semana, que pilotos, até de referência, como é o caso do Zé Pedro Fontes e os pilotos da Hyundai, decidiram não pagar a inscrição do Europeu, e deu no que deu. Já li o comunicado da Hyundai, que se retirou da prova por não concordar com isto.Portanto, talvez haja entidades, pilotos e pessoas a mais a dizer que isto está mal e alguém tem de pensar que deve recuar. Porque estão a forçar-nos, forçar-nos, para pagarmos, pagarmos, pagarmos.O piloto é que tem sempre de pagar tudo. A festa tem de ser paga pelo piloto, mas a festa também não funciona sem pilotos. E eu acho que os pilotos do Campeonato Nacional não foram bem tratados aqui nesta prova.O espetáculo do Europeu está muito bem montado, a festa do ERC é muito bonita, mas estamos a fazer o CPR e temos de ter as regras do CPR, e uma realidade financeira compatível com o Campeonato Nacional.Portanto, dar oportunidade de pagar para ir à festa, eu acho que não é justo para o Campeonato Nacional.E portanto, eu acho que devemos lutar todos para que estas desigualdades não aconteçam no futuro.”
AS: E agora, o Rali Vidreiro, como é que vais encarar a prova?AA: “Bom, no Vidreiro, eu basicamente já não tenho muito a fazer, mas vou lá dar o meu melhor, como sempre, prova a prova. Tentar vencer a prova e não olhar para mais nada, porque não tenho muito mais em que pensar, porque o campeonato está perdido para mim (ndr, há uma possibilidade remota, mas que existe, de Armindo Araújo ser Campeão). Mas aqui também foi assim, e dei o meu melhor e ganhei. Portanto, lá, vou tentar fazer o mesmo.”
AS: Para o futuro, já tens alguma coisa em vista?AA: “Não, neste momento estou em reflexão sobre o que irei fazer no futuro. Não, ainda não tomei nenhuma decisão sobre se irei continuar a correr ou não. Efetivamente, está mesmo em cima da mesa uma reflexão.”
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