Rita Nabeiro: “O futuro vai nos perguntar se tivemos coragem de fazer o que tinha de ser feito”
A conferência do 25.º aniversário do BCSD Portugal reuniu mais de 700 participantes, entre presenciais e online, para debater o futuro dos negócios sob o mote “Business as unusual – coragem para decidir o futuro”, anunciou hoje a organização.
Em comunicado, o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável assinala os 25 anos com uma conferência anual que deixou “uma mensagem clara ao tecido empresarial”: os riscos climáticos, tecnológicos e sociais estão identificados e quantificados, mas a decisão de investimento, de organização e de liderança continua atrás do diagnóstico.
Sob o mote “Business as unusual – coragem para decidir o futuro”, a agenda partiu do passado para olhar, de forma consciente e deliberada, para o futuro, inspirada pela abordagem de foresight, que assume que existem múltiplos futuros possíveis que não acontecem por inércia e exigem escolhas no presente.
A presidente do BCSD Portugal, Rita Nabeiro, defendeu que a crescente complexidade dos desafios ambientais, económicos, tecnológicos e sociais exige das empresas mais do que reconhecer os riscos.
“O futuro não nos vai perguntar se tínhamos uma estratégia de sustentabilidade, mas se tivemos coragem de fazer o que tinha de ser feito”, afirmou, apelando à responsabilidade dos líderes empresariais perante decisões que vão determinar a competitividade e a prosperidade das próximas décadas.
Rita Nabeiro sublinhou que a sustentabilidade está hoje diretamente ligada à gestão estratégica das organizações e alertou para o fosso entre consciência e ação.
O clima já pesa nas contas, mas ainda pouco nas decisões, frisou. A última década foi a mais quente de que há registo e que 2025 ficou cerca de 1,43 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais. Em Portugal, as tempestades que atingiram o país provocaram prejuízos superiores a 5,3 mil milhões de euros, dos quais apenas um quarto estava coberto por seguros, com o Estado a mobilizar dois mil milhões de euros, valor que não estava inscrito no Orçamento.
Segundo o Global CEO Survey de 2026, 42% dos CEOs admitem que as suas empresas podem sofrer perdas financeiras significativas, mas só um em cada quatro integra seriamente o clima nas decisões sobre produtos e abastecimento, e apenas um em cada cinco o faz na alocação de capital.
A responsável destacou ainda que a sustentabilidade deixou de ser um tema de responsabilidade social ou de filantropia. Há, ainda assim, sinais de que crescer e descarbonizar não são incompatíveis: em 2024, as emissões de gases com efeito de estufa em Portugal caíram 2,8%, enquanto a economia cresceu 2,7%, o quarto ano consecutivo em que cresce e emite menos.
A inteligência artificial foi o outro grande tema em debate, classificada como “uma questão de escolha”.
Pedro Conceição, diretor do Gabinete do Relatório de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, afirmou que o impacto da IA no desenvolvimento humano e na desigualdade “é uma questão de escolha”, não algo determinado pelas máquinas ou por quem as produz. Dados do inquérito do PNUD mostram que 45% das pessoas nos países mais ricos esperam vir a usar IA no trabalho, contra dois terços nos países de menor desenvolvimento humano.
Nos Estados Unidos, 66% das empresas inquiridas não fizeram qualquer investimento em IA e apenas cerca de 15% estão a repensar processos e fluxos de trabalho. O bloqueio, defendeu, não está na tecnologia, mas na abordagem “plug and play”.
No debate “A IA é uma ferramenta de igualdade social?”, a economista e autora do podcast 45 Graus, Maria Pimentel, defendeu o “a favor”: estudos com mais de cinco mil trabalhadores de apoio ao cliente mostram que a IA aumenta mais a produtividade de quem tem menos experiência e, segundo o FMI, 60% dos empregos das economias avançadas estão expostos à IA, contra 26% nos países de baixo rendimento.
Já o advogado especializado em tecnologia João Marecos defendeu a tese “contra”: a IA não corrige desigualdades, amplifica as que já existem, porque quem tem dinheiro compra a melhor inteligência e os incentivos dos modelos concentram os ganhos em quem os detém.
O painel dedicado ao futuro contou com Bugge Holm Hansen, do Copenhagen Institute for Futures Studies, que alertou que o maior risco já não é ser demasiado lento, mas otimizar um sistema que deixará de ser relevante, num contexto em que os ciclos de inovação encolhem.
A futurista Ângela Oguntala defendeu que projetar o passado para a frente já não chega num mundo sem convergência geopolítica e propôs que as equipas reservem tempo regular para pensamento antecipatório: “O futuro não é um destino”.
Sobre liderança, o painel concluiu que a resposta começa nas decisões de quem lidera hoje, mas só ganha força quando é construída com quem vem a seguir.
A celebração dos 25 anos foi também oportunidade para revisitar o percurso. A secretária-geral do BCSD Portugal, Filipa Pantaleão, recordou a convicção de que “as empresas são o veículo com o maior potencial para transformar a economia” e destacou o Relatório de Impacto dos 25 anos.
A conferência dos 25 anos do BCSD Portugal decorreu sob o Alto Patrocínio da Presidência da República e contou com o apoio de Ageas, NovoBanco, Delta Cafés, Jerónimo Martins, Trivalor, ABanca, BPI, EDP, Fapil, Fidelidade, Grupo Bel, Grupo Brisa, MEO, SIBS, Sonae, Sovenã, Tabaqueira, The Navigator Company, TUB – Transportes Urbanos de Braga, APCER, Lipor e Maze.
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