A transição elétrica também se faz em segunda mão
A preparação da Convenção Anual da ANECRA, que terá lugar no próximo dia 27 de novembro, é sempre uma oportunidade para refletir sobre os grandes desafios que se colocam ao setor automóvel. E este ano não faltam temas: da transição energética à Inteligência Artificial, da concorrência internacional aos novos modelos de negócio.
Mas, no meio de tantas transformações, há uma questão que considero fundamental e que nem sempre recebe a atenção que merece: quem poderá pagar o automóvel do futuro?
O automóvel atravessa talvez a maior transformação dos últimos cem anos. A transição energética, a digitalização e os novos hábitos de consumo avançam em simultâneo, num contexto de crescente pressão concorrencial e de exigentes metas ambientais europeias. Mas a velocidade da inovação tecnológica nem sempre acompanha a realidade económica das famílias.
É aqui que um tema aparentemente menos mediático ganha importância: o crescimento do interesse pelos elétricos usados. Um estudo recente da carVertical indica que as consultas de históricos destes veículos na sua plataforma, em Portugal, aumentaram 49% entre 2024 e 2025 e 98% entre 2025 e 2026. Não são dados de vendas, nem representam todo o mercado, mas constituem um sinal expressivo de interesse.
Durante anos, o elétrico foi sinónimo de inovação e sustentabilidade, mas também de preços pouco acessíveis a muitas famílias. Apesar de uma oferta cada vez mais diversificada, comprar um elétrico novo continua a exigir um esforço financeiro considerável. E os particulares não dispõem, em regra, das vantagens fiscais de que beneficiam as empresas.
É precisamente por isso que o mercado de usados poderá ser decisivo para democratizar a mobilidade elétrica. À medida que mais veículos terminam os primeiros ciclos de utilização, chegam ao mercado modelos recentes e tecnologicamente evoluídos. Com o aumento da oferta e preços cada vez mais competitivos em alguns segmentos, o automóvel elétrico usado começa a apresentar-se como uma alternativa economicamente viável para um universo mais alargado de consumidores.
Há aqui um paradoxo económico: a forte desvalorização de alguns elétricos, problemática para os primeiros proprietários e para quem gere valores residuais, abre oportunidades a quem compra em segunda mão. O que é um risco numa ponta do mercado pode ser uma vantagem na outra.
Naturalmente, para que este potencial se concretize, será fundamental ultrapassar algumas das dúvidas que ainda persistem entre os consumidores. Segundo o mesmo estudo da carVertical, 67,2% dos operadores europeus do comércio de automóveis usados inquiridos identificam as preocupações com o estado e o custo das baterias como uma barreira muito importante à comercialização destes veículos.
Neste contexto, os profissionais do comércio automóvel terão um papel determinante, não apenas na comercialização destes veículos, mas também na disponibilização de informação credível, na avaliação do estado das baterias e no esclarecimento dos consumidores. A confiança será tão importante como o preço para o crescimento sustentado deste mercado.
Num país com um parque automóvel cuja idade média ronda os 14 anos, a renovação da frota e a redução das emissões não podem depender apenas da venda de automóveis novos. Precisam também de um mercado de usados capaz de aproximar a inovação dos orçamentos familiares.
É esta uma das reflexões que importa levar à Convenção da ANECRA: o futuro do automóvel não dependerá apenas da capacidade da indústria para desenvolver novas tecnologias, mas também da capacidade dos consumidores para lhes aceder. Porque a transição elétrica também se faz em segunda mão.
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