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O Parque da Imaginação Musical e Guimarães como exemplo

O Parque da Imaginação Musical e Guimarães como exemplo

A qualidade do espaço público numa cidade e, nomeadamente, a oferta de espaços verdes e de infraestruturas de acesso livre, que promovam o lazer e a brincadeira é, na minha opinião, sinal claro da qualidade de vida de um território e da visão que este apresenta sobre a importância da saúde física e mental de quem o habita.
A organização do espaço público e as suas prioridades resultam de decisões políticas consecutivas e refletem a visão de quem governa. Não adianta fazermos do comportamento dos cidadãos a causa da qualidade do espaço público, a nenhum nível, quando, todos sabemos, a sociologia explica-o e Émile Durkheim (França, 1858–1917) – particularmente na sua conceção de que os comportamentos individuais são profundamente influenciados pelo meio social em que se desenvolvem – esclarece-nos que os comportamentos têm uma dimensão contagiante e reprodutiva: as atitudes que observamos nos outros tendem a influenciar as nossas próprias ações, contribuindo para a consolidação de práticas coletivas, como explana, por exemplo, em “As Regras do Método Sociológico”, de 1895.
Ou seja, o espaço público pode e deve ser entendido não apenas como um lugar onde os comportamentos acontecem, mas como um contexto que os estimula, orienta e transforma. Um espaço que promove a criatividade, a participação, o encontro e o respeito pelo outro pode favorecer a reprodução dessas mesmas práticas, contribuindo para a construção de uma comunidade mais ativa, colaborativa e inclusiva.
Projetos como o Superkilen Park ou The Tower Playground, Fælledparkenem, ambos em Copenhaga, Dinamarca; o Parc de la Villette, em Paris, França; ou o Park am Gleisdreieck, em Berlim, Alemanha, são exemplos de parques pensados para a infância, integrados na vida das cidades, em que há um convite ao jogo, à brincadeira, mas também à atividade física de forma recreativa e à experimentação artística. Tomamo-los como referência, mas, na desesperança que fomos desenvolvendo sobre Portugal não esperamos ver, sequer, réplicas dos mesmos no nosso espaço público, nas nossas cidades.
O Parque da Imaginação Musical (PIM), inaugurado recentemente em Guimarães, no enquadramento do parque da cidade é, por isso, um motivo de esperança e de espanto, e devolve-me a esperança de que há na classe política e nos decisores capacidade de pensar fora de caixa e de utilizar os dinheiros públicos para inovar e não fazer apenas mais do mesmo. Se ainda restavam dúvidas do porquê de os vimaranenses terem elegido, com maioria absoluta, Ricardo Araújo para seu presidente de Câmara, estas dissiparam-se.
Trata-se, ainda por cima, de uma ideia original e projeto de dois vimaranenses: o músico e pensador Tiago Simão e o arquiteto João Mendes. Que esta ideia não seja importada e que parta da valorização do tecido criativo e da massa cinzenta local, ainda me parece mais louvável e necessário num combate ao provincianismo de que padece o país que considera, de uma forma geral, que só o que vem de fora é que é bom ou, pelo menos, o que vem de Lisboa.
O Parque da Imaginação Musical é um lugar incrível onde miúdos e graúdos podem, através do jogo, mas a partir da pedagogia, experimentar a música, descobrir o som e crescer com arte. A adesão tem sido total e é uma daquelas ideias que só podemos mesmo elogiar, mas, ainda assim, passou ao lado da informação nacional. A minha sugestão este mês vai, por isso, para a descoberta do PIM e que este projeto e esta ousadia a que Guimarães há muito nos habituou inspire o país a pensar para lá do lugar-comum e a ousar sonhar com um futuro em que o espaço público, mais do que apenas festa por festa, é o lugar onde vivemos e somos comunidade.

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