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A NATO e a China

A NATO e a China

As relações entre a NATO e a China foram praticamente inexistentes durante a década de noventa do século passado e atingiram um ponto baixo quando a NATO bombardeou a embaixada chinesa em Belgrado (maio 1999). As conversações de alto nível entre a NATO e a China iniciaram-se em 2002, por iniciativa de Pequim, após uma visita surpresa do embaixador chinês em Bruxelas ao secretário-geral da Aliança. Essa iniciativa abriu as portas a um diálogo que se manteve até aos dias de hoje, não só ao nível político como militar.
Os encontros entre as duas partes tornaram-se frequentes, tanto em Bruxelas como em Pequim, normalmente ao nível de Secretário-Geral Adjunto, do lado da NATO, e de vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, do lado da China. O ponto alto desses encontros teve lugar em 2009 quando o Vice-Secretário-Geral NATO visitou Pequim. O diálogo a nível militar iniciou-se em 2010, quando uma delegação militar chinesa visitou o quartel-general da NATO, em Bruxelas, mantendo-se a partir daí contactos regulares até aos dias de hoje, embora de alcance muito limitado.
A China participou nalgumas atividades promovidas pela NATO. Em 2002, tornou-se um observador permanente do Submarine Escape and Rescue Working Group (SMERWG), e participou no exercício Sorbet Royal, um importante exercício militar conjunto da NATO focado na fuga e salvamento de submarinos; também participou anualmente em atividades promovidas pela NATO Scientific and Environmental Affairs Division; desde 1999, em programas patrocinado pelo Science Prgrame’s Cooperative and Techology. Para além disso, oficiais chineses participaram em seminários anuais organizados pela NATO sobre desarmamento e não-proliferação.
Entre 2010 e 2014, militares e diplomatas chineses participaram em cursos organizados pela NATO School, em Oberammergau (Alemanha), a principal instituição de formação individual da NATO, ao nível operacional. A NATO manteve também contactos com a China, em Cabul, entre a embaixada chinesa e a missão da Aliança, no Afeganistão. Este relacionamento ocorria no âmbito de um diálogo militar pragmático focado na transparência, segurança marítima (incluindo antipirataria) e questões globais, sem ter a China o estatuto de parceiro.
Este relacionamento já limitado, resfriou-se a partir da Cimeira de Londres (2019), quando a NATO passou a considerar a China um desafio sistémico aos interesses, à segurança e aos valores dos países aliados. Essa linguagem passou a ser a norma nos documentos estratégicos da Aliança como, por exemplo, o Conceito Estratégico da NATO, em 2022.
Segundo o Comunicado final da Cimeira de Haia (2022) “as ambições declaradas e as políticas coercivas da República Popular da China (RPC) desafiam os nossos interesses, a nossa segurança e os nossos valores… as operações híbridas e cibernéticas maliciosas da RPC, bem como a sua retórica de confronto e desinformação, têm como alvo os Aliados e prejudicam a segurança da Aliança… e esforça-se por subverter a ordem internacional baseada em regras, nomeadamente nos domínios espacial, cibernético e marítimo. O aprofundamento da parceria estratégica entre a República Popular da China e a Federação Russa e as suas tentativas, que se reforçam mutuamente, de minar a ordem internacional baseada em regras vão contra os nossos valores e interesses.”
O endurecimento da linguagem por parte da Aliança, tinha a ver fundamentalmente com dois temas: a guerra na Ucrânia e o papel da China no Indico-Pacífico, em ambos os casos alinhada com o discurso de Washington.
No primeiro caso, a NATO acusa Pequim de ser um facilitador da invasão da Ucrânia pela Rússia. Para além de não condenar aberta e publicamente Moscovo, fornece componentes eletrónicos e apoio económico fundamental para sustentar a base industrial militar russa; omitindo, convenientemente, o facto de empresas chinesas venderem às empresas europeias os componentes eletrónicos que estas fornecem à Ucrânia. No segundo caso, os altos dignitários da NATO, em particular, o secretário-geral da NATO Mark Rute, numa linguagem tremendamente hostil, apresentam a China como “uma ameaça direta ao Ocidente, especialmente em relação a Taiwan.”
As declarações dos altos dignitários da NATO e a leitura dos documentos estratégicos da Aliança deixam os dirigentes chineses muito preocupados sobre uma possível intervenção da NATO no índico-Pacífico ao lado das forças americanas, talvez excessivamente preocupados.
Se a “NATO 3.0” que os EUA vieram propor aos aliados se concretizar, será uma NATO mais próxima da “NATO 1.0”, dos tempos da Guerra Fria, centrada na defesa coletiva e no Art.º V, e menos da “NATO 2.0”, do pós-guerra-fria e da gestão de crises da segurança cooperativa, então Washington não contará com ela no Índico-Pacífico. Embora fique a dúvida: para quê exigir 3.5% do PIB com despesas em defesa (a menos que seja “apenas” para apoiar o complexo militar industrial norte-americano) se, simultaneamente, Washington afirma que a Europa chega militarmente para a Rússia e que a Rússia não tenciona atacar a Europa? Não se pode excluir que a contradição não passe de “gato escondido com o rabo de fora.”
Na ausência de uma NATO no Pacífico ocidental para cercar a China, tal como existe na Europa para bloquear a Rússia, os EUA contam com o equipamento preposicionado na região, com uma enorme rede de bases e instalações militares, e com acordos estabelecidos com países da região para aceder ao seu território, aquilo que é a maior concentração de forças americanas no exterior do seu país (80 – 90 mil militares permanentemente destacados na região); e com os seus parceiros da região que integram a parceria da NATO “Parceiros à Volta do Globo”, mas não só.
O reforço da presença norte-americana nos últimos anos nessa região, o desenvolvimento de conceitos como o Agile Combat Employment, e o debate sobre a eventual realocação de parte dessas forças para regiões mais afastadas da costa chinesa, não levam em consideração o envolvimento e participação da NATO. Por isso, é com Washington que Pequim deve concentrar os seus esforços e atenção e não com Bruxelas. A hipotética participação de países da NATO numa aventura militar norte-americana na região será sempre marginal ao esforço de guerra que os EUA necessitam empreender. Esperamos que as flagrantes insuficiências militares demonstradas pelos EUA no ataque ao Irão, em fevereiro de 2026, resfriem o ímpeto de Washington se envolver numa operação contra Pequim, até porque Pequim não é Teerão.

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