Marcados respondem positivamente às intercalares nos EUA
Os futuros dos índices bolsistas norte-americanos responderam aos resultados das eleições intercalares – nas quais os democratas conquistaram o controlo das duas câmaras do Congresso – de forma claramente positiva, recuperando as perdas registadas nos dias anteriores. “O presidente Donald Trump afirmou que aceitaria os resultados eleitorais, o que atenuou a incerteza política e incentivou os investidores a comprarem ações após a recente onda de vendas”, refere um research da consultora XTB.
“Os futuros do S&P 500 (US500) recuperaram de uma queda anterior de quase 1,4%” e passaram, logo após as primeiras horas a seguir ao fecho das urnas, a ser negociados com uma subida de 0,8%. Os futuros do US500 registaram uma clara recuperação em forma de V. “Se o índice ultrapassar a barreira dos 7.700 pontos [o que, na altura, ainda não acontecia], os próximos níveis de resistência importantes poderão situar-se em torno dos 7.820 e 7.900 pontos, estando esta última zona próxima do máximo histórico. O suporte principal situa-se nos 7.500 pontos, marcado pelo mínimo estabelecido durante a reação inicial do mercado aos resultados eleitorais”.
“Observa-se uma reviravolta semelhante nos futuros do Nasdaq 100 (US100), que tinham caído mais de 2% antes de recuperarem totalmente as perdas e registarem uma subida de 0,4%”. O Nasdaq 100 recuperou-se acentuadamente, “apoiado em parte pelos resultados trimestrais acima do esperado divulgados no dia anterior pela AMD e pela Arista Networks, empresas beneficiárias das infraestruturas de IA”. Ainda no que diz respeito ao US100, “a zona entre os 28.900 e os 29.000 pontos parece, neste momento, constituir uma importante zona de resistência. O suporte situa-se em torno dos 27.500 pontos, correspondendo ao mínimo estabelecido durante o recente sell-off”.
Para a XTB, esta reviravolta acentuada sugere um aumento do apetite pelo risco, embora a sustentabilidade da recuperação dependa da forma como os investidores continuarem a avaliar o novo equilíbrio de poder político em Washington.
Apesar das preocupações iniciais sobre a forma como as ações do setor tecnológico poderiam reagir a uma vitória democrata, o mercado mostra poucos sinais desses receios cerca de três horas antes da abertura dos mercados do outro lado do Atlântico.
Uma reação demorada
Apesar de toda esta movimentação otimista, a verdade é que, como refere a XTB, os mercados demoraram a absorver as consequências dos resultados. Ou seja, tiveram um primeiro momento em que precisaram de ‘esperar para ver’. Isso mesmo se constatou pela abertura dos mercados orientais – que abriram antes ou imediatamente a seguir ao fecho das urnas (que sucedeu entre as 23 horas de terça-feira e as seis de quarta em termos do horário português).
Assim, as bolsas asiáticas registaram resultados mistos nas primeiras horas de negociação, com fortes quedas em Tóquio e em Seul e ganhos moderados na Índia e na China.
Na Bolsa de Tóquio, o principal índice, o Nikkei, recuou 3,56% até ao intervalo da sessão, perdendo 2.246,5 pontos, para 60.835,36 pontos. O índice mais abrangente Topix, que reúne as empresas japonesas da secção principal do mercado, as de maior capitalização, caiu 2,49%, ou 98,01 pontos, para 3.832,27 pontos.
Em Seul, a tendência foi semelhante, com o principal índice, o Kospi, a perder 3,54% após as primeiras três horas de negociação. O indicador recuou 199,98 pontos, para 5.448,81 pontos, invertendo a tendência positiva registada na abertura da sessão. O índice Kosdaq, que reúne empresas tecnológicas e de média capitalização, caiu 2,69%, ou 18,93 pontos, para 685,46 pontos.
Na China continental, os mercados apresentaram resultados mistos. A Bolsa de Xangai recuou 0,1% durante a sessão da manhã, enquanto Shenzhen avançou 0,14% e o índice CSI 300, que acompanha as 300 principais empresas cotadas nos dois mercados, valorizou 0,04%. A Bolsa de Pequim registou uma queda mais acentuada, de 0,54%, embora tenha menor peso no mercado financeiro chinês, devido à sua criação recente, em 2021, e à concentração em pequenas e médias empresas. Em Hong Kong, o índice de referência Hang Seng avançou 0,02% até ao intervalo da sessão.
Do outro lado do estreito de Taiwan, a tendência foi mais negativa, com o índice Taiex, da Bolsa de Taipé, a recuar 2,73% a menos de uma hora do encerramento.
Na Índia, os principais índices abriram em terreno positivo, depois de quatro sessões consecutivas de fortes valorizações. O BSE Sensex, índice de referência da Bolsa de Bombaim, que reúne 30 das maiores empresas cotadas, subiu 0,59%, enquanto o Nifty 50, da Bolsa Nacional de Valores, que acompanha as 50 empresas com maior liquidez, avançou 0,47%.
Nos principais mercados do Sudeste Asiático, predominaram as perdas, com quedas em Singapura (1,45%), Tailândia (0,95%), Indonésia (0,79%) e Malásia (0,17%). Em sentido contrário, as bolsas das Filipinas e do Vietname registaram ganhos de 0,98% e 0,33%, respetivamente.
Mas tudo isso foi ‘sombra de pouca dura’: depois desta abertura mista e ‘medrosa’, as sessões estabilizaram e o fecho acabou por ser sem direção única, mas com uma clara recuperação das perdas mais acentuadas: a Coreia do Sul teve a reviravolta mais impressionante, anulando as perdas do início para fechar a subir 0,6%; Taiwan , embora tenha fechado em terreno negativo (queda de 0,8%), recuperou bastante face à forte queda de 3% registada a meio da sessão; e o Japão manteve um comportamento mais pressionado ao longo do dia, tendo, apesar de tudo, conseguiu suavizar o tombo inicial, fechando com uma descida de 1,34%.
As razões da China
Na China, o cenário foi marcadamente diferente do resto da Ásia: as principais bolsas registaram fortes subidas e fecharam com ganhos expressivos, com os investidores a conseguirem contrariar a instabilidade internacional provocada pelas eleições. Em Xangai, o Shanghai Composite disparou 2,16%, fechando nos 3.686,2 pontos; em Shenzhen, o Shenzhen Component: Teve uma subida ainda mais expressiva, avançando 4,22% para os 11.335,7 pontos.
Esta forte valorização não ficou a dever-se às eleições nos longínquos Estados Unidos, mas deveu-se sobretudo a medidas de apoio direto de Pequim para estabilizar o mercado financeiro. O Banco Popular da China anunciou esta quarta-feira que os pedidos para o seu programa de empréstimos para a compra e recompra de ações já ultrapassaram os 200 mil milhões de yuans (cerca de 30 mil milhões de dólares).
Esta injeção rápida de liquidez e suporte regulatório acabou por blindar o mercado chinês da volatilidade gerada pela mudança de equilíbrio político no Congresso norte-americano, canalizando o otimismo dos investidores para os estímulos domésticos, referem as consultoras.
Europa também recuperou
Os mercados na Europa abriram em alta generalizada. O índice de referência EuroStoxx 600 registou subidas, acompanhado por fortes valorizações em praças como Madrid e Milão (que chegaram a subir mais de 1%), além de avanços em Londres, Paris, Frankfurt e Lisboa.
Independentemente da evolução posterior das cotações – que necessariamente incorporam motivações particulares a cada mercado – o certo é que os analistas foram unânimes em considerarem que os resultados das eleições intercalares norte-americanas agradaram aos investidores europeus.
Que acreditam, referem as mesmas fontes, que a distribuição de pesos nos Estados Unidos surge como um elemento de alavancagem da previsibilidade dos mercados mobiliários.
O setor financeiro dominou a sessão europeia, registando um crescimento de quase 4% e liderando a recuperação das ações, graças à perspetiva de o BCE manter as taxas de juro mais elevadas e de o capital regressar às instituições de crédito europeias com custos de financiamento mais baixos. Ganhos sólidos, superiores a 2%, foram também registados nos setores dos serviços públicos, bens de consumo e telecomunicações. O único setor no vermelho foi o da tecnologia (uma queda inferior a 0,3%), afetado pela cautela em torno dos gastos com IA, referia a XTB.
Alívio nos juros da dívida…
Do mesmo modo, os rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americanos caíram imediatamente a seguir à confirmação (que as sondagens já tinham antecipado) da vitória dos democratas nas duas câmaras do Congresso.
Espera-se que o Congresso “limite as tentativas da administração de aumentar os gastos. Os democratas também devem pressionar pelo fim do conflito no Irão. Assim, “o rendimento dos títulos a 10 anos está em 4,925%, abaixo do fecho do dia anterior ontem, de 4,951%. O rendimento dos títulos a dois anos cai para 4,602%, face aos 4,612%.
“Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA estão em queda, com os investidores a comprarem mais títulos após os democratas conquistarem o controlo da Câmara e do Senado. Analistas afirmam que a queda nos rendimentos decorre da expectativa de que um Congresso democrata irá restringir a despesa da agenda do presidente Trump durante o segundo semestre do seu mandato”, refere uma análise do ’The Wall Street Journal’.
… nos mercados cambiais…
Nos mercados cambiais, o anúncio dos resultados das eleições provocou um enfraquecimento generalizado do dólar norte-americano face às principais moedas globais, com particular destaque para a valorização do euro. As principais movimentações registadas esta quarta-feira refletem o alívio na dívida pública e as perspetivas de estabilização orçamental.
Assim, o euro registou uma valorização expressiva e subiu entre 0,5% e 0,6%, fixando-se na fasquia dos 1,1248 a 1,1266 dólares. A moeda única europeia tocou assim o seu valor mais alto da última semana.
Ao mesmo tempo, o índice do dólar (DXY), que mede a força da divisa norte-americana face a um cabaz de moedas internacionais, recuou substancialmente. Os investidores deixaram de procurar o dólar como ‘ativo de refúgio’ assim que Donald Trump dissipou os receios de contestação eleitoral e o cenário de um Congresso dividido acalmou as expectativas de uma inflação galopante, referem os analistas da Trading Economics.
“A estabilização das previsões políticas também permitiu que moedas como o iene japonês e o yuan chinês recuperassem terreno face ao dólar, acompanhando a tendência de alívio e mitigando as perdas das sessões anteriores”, referiram ainda.
… e nas matérias-primas
O mercado de matérias-primas não podia passar ao lado do alívio noutras zonas dos mercados globais. Assim, o preço do ouro disparou quase 3%, ultrapassando a barreira dos quatro mil dólares, “sob a influência de um dólar mais barato e da descida das taxas de rendibilidade das obrigações”, refere a XTB. O mesmo sucedeu com a prata: com a forte valorização dos metais preciosos e industriais, este material valorizou mais de 4,5%
Mais importante para a generalidade dos habitantes do planeta, o petróleo Brent: desceu quase 2%, para cerca de 102 dólares por barril, “devido à redução do prémio geopolítico após as eleições e aos relatos de negociações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irão”, refere ainda a XTB.
Já o petróleo WTI, de referência para o mercado norte-americano, registou uma queda de 2%, caindo para cerca de 95 dólares por barril, “sob o efeito dos mesmos fatores que atenuaram o risco do lado da oferta”.
Finalmente, o gás natural na Europa registou uma forte onda de vendas, superior a 6%, que empurrou os preços abaixo do limiar dos 89 euros/MWh.
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