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Bolsa portuguesa lidera ganhos europeus e expetativa aponta para bater de novos máximos

Bolsa portuguesa lidera ganhos europeus e expetativa aponta para bater de novos máximos

A Bolsa portuguesa tem condições para continuar o bom arranque de ano, considera o head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz.
Recorde-se que o PSI bateu recentemente um máximo face a 2010. Vários fatores, explicam o bater deste máximo, e a possível continuação desta onda verde na praça financeira portuguesa, assinalam os especialistas consultados pelo Jornal Económico (JE). Entre eles a aproximação da época de resultados para a qual existentes “expetativas elevadas”, o contexto macroeconómico, os fundos europeus, e também na soma de três “motores”: lucros, narrativa setorial e remuneração ao acionista (dividendos/recompras). Contudo a incerteza geopolítica pode ser uma interrogação.
Desde o início do ano a bolsa portuguesa já soma um ganho de 6% (valores retirados durante a sessão bolsista de segunda-feira, 9 de fevereiro), o que coloca o índice com o maior ganho entre as principais bolsas europeias e com um melhor desempenho face aos índices norte-americanos (S&P 500, Nasdaq e Dow Jones). Nesse período, o DAX (Alemanha) tem ganhos de 0,8%, o CAC 40 (França) avança 0,8%, o IBEX 35 (Espanha) sobe 3,1%, o FTSE 100 (Reino Unido) valoriza 4%, e o AEX (Países Baixos) sobe 2,6%. Quanto aos índices norte-americanos o S&P 500 soma 1,2%, o Nasdaq quebra 0,6%, e o Dow Jones sobe 4,2%.
Este impulso positivo na bolsa portuguesa acabou por se refletir recentemente no atingir de máximos de 2010, algo que é explicado por vários fatores. A começar pela alteração da estrutura e da composição do índice ao longo dos anos, em que empresas com maior peso possuem na influência na performance, como assinala um dos especialistas consultados pelo JE.
“Há aqui um ponto importante para enquadrar a comparação “desde 2010”: o índice não é “o mesmo” de há 16 anos. O PSI mudou de estrutura e até de designação, deixou de ser PSI-20 e passou a chamar-se apenas PSI, refletindo também alterações na metodologia e no universo de empresas que o compõem. Isto significa que o “regresso a máximos” é um sinal de força do mercado, mas também resulta de uma composição mais concentrada, em que alguns nomes com maior peso conseguem influenciar o índice de forma positiva com mais facilidade”, explica o analista da XTB, João Cruz.
O analista da XTB acrescenta que para o investidor de retalho, a expressão “máximos desde 2010” é sobretudo um sinal de “confiança e de ciclo favorável”, mas alerta que isso não é sinónimo de “subidas garantidas”. João Cruz sublinha que níveis altos podem trazer “mais volatilidade” e também “aumentar” a diferença entre empresas: “algumas sobem por terem lucros e dividendos consistentes, outras ficam para trás se não entregarem resultados”, salienta.
“Por isso, faz sentido olhar para os fundamentos (lucros, dívida, capacidade de pagar dividendos, entre outras variáveis) e não apenas para o facto de o índice estar em máximos”, reforça João Cruz.
João Cruz relembra que os níveis de 2010 possuem também um “peso histórico” na leitura do mercado tendo em conta que este ano antecedeu o pedido de assistência financeiro português que envolveu Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), que encerrou em 2014.
“O que se viu nos anos seguintes foi uma recuperação mais lenta do que noutros mercados europeus, e só mais recentemente se juntou uma combinação favorável: melhor sentimento na Europa, rotação para ações com dividendos e “valor”, e maior foco dos investidores em empresas com fluxos de caixa previsíveis. Em 2025, essa dinâmica foi particularmente forte e colocou Lisboa entre as praças europeias com melhor desempenho do ano”, explica João Cruz.
O head of trading do Banco Carregosa, João Queiroz, destaca o “ímpeto notável” que o índice português está a registar neste início do ano, refletindo a “consolidação” da “trajetória ascendente” que se iniciou no ano anterior.
Recorde-se que a bolsa portuguesa e a espanhola tiveram os melhores desempenhos, em 2025, entre os principais índices europeus.
Rali da bolsa portuguesa tem condições para continuar
“Este arranque vigoroso sugere que o rali da praça nacional ainda poderá estar distante de se ter esgotado, apoiado numa confluência de fatores estruturais e conjunturais que se reforçam mutuamente”, afirma João Queiroz.
João Queiroz assinala também que este arranque de ano [valores referentes ao período entre 1 de janeiro e 9 de fevereiro] na bolsa nacional traz também uma “amplitude de mercado assinalável” onde se destacam os ganhos da Galp (+19%), Sonae (+14%), NOS (+15%), EDP (+9%), a que se juntam outras cotadas como a Semapa (+7%) e a EDP Renováveis (+9%) a acompanhar a tendência positiva, “demonstrando que o otimismo se estende por vários sectores” da economia.
“Mesmo o BCP, que já havia registado ganhos substanciais em 2025, mantém uma valorização de 3,1% no ano, confirmando a robustez da recuperação bancária”, acrescenta o head of trading do Banco Carregosa.
“Quando vemos ações a renovarem máximos, normalmente a explicação não está num único fator, mas na soma de três motores: lucros, narrativa setorial e remuneração ao acionista (dividendos/recompras)”, refere João Cruz, sobre o desempenho do PSI, que o levou a atingir um máximo de 2010.
Época de resultados deve ser catalisador para bom momento da bolsa portuguesa
João Queiroz considera que a aproximação da época de resultados relativos ao quarto trimestre de 2025 e ao conjunto do exercício surge como um “catalisador adicional” para o entusiasmo dos investidores.
“A Navigator abre as hostilidades a 19 de fevereiro, dando o pontapé de saída numa sequência de divulgações que se estenderá pelas semanas seguintes”, assinala o head of trading do Banco Carregosa.
João Queiroz salienta que as expectativas [para a época de resultados] são “elevadas”. O head of trading do Banco Carregosa assinala que os analistas antecipam “resultados sólidos” para a generalidade das cotadas, suportados pela “resiliência” da economia portuguesa ao longo de 2025 e por “fundamentais empresariais” que se mantêm robustos.
“A carteira agregada apresenta indicadores atrativos, com rácios preço-resultado que, em muitos casos, se situam em níveis moderados face às perspetivas de crescimento, e rendibilidades por dividendos que, em alguns casos, ultrapassam os 4%”, explica João Queiroz.
O head of trading do Banco Carregosa salienta que esta “dinâmica positiva” inscreve-se num contexto macroeconómico “particularmente favorável”. João Queiroz acrescenta que o ciclo de flexibilização monetária do Banco Central Europeu (BCE), que mantém a taxa de juro de referência nos 2% desde meados de 2025, “continua a traduzir-se em condições de financiamento progressivamente” mais acessíveis.
“As taxas de juro aplicadas aos novos empréstimos às empresas portuguesas situam-se agora na casa dos 3,5%, enquanto no crédito à habitação já se posicionam abaixo dos 3%. Esta normalização das condições financeiras liberta capacidade de investimento empresarial e de consumo das famílias, sustentando o crescimento económico projetado de 2,2% para 2026”, diz João Queiroz.
“O sector bancário permanece no epicentro desta narrativa de recuperação. O BCP, que se tornou na quarta maior cotada nacional ao ultrapassar a EDP Renováveis em capitalização bolsista, beneficia de múltiplos ventos favoráveis: rácios de capital reforçados, malparado em mínimos históricos, e uma política de remuneração aos acionistas que prevê distribuir 75% dos resultados. Com lucros anuais a aproximarem-se consistentemente dos mil milhões de euros e uma rendibilidade por dividendos superior a 10%, o banco recuperou plenamente a confiança perdida na década anterior. Esta transformação não é exclusiva do BCP — o Novobanco, cuja marca registou a valorização mais expressiva do mercado em 2025 (+90,4%), exemplifica o quão longe chegou a consolidação do sistema financeiro português”, explica João Queiroz.
Sobre o BCP, João Cruz refere que a cotada “ilustra bem” o efeito de um ciclo longo de normalização: “melhoria de resultados, reforço da perceção de solidez e maior apetite por risco quando o mercado acredita que o pior já ficou para trás. O BCP apresentou lucros robustos nos primeiros nove meses de 2025 (com destaque para a operação doméstica) e, já em 2026, a ação foi notícia por tocar máximos de vários anos/uma década”, assinala o analista da XTB.
Ainda na bolsa portuguesa João Cruz destaca também a Sonae referindo que a cotada beneficia de uma leitura de “valor” (múltiplos mais baixos face a outras cotadas) e de uma componente de dividendo que “continua a ser relevante” para muitos investidores.
Fundos europeus dão ajuda à bolsa
O head of trading do Banco Carregosa acrescenta que, em paralelo, a implementação acelerada dos fundos europeus “continua a contagiar positivamente” a economia.
“Com transferências líquidas da União Europeia que deverão atingir 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, decorrentes sobretudo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), as cotadas de construção e infraestruturas podem beneficiar de visibilidade comercial sem precedentes”, refere João Queiroz. “A Mota-Engil ilustra bem esta tendência: a construtora encerrou os primeiros nove meses de 2025 com uma carteira de encomendas recorde de 15,7 mil milhões de euros e lucros que cresceram 20%, posicionando-se como o maior operador de mineração por contrato em África. Este robusto “pipeline” confere benigna previsibilidade aos fluxos de caixa futuros e pode justificar valorizações mais elevadas”, sublinha João Queiroz.
Internacionalização ajuda a crescimento do índice português
João Queiroz refere que a internacionalização das empresas portuguesas tem sido outro “pilar fundamental” desta performance [da bolsa portuguesa].
“A Jerónimo Martins, com os ventos que impelem a Polónia, conseguiu melhorar as margens operacionais para 4,1%, os níveis mais elevados dos últimos sete trimestres, enquanto a Galp, mesmo navegando num ambiente de volatilidade nos preços energéticos, nomeadamente crude e gás natural, e uma criteriosa gestão dos seus ativos (na Namíbia e Espanha), mantém uma estratégia de remuneração aos acionistas que se traduz numa rendibilidade por dividendos de 3,9%. Esta diversificação geográfica permite às cotadas portuguesas capturar oportunidades de crescimento em mercados com dinâmicas distintas, reduzindo a dependência exclusiva do ciclo económico doméstico”, refere o head of trading do Banco Carregosa.
O desempenho da Galp e da Jerónimo Martins é também assinalado pelo analista da XTB, João Cruz.
“A Galp é um bom exemplo de “motor financeiro”. O mercado tende a premiar empresas que combinam contínuos fluxos de caixa com políticas claras de devolução de capital (dividendos). A Galp tem vindo a comunicar uma trajetória de dividendo base e mantém instrumentos de recompra autorizados pelos acionistas, o que é tipicamente visto como um suporte adicional à cotação (menos ações em circulação e maior foco na eficiência do capital)”, salienta João Cruz.
“A Jerónimo Martins entra na categoria “defensiva com crescimento”. Em períodos em que os investidores procuram previsibilidade, o retalho alimentar costuma ganhar tração. Além disso, o grupo beneficia de exposição internacional, com mercados como Polónia e Colômbia a terem peso relevante no crescimento das vendas, algo que ajuda a explicar porque é que uma empresa portuguesa pode bater recordes mesmo quando a economia nacional não está em “boom””, acrescenta o analista da XTB.
RSI sinaliza ímpeto positivo
João Queiroz assinala que do ponto de vista técnico, os indicadores sugerem que “ainda existe margem” para progressão. “Das principais cotadas, 11 apresentam RSI (Índice de Força Relativa) acima de 60, mas abaixo de 70, território que sinaliza ímpeto positivo sem prémios excessivos”, refere o head of trading do Banco Carregosa. “Adicionalmente, a maioria das cotadas negoceia acima das respetivas médias móveis de 200 dias, confirmando tendências de fundo construtivas. A volatilidade de 30 dias do índice, situada nos 10,57%, permanece em níveis moderados, sugerindo que o movimento ascendente assenta em fundamentos sólidos e não em euforia especulativa”, acrescenta.
Contexto europeu tem beneficiado índice português
“O contexto europeu mais alargado também se revela propício”, refere João Queiroz sobre outro fator que pode beneficiar a bolsa portuguesa. “O índice STOXX 600 superou pela primeira vez os 600 pontos no início de 2026, refletindo um ambiente de apetite pelo risco renovado nos mercados do continente. A estabilização da inflação próxima do objetivo de 2% do Banco Central Europeu (BCE), conjugada com sinais de resiliência económica superiores ao inicialmente antecipado, alimenta expectativas de que o ciclo de descidas de taxas poderá estar concluído sem necessidade de novas restrições. Este equilíbrio delicado — crescimento suficiente sem pressões inflacionistas — constitui o cenário ideal para os ativos de risco”, salienta o head of trading do Banco Carregosa.
Incerteza geopolítica pode ser condicionante
Apesar de todo este clima favorável à continua do bom momento da bolsa portuguesa, João Queiroz alerta que subsistem interrogações. Uma delas prende-se com a incerteza geopolítica que se “mantém elevada”, assinala o head of trading do Banco Carregosa, com tensões comerciais globais que “podem afetar” as cadeias de valor e a confiança empresarial.
João Queiroz diz ainda que a transição energética “continua a pressionar” margens em setores expostos, como demonstram as dificuldades da EDP Renováveis, que gradualmente vai recuperando neste início de 2026. “A própria Galp, apesar da forte recuperação em 2026, viu a sua marca desvalorizar 8,28% em 2025, reflexo da volatilidade nos preços dos hidrocarbonetos e dos desafios da descarbonização”, acrescenta o head of trading do Banco Carregosa.
“Contudo, à medida que se aproxima a temporada de resultados, os investidores parecem focar-se nos fundamentais empresariais que podem superar as incertezas e a imprevisibilidade atual”, diz João Queiroz. “Os múltiplos de avaliação, embora mais elevados do que há um ano, permanecem em grande medida justificados pelas perspetivas de crescimento e pela solidez financeira das empresas”, sublinha.
Crescimento confirma que índice português é dos mais dinâmicas da Europa
João Queiroz acrescenta que a forte valorização que o PSI tem tido nos últimos 12 meses [+35%] reafirma a praça portuguesa como uma das “mais dinâmicas” da Europa, “sustentada por uma economia que cresce acima da média da zona euro, cotadas que geram sustentadamente valor, e um enquadramento monetário e orçamental que, por enquanto, se mantêm favorável”.
Apesar disso, João Queiroz assinala que as próximas semanas serão decisivas. “Os números da Navigator, seguidos pelos restantes resultados trimestrais e anuais, deverão confirmar, ou infirmar, as expectativas otimistas que têm impulsionado as cotações”, diz. “O contexto ibérico reforça o otimismo: a economia espanhola, com a qual Portugal mantém um elevado grau de integração comercial e produtiva, apresenta um desempenho excecional, com o IBEX35 a acumular ganhos de 41% nos últimos 12 meses”, sublinha o head of trading do Banco Carregosa.
“Esta pujança do principal parceiro económico português constitui um indicador favorável, sugerindo que a península Ibérica se destaca claramente no panorama europeu. Num cenário onde as projeções se materializem e esta dinâmica regional se mantenha, o PSI poderá consolidar este movimento ascendente e, eventualmente, superar os máximos históricos que agora se aproximam, escrevendo um novo capítulo na história da praça lisboeta e confirmando a capacidade das economias periféricas do sul da Europa para surpreender positivamente os mercados”, assinala João Queiroz.

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