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Antes que o mar decida por nós

Antes que o mar decida por nós

Nas ilhas francesas de Saint-Pierre-et-Miquelon, a única comunidade francesa na América do Norte, famílias estão já a ser relocalizadas devido à subida do nível do mar e ao agravamento de tempestades. Para já, a relocalização é voluntária e as primeiras famílias começam este ano a mudar-se. Este caso junta-se a um conjunto crescente de evidências que aponta para a necessidade de repensar a forma como lidamos com o litoral.
Durante décadas, a resposta dominante assentou em soluções de engenharia pesada, como diques, esporões ou alimentação artificial. Estas intervenções permitiram ganhar tempo, mas são caras, exigem manutenção contínua e, em muitos casos, apenas adiam o inevitável. Em muitos contextos, a estratégia mais eficiente não é uma proteção ilimitada, mas sim uma combinação de medidas, proteger onde faz sentido, investir em soluções baseadas na natureza e, em alguns casos, planear a relocalização. Este último ponto continua a ser o mais difícil pelas suas implicações sociais, culturais e políticas. Relocalizar implica reconhecer perdas, deslocar comunidades e enfrentar questões de identidade e pertença. Mas pode também ser a única forma de preservar essas mesmas comunidades no longo prazo.
Em Portugal, a erosão costeira afeta há décadas várias zonas do litoral. Em locais como a Costa de Caparica, Esmoriz ou Vagueira, a linha de costa tem recuado de forma consistente, exigindo intervenções regulares de alimentação artificial e construção de estruturas de proteção. Estas medidas têm permitido ganhar tempo, mas colocam uma questão inevitável, a que custo e durante quanto tempo?
O maior risco não é a relocalização em si, mas a forma como acontece. Quando é forçada por eventos extremos, torna-se desordenada e mais disruptiva. Por contraste, uma abordagem planeada permite envolver comunidades, preservar património e reduzir custos no longo prazo.
O caso de Saint-Pierre-et-Miquelon é um sinal do que pode tornar-se mais comum na Europa nas próximas décadas. Em Portugal, continuar a investir exclusivamente em engenharia costeira pode não ser sustentável. Em alguns casos, isso implicará aceitar que a linha de costa não é fixa e que proteger comunidades pode significar, paradoxalmente, afastá-las do mar. A questão já não é se teremos de tomar estas decisões, mas quando e se o faremos de forma planeada.

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