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Petróleo: batalha atrás de batalha

Petróleo: batalha atrás de batalha

Desde a sua descoberta e utilização comercial em meados do século XIX, o petróleo tem vivido num registo permanente de – tomando agora emprestado o título de um filme recente – “batalha atrás de batalha”. O petróleo não é apenas uma fonte energética; é um recurso estratégico que molda economias, governos nacionais e conflitos regionais e globais.
Historicamente, o controlo do petróleo tem ditado o destino de nações. Na Primeira Guerra Mundial, o acesso ao novo combustível foi decisivo para a mobilidade das forças aliadas. Na Segunda, o Japão atacou as Índias Orientais Holandesas por causa dos seus recursos petrolíferos, ao passo que a Alemanha sofreu penosamente com a sua escassez. O embargo árabe de 1973, a Revolução Iraniana de 1979, a Guerra Irão-Iraque (1980-88), a invasão do Koweit por Saddam Hussein em 1990 e as subsequentes Guerras do Golfo ilustram bem como o crude transforma rivalidades regionais em crises energéticas globais.
A indústria tem sido sinónimo de boom e bust, de fortunas rápidas e de colapsos devastadores, praticamente desde a descoberta do primeiro campo de petróleo em Titusville, Pensilvânia (EUA), em 1859. Esta volatilidade permanente resulta da combinação de fatores geológicos, económicos, políticos e agora climáticos.
Rockefeller no final do século XIX, a Texas Railroad Commission uns anos depois e, já no pós-guerra, as chamadas Seven Sisters – as sete maiores empresas petrolíferas do mundo -, todos testaram vários mecanismos de mercado visando estabilizar os preços. Mas os resultados nem sempre foram os melhores. Com a criação da OPEP, em 1960, assistiu-se a um esforço de cartelização internacional tão patente que eminentes jurisconsultos internacionais chegaram a propor a sua ilegalização. A despeito do controlo ocasionalmente conseguido, a OPEP, nas suas mais de seis décadas de existência, viu os sucessivos ciclos de excesso e escassez de produção sobreporem-se regularmente aos seus mais diligentes esforços.
Como nota Robert McNally no livro Crude Volatility, o mercado do petróleo é estruturalmente propenso a extremos, com choques de oferta (guerras, revoluções) e de procura (crises económicas, pandemias) a amplificarem a instabilidade.
Nos últimos dois meses esta característica agravou-se dramaticamente com a guerra no Irão e o bloqueio do Estreito de Ormuz. O estreito, por onde passava até janeiro cerca de 20% do petróleo mundial (e volumes semelhantes de gás natural e produtos refinados), tornou-se o epicentro de uma das maiores disrupções da história da energia mundial. Após os ataques EUA-Israel contra o Irão, em finais de fevereiro, Teerão fechou o estreito em março, declarando-o sob o seu controlo. Os EUA responderam em abril com um bloqueio naval aos portos iranianos.
O tráfego marítimo colapsou. O impacto nos preços foi imediato e violento. O Brent (preço de referência fora dos EUA) disparou de cerca de $72 por barril em finais de fevereiro para picos acima de $120, um aumento superior a 55-70% em poucas semanas. No início do mês de maio de 2026, está a oscilar entre $100-120, com volatilidade extrema: subidas de 5-7% num dia, seguidas de correções.
Perspetivas para os próximos meses
Hoje mais do que nunca é algo temerário antecipar o preço do barril de petróleo. Mas, por dever de ofício, sempre se dirá que ele dependerá da duração do conflito, da abertura do Estreito de Ormuz e da resposta dos mercados a jusante, nomeadamente os dos produtos refinados. Há, pelo menos, dois cenários possíveis:

 Prolongamento do impasse: se o bloqueio naval americano e as contramedidas iranianas continuarem, as perdas globais de 3 a 9 milhões de barris/dia (as estimativas variam) sustentariam preços acima dos atuais $100-110. Na banda dos $150 será praticamente inevitável o aumento da inflação e até uma eventual recessão, com especial impacto sobre as economias emergentes.
Reabertura gradual do Estreito de Ormuz: não parece muito provável no curto prazo, mas é possível que o tráfego no estreito venha a aumentar lentamente, com a participação de escoltas internacionais um tanto semelhantes às que operaram durante a guerra entre o Irão e o Iraque (1981/88). Num contexto de alguma confiança por parte das seguradoras e armadores, o preço do barril poderia voltar a descer abaixo dos $100.

Persistem, porém, muitas incógnitas sobre os stocks comerciais disponíveis internacionalmente e a forma como se irão comportar nas próximas semanas. A isso acrescem os riscos geopolíticos e o de um súbito reacender do conflito armado. É, pois, de esperar a continuação de uma volatilidade alta: oscilações diárias de 3-5% são expectáveis com cada notícia de ataque ou de negociação.
Num outro plano, não menos importante, esta crise pode acelerar a transição energética, ainda que no curto prazo reforce a dependência dos combustíveis fósseis. Se o conflito se arrastar é provável que os países europeus e asiáticos diversifiquem geograficamente o seu aprovisionamento (EUA, África, América Latina), enquanto o Irão e a OPEP se arriscam a perder influência, como vimos recentemente com a saída abrupta dos Emirados tanto da OPEP como da OPEP+. A indústria petrolífera continua a viver entre estabilidade e caos, entre produtores e consumidores, entre passado fóssil e futuro sustentável.
Em suma, a volatilidade não é acidente – é a essência do setor. Nos próximos meses, esperam-se preços do petróleo elevados e instáveis. Só uma resolução diplomática duradoura trará alívio. Doutra forma, o mundo e os povos enfrentarão outro capítulo doloroso desta saga centenária de batalha atrás de batalha.

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