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Houve um antes e um depois de “Seinfeld” no mundo das séries

Houve um antes e um depois de “Seinfeld” no mundo das séries

Não vem mal ao mundo se pedirmos ajuda neste assunto. Ou melhor, se auscultarmos um norte-americano, professor universitário jubilado, que, até muito recentemente, tinha por hábito testar um poder irracional disparando esta frase num espaço público qualquer. “The sea was angry that day, my friends…”, na expectativa de que um qualquer transeunte conhecesse e completasse a dita frase. Absurdo? Talvez. Divertido? Muito. Pois criava cumplicidades, ainda que momentâneas, entre o tal professor e conterrâneos indefetíveis da série “Seinfeld”.
Uma estória que diz muito sobre a sitcom que dividiu o mundo das séries de TV norte-americanas (e não só) em duas “eras”: antes e depois de 5 de julho de 1989, dia em que a série “Seinfeld” foi para o ar pela primeira vez nos EUA. Aquela que é uma das sitcoms mais populares da história da televisão, passou na NBC durante 9 temporadas, até 14 de maio de 1998. Sem ela, muito provavelmente, não teriam surgido séries como “Friends”, “The Office” ou “Modern Family”. Não sabemos, mas especulamos que a cultura pop televisiva seria, seguramente, diferente.
Zero lições de moral
Para quem não conhece a série, eis os mínimos para decifrar o que se segue. “Seinfeld” passa-se em Nova Iorque e acompanha a vida de quatro amigos solteiros, interpretados por Jerry Seinfeld, Julia Louis-Dreyfus (Elaine), Jason Alexander (George Constanza) e Michael Richards (Kramer). O quotidiano deste quarteto na Big Apple serve de pano de fundo. Nada de novo. A novidade é que aqui não entram ‘bons cidadãos’. Jerry, George, Elaine e Kramer são egoístas, mesquinhos, invejosos, verdadeiros bullies. Num episódio, por exemplo, acabam todos presos por se recusarem a ajudar um homem obeso em perigo.
Exemplos não faltam, porque as lições de moral não cabiam em “Seinfeld”. Cinismo, sim, e em doses pouco homeopáticas. Isto para não falar no politicamente correto. Tal tempero nunca existiu na série cocriada por Jerry e o seu amigo de liceu Jason Alexander, que vestiu a pele de Constanza, um dos quatro nova-iorquinos neuróticos que, em muitos episódios – mesmo muitos – se limitavam a desconstruir as suas neuroses à mesa do ‘restaurante do costume’. A inovação foi incluir dezenas de cenas num só episódio, filmado à boa maneira do cinema, que injetava dinamismo e velocidade à narrativa. Eram 22 minutos eletrizantes.
Popular… e polémico
Jerome “Jerry” Allen Seinfeld nasceu em Brooklyn no seio de uma família judia. Em 1999, casou com Jessica Sklar, com quem teve três filhos. Jerry deu os primeiros passos na stand-up comedy em 1976 e estreou-se na televisão em 1981, no conhecido The Tonight Show. No final da década de 1980 era um dos comediantes de stand-up mais conhecidos dos EUA. Claro que “Seinfeld” o catapultou para a estratosfera da popularidade, visto ser, ainda hoje, uma das sitcoms mais populares e influentes da História da televisão. Só nos EUA, 76 milhões de pessoas viram o derradeiro episódio da série. Um grand finale. O mais espantoso é que são 37 anos a falar de ‘nada’ desde que a série se tornou um fenómeno global. E nunca parou de crescer. “Seinfeld” não só é um enorme sucesso no streaming, como está a ser reposta em centenas de canais de televisão em todo o mundo. Netflix incluída.
Pelo meio, Jerry tem percorrido os EUA com as suas piadas no bolso. Os espetáculos de stand-up que deu por todo o país estão documentados em filme: “Comedian” (2002), “Jerry Before Seinfeld” (2017) e “Jerry Seinfeld: 23 Hours to Kill” (2020). Também se dedicou à escrita. “SeinLanguage” (1993) foi um best-seller. “Halloween” (2002) é um livro para crianças. E “Is This Anything?” (2020) reúne parte do material que foi criando ao longo da sua carreira.
Hoje, aos 72 anos, parece ter desistido de surfar a neutralidade política que manteve durante décadas. Envelheceu, fez fortuna e diz o que pensa – goste-se, ou não, das suas opiniões. Passou, também, a ser mais vocal sobre as suas raízes judaicas. Nos EUA e em Israel, onde visitou familiares de reféns do Hamas, embora nunca tenha dito uma palavra sobre as políticas do governo de Benjamin Netanyahu, o genocídio em Gaza ou as violações dos direitos humanos nos territórios palestinianos. A sua presença em diversas universidades tem sido recebida com desagrado. Segundo o “New York Times”, dezenas de estudantes abandonaram o recinto cantando ‘Libertem a Palestina’ quando a Universidade de Duke o distinguiu com um doutoramento honoris causa.” O comediante escreveu, em “Jerry Before Seinfeld”, que a única validação que lhe interessa, como ser humano, é receber umas “boas gargalhadas”, “se gostam ou não de mim é irrelevante.”
De 29 de outubro a 1 de novembro, o MEO Commedia a La Carte Fest – Festival Internacional de Humor, em Lisboa, terá Jerry Seinfeld como cabeça de cartaz na sua primeira edição. Que placas tectónicas irá o humorista norte-americano agitar por cá?

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